quarta-feira

2010 se vai
Fim de uma década
Fim de um tempo
Fim de história
2011 chega
Um recomeço...

segunda-feira

UMA VADIA VELHA

A vida é uma velha vadia e má Uma eterna prostituta Uma mentira Uma bruxa de dentes podres Uma sentinela no barco das almas Asas negras e traições A vida é algo de podre, algo de rançoso, uma cerveja choca A vida é a tormenta sem bonança A ilusão sem esperança, curta, seca, fria A vida é uma cama vazia gelada demais, estreita e dura Uma coisa assim meio crua Carne curtida e de cheiro ruim Velha eterna e infeliz espremida num destino obrigatório Esperando o nada vir à passos largos Vadia e má Jackie - dez/2010

domingo

EROS



Há dez meses adquiri um cachorro boxer. Um belo filhote a quem dei o nome de Eros. Eros para me lembrar sempre que eu acredito no amor...

Apesar de tanto gostar de mitologia nunca tinha parado para pensar em Anteros.

Anteros é o irmão de Eros. E enquanto este último é representado como um luminoso anjo de cachos dourados, olhar azul e asas brancas; Anteros é um deus de longas melenas negras, olhos e asas negros.

Eros representa o amor apaixonado e impulsivo, o sentimento que une...Eros não admite o ímpar, a solidão. Este deus nunca cresceu, é intempestivo e imaturo, criança eterna...No dizer da poesia grega é um "deus alado, arqueiro ágil que brinca com os deuses e os mortais". Eros é inconsequente e causador de dores.

Anteros foi criado para ser o irmão que cresce, que amadurece. Anteros é o outro lado do amor...o ódio, a separação, o ímpar, o discenso. Anteros é a razão, a solidão, o discernimento, o rompimento. Consequentemente Anteros também é causador de dores em deuses e humanos. Irmãos, duas faces de um mesmo sentimento. Amor e ódio. Próximos, gêmeos, duas interpretações para uma mesma força dantesca.

Meu cachorro é imaturo, inocente, puro, bobo, apaixonado, incansável...chama-se Eros afinal. Acho que escolhi bem. Estou acompanhada do Eros para nunca esquecer de quanta impulsividade e dor seu deus homônimo é capaz de causar. Mas eu hoje não escolheria viver sem meu Eros.

Quanto a Anteros, passei a conhecê-lo há pouco tempo e somados os dois, não sei se sou grata por permitir que o irmão dourado se sobreponha em mim...



quarta-feira

É NATAL

Pessoal
Desejo à todos um Feliz Natal e uma linda entrada de ano...
Quem estiver com a família preste atenção no quanto são importantes as raízes.
Sua família não é nem melhor nem pior do que as outras...apenas é a sua, portanto é especial e a única.
Quem estiver em carreira solo, observe que amigos também podem ser nossa família, ou que estar sozinho até pode ser um bom remédio.
Porque no final das contas, o que importa é estar bem consigo mesmo, seja na multidão, seja jogado no sofá assistindo um filme em companhia do cachorro.
Dias de luz à todos...

terça-feira

TRAIR E TRANSGREDIR

Nesta mesma época, há um ano eu pensava diferente do que penso agora. Achava que a vida era feita de amores eternos, dedicação imensurável, fidelidade incontestável.
Eu aprendi aos tapas que não é assim e sinceramente agradeço.
Não acredito mais que alguém possa deitar e levantar da cama durante 40 anos com a mesma pessoa e morrer de tesão. Não vão ter velas, posições e lingeries que sustentem tanto tempo de repetição. Ninguém come macarrão todos os dias por toda a vida.
A gente as vezes olha na rua um homem tão diferente daquele que frequenta nossa cama...um cabelo diferente, mais alto, mais forte, mais expressivo. E pode ser que ele retribua um olhar atento. Algumas mulheres, fiéis a seus maridos e companheiros podem ir para a cama com este homem e transgredir a regra de ouro das relações duradouras.
Já os homens quando veem uma mulher que os atrai, eles não transgridem, eles traem.
No meu novo conceito de vida trair e transgredir tem pesos e medidas diferentes.
Nós mulheres, mesmo as transgressoras, nunca somos infiéis. Amamos aquele homem de sempre, nos doamos a ele, aceitamos seus defeitos, partilhamos a vida. É um tipo de fidelidade que se tem por um ser humano que consideramos parte de nós. Isto pode não impedir o transgredir as regras, sentir o sabor do suor alheio uma vez ou outra e manter a sanidade e o interesse pela vida de sempre.
Já os homens não. Esses maridos a quem as mulheres são fiéis, eles sim traem à valer. Eles desrespeitam suas parceiras, as desconsideram, menosprezam. Eles desafiam a sorte, exibem seu poder de sedução, passam a ser caçadores, tornam-se egoístas e manipuladores...tudo isto quando vem o tempo.
Não me digam que tem que inovar para deter o tempo. Tenho pena das que se iludem com suas inovações.
Inovação de verdade é um cabelo mais longo e de outra cor, uma bunda mais arrebitada, uns mamilos de outro tom, uma outra data na certidão de nascimento.
Tudo se resume no fato de que mulheres transgridem, mas não desrespeitam seus maridos, seus amores, seus parceiros de toda a vida. São discretas até à morte e até se sentem culpadas por uma certa insanidade temporária. Homens traem da forma mais vil e mais profunda...traem nos sentimentos, nas promessas, nas referências, nos sonhos e em tudo que foi construído.
Homens e mulheres são mesmo de planetas diferentes.
Casos há em que o feliz casal é do mesmo planeta...ou jura que é.
Chegando aos 40 eu aprendi que comer macarrão a vida toda não é saudável nem para o corpo nem para a mente. Apenas há que se ter respeito e lealdade. E quem pensar bem ou for no mínimo prático e realista, vai saber que não estou sendo assim tão incongruente.

domingo

ADEUS

Pois então
Foi nesta noite insípida a chuvosa que o sonho acabou
Acabou-se a alegria...embalos em dó maior
Apagaram-se as luzes
Deslizaram as estrelas do céu...e o firmamento chora
Choro eu
Morro um pouco a cada respiração...todo o soluço é punhal
A fome se foi...a sede passou
Tudo porque o sonho acabou
Pois então
Adeus eu disse à você...que palavra horrível de se dizer
Foi o que coube entre nós
Indolor pra você
O fim dos meus dias com luz
Fomos breves...fomos frios
Abandono sem lágrimas
Solidão
Assim é que foi...nesta noite terrível
Quebrou-se o encanto
Seus olhos brilhantes, drogados, distantes
Foi melhor...
Mas ainda assim
O melhor dos sonhos acabou em mim

quinta-feira

MADRUGADA



Eu acordo mas mantenho os olhos bem fechados. Quase posso ouvir o barulho na porta.
Sua calça jeans sussurra no silêncio da minha noite de paz.
Penso se você está sem camisa e então em seus braços e em abraços...pés descalços, o chuveiro, seu ar cansado. Seu cheiro é bom.
Sinto a cama afundar a meu lado. Você toca meu rosto com a ponta dos dedos, já sabe que gosto assim...traça meu perfil e o contorno da minha boca; respira compassadamente junto a meus olhos.
Se eu erguer a mão vou tocar seus cabelos revoltos sua barba macia. Eu suspiro e posso ouvir seu riso rouco. Me viro na cama e busco nitidez em meu olhar desfocado pela madrugada...mas não há você, não há nada.
Então levanto e me vejo no espelho. A espera tem se mostrado longa demais, os dias se arrastam e as noites são tomadas pela vontade de ver você chegando. Ando até a piscina e jogo no chão a camisola. Entro na água fria sabendo que são mais de duas horas nessa madrugada alucinada.
Me deixo embalar por um céu coalhado de estrelas.
Minha pele está gelada, mas todo o resto ferve em mim e meu coração se nega à calmaria. Tomo um comprimido e me deixo seduzir como a garota dos contos de fadas que dormiu demais.
Quero dormir por séculos.

O TEMPO DO CÉU


Nós homens que nos erguemos um dia e passamos a andar eretos sobre esta terra, fomos quem criou o conceito de ontem, hoje e amanhã...o que passou, o agora, o que virá. Conceito abstrato que nos arrasta ao derradeiro fim instigados por empreender o máximo num mínimo de tempo.
Já erguidos e podendo olhar os céus há tantos milênios deveríamos analisar mais as estrelas e conhecer a lição.
As estrelas que você pode ver agora, se tiver um tempo e voltar seus olhos para o firmamento, estas estrelas não estão mais lá. O que você vê lá em cima, luzindo e embelezando o manto negro é apenas o passado. As estrelas estão, na verdade, há milhares ou milhões de anos-luz daqui. Quando sua imagem nos chega, chega de um passado longínquo. São elementos refulgentes que ou não estão no mesmo lugar ou incandesceram, extinguiram-se.
Então se olhamos para cima, o que vemos é o passado. O que não existe mais. O que não está mais lá. E as imagens referentes ao nosso tempo chegarão aqui quando já não pudermos vê-las...
Sob nossas cabeças o passado e não temos acesso ao futuro. Pense então, além do âmbito estelar. A fórmula é a mesma, carregamos o ontem e não temos noção do amanhã. Parece mesmo que resta o agora. E como não se pode andar olhando para o alto, é bom se concentrar no hoje.
Não pense que eu bebi, fumei um baseado ou algo assim...é apenas a ciência servindo para dar formula ao bem viver. O que foi, está há anos-luz...o futuro você pode não poder enxergar. Vire-se com o agora e faça bom uso dele.
Quando ficar olhando o céu em busca de respostas lembre-se que as respostas não podem estar no passado. Abandone o firmamento, erga-se e ande.


A MORTE


O fim do ano está chegando e eu gostaria de compartilhar uma lição importante. Sempre soube de sua existência, mas não conseguia colocá-la em prática e 2010 me deu este novo dom. Não foi um presente inofensivo, foi duro recebê-lo, entendê-lo e finalmente, adotá-lo.
Trata-se do que está contido em uma frase simples: "Para ser felizes nós temos que abandonar os nossos mortos."
Esses mortos - sentido pra lá de figurativo - são tudo e todos os que perdemos, sofremos, não alcançamos, erramos, recebemos, entregamos; o que feneceu, se extinguiu, perdeu seu valor...temos que aceitar estas muitas mortes e simplesmente abandonar.
Eu não sabia quanta leveza há em andar sem carregar cadáveres. Já carreguei tantos que posso dizer que andei boa parte dos meus quase 40 anos curvada e extenuada.
Nossos mortos cheiram mal para quem está por perto, pesam muito, grudam em nossas vestes e nossa pele, nublam nossa visão, fazem lento nosso caminhar.
Da metade deste ano para cá eu, sem sentir, comecei a me despojar dos mortos. Não fiz questão de pranteá-los, enterrá-los com louvores, carregar souvenires deles...afinal estão mesmo mortos. Eu apenas fui largando-os pelo caminho e me erguendo. Respirando melhor, vendo com mais clareza, andando como deveria andar e por lugares que antes não andaria.
Foi um grande presente que a maturidade me deu. Sei que sou cheia de cicatrizes de batalhas, mas quem morreu em mim, quem me matou em si...eu soltei lentamente no chão em algum lugar lá atrás. Não ouço mais o roçar de algo que arrastava-se comigo, não tenho peso nos ombros, minha visão se ampliou incrivelmente. E, principalmente, tenho meu coração e minha mente somente para mim e para os vivos em torno de mim.
Nós somos uma cultura de preconceito em relação à morte. Mas a morte é o benefício final do existir, porque tudo precisa de um fim. Tudo na humanidade um dia tem que parar, murchar, romper a cadeia. Passando por nosso corpo físico até as escolhas que fizemos. E porquê tanto medo, tanto apego, tanta fuga? A morte é o prêmio final, traz leveza, libertação.
Então hoje procuro ser amiga da morte. Vou vivê-la muitas vezes e recebê-la com gratidão. Porque muitas coisas que virão para mim terão que morrer ainda e será bom que seja assim. E quanto aos cadáveres...devem ficar ali, onde a morte se deu. Cascas do que foram bons ou mau momentos, boas ou más pessoas, situações, opções, palavras, conceitos...tudo pelo chão ao longo da estrada. E nunca mais vou vê-los...porque leve e ereta eu ando sempre rumo ao novo, para frente...
Assim que tem que ser; eu sempre soube. Apenas agora entendi o intrincado mecanismo. Funciona, é honesto e é o fundamento que justifica a pompa de alguns funerais. Podem ser com choro, com velas, com festa regada a champagne, com brigas, com um adeus sem uma palavra de consolo ou gratidão...mas são funerais. Gostaria que todos aprendessem como sair deles de mãos limpas e alma leve. Eu estou feliz por ter aprendido antes do fim.

sexta-feira

Servos dos ossos


As vezes a terra se fende e expulsa de suas entranhas algumas criaturas inomináveis. Pessoas que entram na sua vida, te abraçam, te chamam de irmão, amor, amigo, pai, filho...cuidado.
Os racionais os chamam psicopatas ou sociopatas. Os crédulos os chamam de mal. Alguns ainda acham que são só crianças sem orientação...há, experimente.
Na verdade são pessoas que precisam viver sugando a alma, o bolso, a bondade e o amor alheios.
Há uma teoria antiga que fala dos 'servos dos ossos'. Diz que quando algo muito ruim anda sobre a terra, geralmente procura tomar para si a forma e a alma de alguém para seguir sempre em frente sem ser descoberto.
Agora pare e pense. Você já não foi, ou não está sendo o 'servo dos ossos' de alguém?
Geralmente começa de maneira imperceptível e a situação vai num crescendo até que tome você de todo ou até você reagir. Mas o neflin, a besta, o vampiro que precisa se alimentar de você; bem ele não aceita bem a descoberta. Ou a criatura consegue enganá-lo e permancer 'ancorado' em suas entranhas; ou a criatura tenta prejudicar você. Você pode ser agredido, roubado, enlameado e até morto. E tudo isto por alguém a quem você deu abrigo, amor, apoio, dinheiro, sangue...enfim, alguém a quem você se entregou em qualquer papel social.
Então agora pare e olhe ao seu redor. Você não precisa ser o 'servo dos ossos' até que nada reste de você. Você não precisa se condenar por um filho, um pai, uma irmã, um amor, um amigo. E não sinta dor, nem culpa, não se sinta burro, cego...afinal essas coisas não são humanas. Lembre apenas isto.Só uma coisa, perceba quem está a seu lado antes que o processo de doação chegue aos ossos. Não importando o que represente na sua vida, caia fora. Proteja-se.
Lembre-se, são o expurgo da terra fendida. Não vieram do mesmo lugar que nós. Não tem consciência, bondade, caráter...afinal nem alma tem.



quinta-feira

Balanço na tarde quente


Na tarde quente estava eu na rede. Pés descalços, pernas nuas na pouca brisa de verão.
Olho a tatuagem que desce em ondas pelo meu pé direito. Ela me fala da verdade e do que é honesto. E me fala de libertação e de magia. Penso em tatuar asa de anjo...não sei. Uma rosa, um coração, uma espada...
Penso em ousadias que prefiro não fazer. A maturidade é relevante e chata.
Apenas penso enquanto a tarde se arrasata em direção à noite.
O telefone toca e eu sei que não é você. Sei onde você está e que não pode me ver, nem me falar.
Levanto da rede, me dispo e me banho em sais.
Você não vem.
Alguém canta " I want a do bad thinks with you"
Agora danço e me visto.
Saio de casa e ando.
Ando por aí cantando.
Amanhã...
Quem sabe amanhã eu decida o que tatuar em mim
e o que fazer com você.


quarta-feira

SACRILÉGIO


Faz um tempo eu negociei com as forças do além sobre os desígnios do coração e os caminhos da alma.
Escolhi o equinócio de inverno, quando a terra se recolhe e nada frutifica. Naquela noite fiz a mandinga mais eclética. Vestida com nada além de mim, tracei no chão um pentagrama, circundei com velas e pétalas de rosas, aspergi meu melhor perfume no frio ar daquela noite. Cantei, dancei, louvei e proferi sortilégios. De um corvo arranquei uma pena, da salamandra cortei a cauda, de uma pombinha suguei um arrulhar tristonho. Na fogueira joguei ervas vindas do Ceilão e alguns ossinhos do Daomé. O Santo Antônio eu virei de costas, roguei a Iemanjá que me sacasse as águas do coração, com Kali e Ogum tive uma conversa sobre a guerra em mim. À Ísis, entendida de amores desmembrados, implorei abrigo.
No final da noite, de bruços no chão, descabelada e louca me devotei a Alá, Thor, Zeus e Yaveh.Tudo combinado, oferendas aceitas, eu finalmente voltei a mim. Veio meu inverno e eu estava com o corpo e a alma encomendados pra nunca mais sentir o mal.
Mas quando o sol chegou aquecendo o mundo, percebi você. Tremi e recorri aos deuses. No chão da clareira, sinais apagados encontrei o coração que lhes tinha ofertado. Íntegro, pulsante e ainda rubro de mim. Esbravejei aos céus e terras. Levantei almas de um sono infernal; e então me vieram Baco, Eros e um anjo triste. Disseram que fui devolvida, não fui aceita para ser árida, seca e indiferente.
Teria que voltar em meus passos e sobreviver ao mal do amor. Tantas vezes e por tão pouco em troca e por tanto tempo quanto vivesse. Decidiram assim e assim será.
Antes de partir Eros me feriu o peito em um gume envenenado para que eu jamais possa desistir. Eu então, assustada mas pensando em você; aceitei a sujeição. Vou amar de novo, e de novo, pra todo o sempre. Mas eu posso pedir ainda, que quando o castigo acabar joguem as cinzas do que tenha sido eu bem nos pés de um tufão, pra que eu me desfaça em grãos e pó e nunca possa recomeçar.