A vida é um caso de consciência súbita.
Há uns bons anos ganhei um cachorro...esse aí, ao lado. Fofinho, peludinho, branquinho, engraçadinho. Uma bolinha conquistadora.
Ele veio para "tentar" preencher um espaço que jamais poderia ser preenchido e eu sabia. Ainda assim se tornou o "filhinho" da casa...
Agora, 9 anos depois meu cachorro não anda bem. O veterinário me pediu que começasse uma terapia geriátrica. Fiquei chocada, acordei, sei lá...que idade mesmo tem meu cachorro?!!! E eu, que idade tenho?!!!
Bom, ele está certíssimo. Comecei a terapia, mas desde sábado meu cachorro não está bem. Meio chateado, enjoado, deprimido...Claro que faz quase dois anos que ele não corre pela casa, não busca a bolinha, não banca o histérico todo o final de tarde. Quanto a isto não pude fazer nada...se o "pai" não pensa em guarda compartilhada quem sou eu para exigir...
Só que hoje, eu me dei conta de que a coisa é bem maior. Fui escová-lo e comecei a conversar com ele. Isto mesmo, fui escovando pausadamente e falando. E ele me entendeu...Pedi uma pata para escovar e ele deu. Pedi a outra e ele trocou (não to inventado, disse: "agora a outra" e ele trocou). Pedi que deitasse para escovar a barriga, ele deitou. Deixou eu escovar o rabo sem as tradicionais mordidas e rosnadas. deixou eu "podar" os pelos do pipi sem me ameçar de morte...
Enquanto conversávamos perguntei se ele estava triste...ele suspirou e rolou de lado.
Foi aí que eu me dei conta.
Meu cachorro finalmente passou a entender tudo. Chegou o tempo de ele entender cada detalhe, cada gesto, cada silêncio, cada ausência. E igual a nós, os sabidos sapiens, quando isto acontece é porque o tempo passou.
Parece que tudo o que anda sobre a terra, quando chega em certo ponto da vida recebe a visão. Mas isso é lááááá adiante. As vezes em tempo de algo, as vezes não. Depois de tanto bater a cabeça, rosnar, correr atrás do rabo, bancar o bobinho a gente subitamente arregala os olhos e enxerga...vê o todo, o macro e o micro se misturando. Todos os nós se desfazem, o véu desaparece.
Uma merda isso...porque nunca acontece cedo.
O cedo pra quem vive, é tempo de fazer bobagem, ser cego, ser burro, se fazer de desentendido. Que nem o Freddie. Fez xixi onde não devia, cocô na hora errada, roubou beterraba e ficou lilás por 15 dias, esburacou tapete, manchou sofá.......se divertiu, nos divertiu. Só fez merda...
Agora que o relógio andou ele conhece a vida finalmente. A gente já brigou demais, já até se separou e voltou a ser uma dupla. Ele conhece a ausência, o medo de trovão, a sede e a dor. Ele teve uns carocinhos cretinos e foi operado como eu, sofre do estômago e do rim como eu...se chateia; também como eu. Fica nervoso.
E agora, puta merda...ele entende como eu. Como eu, que recém to começando a entendender a coisa toda.Pelo jeito preciso andar mais rápido...meus relógios cronológico e biológico deram uma bela avançada, e eu fazendo que não vejo.
Eu sempre juro que não quero mais cachorro.
Cachorro é um maldito calendário existencial que a gente é obrigado a acompanhar. Preferimos ignorar a passagem do tempo para quem amamos e para nós mesmos. Brincamos de roda até o fim...mas tendo um cachorro é impossível. Ele cumpre todas as etapas na cara da gente como tudo o que é vivo.
O problema é que não nos apegamos a uma tartaruga da mesma forma que a um cusco fofinho e babão. Uma tartaruga não ganha apelidinho, vira filhinho, usa roupinha e lacinho...cachorro é uma desgraça. Faz a gente sofrer...sempreeee.
Bem, o Freddie parece que agora é um senhor. Talvez saiba mais da vida do que eu.
Tudo bem alguém fazer terapia geriátrica aqui em casa. Sou boa nisto...não tenho problema com as "minhas horas" quando elas chegam. Vou fazer também...rsrsrsrs.
Eu só não queria ter a prova de que no final é que a gente entende tudo, aprende tudo. Fica esperto, calmo e nobre...
É muito injusto...com gente e com cachorro.

