domingo


(...) era preciso mudar, não para me adaptar, o que me parecia uma traição, mas para me lançar acima daquele lodo espesso de mesquinharias e baixezas em que acabamos por chapinhar. Eu não sabia como enfrentar aquilo. Não conhecia nenhum 'modo de usar' para obter um nível superior de humanidade e maior sabedoria. Mas sentia que intuitivamente rir era o começo da sabedoria que me era indispensável para viver(...)

Ingrid Betancourt - Não há silêncio que nunca termine

A Selva em nós

A selva está por aí...
Tenho lido sobre ela minha vida toda. Tenho vivido dentro dela minha vida toda. Tenho tido ela dentro de mim por toda a minha vida. Tenho ouvido muito falar sobre ela.
Selva. Selva de pedra...isto é uma selva...ele é um selvagem...é como viver em uma selva...
Os contextos são os mais variados.
Mas espere. A selva sempre esteve aqui. A selva veio antes. Ela é mais antiga do que tudo que se nos apresenta agora. Falo aí naquele tipo de selva a quem fui apresentada pelo mestre Rudyard Kipling, o homem que tornou minha juventude muito mais interessante do que qualquer aventura de bruxos, vampiros ou dragões poderia tornar. Mas Kipling que viveu as ‘intensa luz e escuridão’ da verdadeira selva me ensinou em seu ‘Livro da Jângal’ que a selva tem boas leis e bons habitantes.
Então o que terá havido de lá para cá?
Qual a diferença da selva que Kipling conheceu, para a selva que recebeu Ingrid Betancourt. Uma colega de cativeiro da ex candidata à presidência colombiana, ao longo de seus sete anos de prisão na selva, chegou a expressar que ‘adorava aquele lugar’.
Eu sei de onde vem a profunda diferença de entendimento de quem se sente em um paraíso ou em uma prisão na selva verde, na verdadeira Jângal. É do mesmo lugar onde vem a diversidade de sentimentos de quem vive em outros tipos de selva.
Não, não se iludam. Não é a selva. Somos nós.
Como eu já disse antes, a selva é ela mesma. Está contida em si, no mesmo formato à milênios. Mas não. Falo mesmo da selvageria que habita em nós. Por que favorecer tal qualidade com uma similaridade ofensiva ao paraíso perdido da natureza terrena.
Nós, habitando o verde ou o concreto somos coisas muito mais ferozes.
O que mais explicaria espancar, queimar com cigarros ou inserir agulhas no próprio filho...seleção natural e aprimoramento da raça como no caso dos leões que matam o filhote do adversário? Acho que não.
O que pode justificar amarrar um cachorro a um carro e sair correndo em alta velocidade? Diversão como faz um filhote de cachorro com um pequeno grilo? Acho que não.
O que leva homens a terem prazer em armar emboscadas, prender inocentes em nome de causas absurdas e degrada-los até a loucura e morte? Justiça de massas. Acho que não.
Não amigos. Por favor, não vamos mais cometer o impropério de chamar o lugar, o tempo e as condições em que vivemos de selva. A teoria do ‘bom selvagem’ de Rousseau nunca esteve tão distante de nós. As utopias, projeções otimistas, tentativas de dourar a pílula não tem funcionado muito. Então por favor, deixem a selva em paz.
Nós não vivemos na selva. Não importa onde estejamos. Nós é que somos uma coisa qualquer que merece uma denominação que não é a de selva. Unicamente a nós cabe esta denominação no seu mais profundo sentido. Shere Khan tratou Mowgli com uma dignidade que nenhum homem jamais teve para com seu adversário. Rudyard soube traduzir a verdadeira selva como ninguém. Nós nos apropriamos da idéia....mas não fazemos jus a ela. Absolutamente.
Não servimos como selvagens. Merecemos outras denominações que não ofendam aos habitantes da gloriosa Jângal submetidos a uma injusta e forçada comparação conosco.
A selva que está em mim e em você, não é a verdadeira selva...tenha certeza disto. Tem outros nomes, nenhum deles tão bonito e singular como....Jangal.....Jungle....Dschungel.....Giungla.....Jungelen......Orman......Foré...
Talvez sejamos um povo de Bandarlogs, macacos sem lei, sem preceitos ou parâmetros que agridem e mentem, destituídos de inocência, ignorantes...Habitantes e habitados por um desatino sem par na natureza pura.

terça-feira

Money


Pra começar quero sair correndo...
Quero umas botas de cano longo com salto 15, um vestido esvoaçante e um chapéu de abas grandes
Então uma passagem para algum lugar bem distante
Um pingente de lágrima com o mais raro diamante
Um veleiro de 30 pés e uma taça de espumante
Quero uma ilha onde não haja qualquer habitante
Um som de muitos watz e algumas luzes neons, nada muito ofuscante
Uma brisa leve e brincalhona pra amainar um sol escaldante
E depois um entardecer de cinema e uma cama com baldaquino na beira do mar
Ao fundo na mata um véu de noiva a cascatear
Um leito de rio rochoso pra meu corpo na lua eu platinar
Quero Sarah cantando Time to say good bye pra me fazer delirar
Não quero o tempo ter que contar
Mandar tudo ser feito à minha vontade fazendo o relógio parar
Tudo vai ser assim quando o vento da minha vida mudar
Pode parecer sem sentido, mas eu sei que esse tempo vai chegar
Resta saber se vou preferir estar aqui ou se vou mesmo pra lá...

Decisão

Sempre, todo dia e a cada dia é tempo de decisão.
Se vai ou se fica. Se quer ou não quer. Se cala ou diz tudo.
As vezes cansa, vem angústia e medo. Mas não, não há saída.
Viver é uma imensa decisão.
Tudo, nada ou meio termo?
Decisões...decisões...
Sempre me tomando inteira e intensa, sacudindo as bases...
Fecho os olhos e tenho que decidir se vou reabri-los.
Venha sono, por favor...me invade e me livra. Decide por mim. Apaga-me...
Não quero decidir abrir os olhos. Que imagem rotineira compartilhamos todos.
Vou abrir os olhos e voilá!!!
Lanço-me às decisões. É o andar, a consequência, o peso do fardo.
Não falo do viver ou do decidir, mas do ter consciência.
Porque decidir manter os olhos abertos não basta...tem que decidir enxergar.

segunda-feira

A Queda

Acho que as palavras queda, cair e decadência, nos acompanham desde tempos imemoriais. Desde quando as lendas não era lendas e Ícaro tentava alcançar o sol com suas asas de cera.
Anjos caem do céu ao abismo, patriarcas da humanidade caem do paraíso, torres caem, cidades caem, reis caem, governos caem, estrelas caem...
E como bem diz o ditado, "tudo o que sobe, desce"...
Somos movidos pelo impulso de chegar ao topo. Vivemos querendo o tudo, nunca o tão pouco. Assim subimos e subimos, besourinhos rolando idéias estercadas montanha da vida acima. Subir está no nosso âmago, no nosso DNA. Estudamos, trabalhamos, desbravamos, inventamos, conquistamos.
E então vem o depois. E o depois não está contido nas palavras relaxar, curtir, usufruir. Porque nunca estamos no topo da montanha. É uma idéia utópica a da conquista do tudo.
Não se alcança, não se vence, não se tem...nunca se chega ao final.
Mas por quê a queda, por quê a decadência? Digo a você que mais difícil que galgar uma escada ou uma montanha é permanecer no topo. Nunca ninguém conseguiu...nem deuses, nem reis, nem super humanos. Nunca nos mantivemos no topo por tempo suficiente.
Mas como besouros com instintos pavlovianos, somos treinados a chegar no sopé e voltar a subir. Fazendo enorme esforço, lutando contra ventos, cansaço, opositores...lutando contra o tempo que nos corrói as entranhas da alma.
Nos inclinamos para o alto, protegemos os olhos e nos lançamos. Quantas vezes for preciso por toda a existência.
A história da humanidade é a história das quedas. A história de cada homem é, invariavelmente, uma história de superação.
Todos caímos, despencamos...sempre e a cada dia...e apenas um dia para sempre.

quinta-feira

Bala

Aos que portam armas...
Uma bala por dinheiro,
Uma bala por um boné,
Uma bala por uma cheirada,
Uma bala por paixão,
Uma bala por um carro,
Uma bala por ciúme,
Uma bala na calçada,
Uma bala numa escola,
Uma bala em casa,
Uma bala na cabeça,
Uma bala no inimigo,
Uma bala no trânsito...
Quem já não desejou ter uma bala...
Será que muitos se arrependem de tê-la usado?

Um Cubo de Cimento



Me façam por favor um cubo de cimento indevassável
Com pão e água; e uma roca de fiar
Pra eu tecer os dias, as dores...alegrias
Me escondam dentro de um cubo cinza
Já que não quero ver a luz azul
Nem raio, nem sol ou estrelas dessa vida imensa
Me joguem em um cubo de cimento à prova de som
Coloquem lá um piano negro,
Um bandolim e um acordeão
Me isolem em um cubo bem vedado
Sozinha...seca, farta...
Isolada, sem futuro nem passado
Me deem um bom motivo
Pra vivermos em cubos de cimento
E, a cada dia, nos sentirmos vivos.
Me permitam romper o cubo e sair gritando
Louca, leve, livre, insistente
E mais uma vez amando...






quarta-feira

O Medo


Depois de ler Harry Potter eu convencionei chamar o "medo" de Bicho Papão. Achei bem legal a idéia de que o Papão toma a forma de nossos medos imaginários para nos assustar e intimidar. Então seria o caso de, num rompante, escancarar as portas do armário, olhar o tal Papão de frente e não surtar...Não dá, não consegue? É...as vezes não dá.

Como por exemplo, quando você tem um container da Maersk deslizando na pista em direção ao seu carro; como quando você vê alguém gritando com uma pistola apontada para a cabeça de um ente querido; como quando você se depara com o imponderável.
Creio que todo o ser humano ou animal sinta medo. Salvo algum psicopata de grau elevado, o que você acha que faz um leão fugir de um rolo de papel higiênico ou você de um leão? Medo, é claro.Sentimento subjetivo, mas previsível até.
Medo é paraplegia cerebral e emocional.
Mas medo também preserva. É ele quem causa a descarga de adrenalina salvadora e é ele quem faz você não cometer loucuras. Não ter medo é caso de imprudência, imperícia e negligência...não ter medo faz de você alguém anormal. É de bom tom e respeitável a atitude de temer algumas coisas.
O que você vai fazer com seus "papões", ou o que você vai deixá-los fazer com você é a questão fundamental. É questionamento para uma vida inteira...para cada momento, cada atitude, cada sentir. Também para ver o seu medo na íntegra, tem que ter coragem. Assumir, falhar, dar as costas...ou enfrentar, confrontar, vencer, tentar.Num átimo tem-se que fazer a escolha. E parece que a cada curva da estrada nos aparece um papão diferente. Apenas vamos observar que não julgar os papões alheios é uma atitude, no mínimo inteligente.

terça-feira

Prazo de Validade

Já dizia toda e qualquer avó que tudo na vida tem prazo de validade. Iogurte, desodorante, sola de sapato, nozes (experimenta ignorar esse), tinta, moda. Até a carne por ser fraca tem prazo de validade. Não falo aqui do filé ou da picanha do churrasco... ou falo sim do filezinho e da picanhazinha que nos satisfazem momentaneamente. Sim, invariavelmente as relações tem prazo de validade. Quanto mais profundas e duradouras, mais sujeitas à intimidade. E é aí que o prazo encurta. A receita dos longevos? Conservantes, meus caros. Conservantes. Não me refiro ao salitre nem ao ácido sórbico. To falando de um presentinho, um carinho, um tempinho, um sorrisinho, um beijinho. Em hora e fora de hora... Quem se perder no prazo, pode crer que vai ser vencido. Porque ainda não vi nada se conservar eternamente sem um esforço pra ser mantido. Estão pensando nos amigos, nos amores, nos empregos... ou quem sabe na qualidade de vida, na saúde, no sossego?!!! Conservantes neles leitores. Muito conservante para manter a consistência da vida. Do contrário, quando tirar do armário vai ser uma questão de perder para o tempo, o mofo e o pó. E que ninguém de nós se queixe porque já avisavam as nossas avós.

O Velho, o Novo e o Bom e Velho Gosto




Coisa difícil é conseguir ser autêntico sem passar por antigo ou excêntrico.
Duvido que alguém possa passar pela vida sem o saudosismo inerente ao tempo e às coisas que se foram ou ficaram.
Eu, por exemplo, sou de 71... o que significa ser do século passado. Tem gente muito mais entrada no século passado que prefere tudo o que for do século XXI.
Aí que me refiro ao poder da autenticidade e de não justificar seu gosto... bom ou mau gosto.
Vou começar citando veículos. Por que eu preferiria uma Ninjia a uma Harley?
Quem me convence a não ter vontade de voar por aí num Buick com 70 bons anos vividos a gostar de andar no New Civic. Porque será que eu preferia os antigos aviões da Varig aos modernos kinder ovo em que vôo hoje. Jeep verde militar a um Troller amarelo gema.
E daí eu vou adiante... quem vai me obrigar a gostar de um felino pintado por Romero Britto depois de ver um felino pintado por Alma Tadema.
Flan com calda de morango ao invés de Bavaroise. Abacaxi do mercado público de Sampa à Petit Gateau... simplicidade aqui ? Nada, bom e velho gosto. Ta, com uma pitada de forçassão de barra.
Até colocaria o Roy dos Menudos contra o Justin Bieber... vai falar em charme agora???
Tênis Reebok botinha de couro marrom à Reebok botinha amarelo e pink.
E a calça boca de sino, qual a explicação pra insistência dela? Não seria uma questão de estilo?
Cromado contra plástico, ferro fundido contra alumínio, madeira de lei contra MDF... só pra falar em materiais.
Não me venham com modernidade, atualização ou outras filosofias. Eu gosto mesmo do que é velho. Não me chamem de "Vintage".
Gosto até de batucar numa máquina de escrever, coisa que não poderia usar pra fazer chegar esta postagem até você...
A modernidade é algo grande. Mas grandiosa mesmo é a antiguidade. Simples equação entre bom gosto e autenticidade.

Meu Barco é Vermelho


...Lá vou eu no meu barco pra mais um dia de rota imprevista.
Não sou louca, nem podre de rica, sou só uma idealista.
Cruzei mares calmos e também bravios,
mas os maiores naufrágios vi em salões de navios...
Comparei a cor das águas do Tahiti, com Sauípe e com Mauí
e cada mar tem seu tom.
E foi lá que concluí que cada quebrada da vida tem um som...
Nas noites bem boas meu pouso é na proa, onde falo com Deus
E se tiver tempestade, fundeio em qualquer cidade pra dormir com os meus.
Não tenho endereço, tenho sim radar,
mas é quase certo que caiu na água o meu celular.
Meu barco é vermelho; e isso é só pra contrariar...
Tem poltrona na popa e muita 'Veuve' no bar.
Virei amante de Poquer e até passei a fumar.
E tenho uns 'bons' marinheiros, que é pra não faltar
Nos braços de um e de outro assisto todo dia o raiar.
Dia desses, se me forçarem até posso aportar,
mas quando me largarem em terra não vou nem saber andar.
Vou ter trazido comigo - de ouvido - um certo balanço do mar...
Do mar...

domingo

Eva e a Maçã

No começo havia o paraíso, e nele havia a maçã. O fruto proibido. O fruto do conhecimento.
Quem encontrou a maçã foi Eva porque ela ficou atraída pelo conhecimento mágico contido na fruta. Adão, seu companheiro, não buscou a sabedoria. Eva buscou, abriu a visão do todo e foi condenada. Sim porque o pobre e inocente Adão é vítima de sua mulher e de uma cobra. Michelangelo representa a cena sendo o mal meio cobra meio mulher, ofertando o frutoa um aparvalhado Adão.
As mulheres tem um conhecimento único, dado somente a elas. Um instinto, um sentido, o poder de antecipar, o foco. E não são reconhecidas ou admiradas por isto.
Mulheres são as que avisam e anteveem. São as cobradoras do não acontecido, são incômodas.
Eva tem um papel díficil a exercer ao longo destes milênios incultos e cegos de humanidade. Detentora de enorme poder, se martiriza e sofre. É a portadora do conhecimento incômodo acumulado por gerações de Evas. Como a elefoa matriarca da manada sempre sabe onde há água por instinto passado de uma geração à outra. Assim é Eva: a que sabe demais. Eva, a culpada de retirar o ser humano da ignorância bem vinda do paraíso raso.

O Sétimo Dia


Hoje andava na rua prestando atenção às pessoas...
Domingo de sol...calçadão da praia
Eu não passeava apenas andava
Ouvia fragmentos de conversas, sussurros, risos.
Eu observava os olhares, as cumplicidades, as evidências, o mau humor, o tédio.
Me peguei perguntando a mim mesma o que quero para mim e não soube bem o que responder. Já quis tanta coisa, já estive certa de tanta coisa...agora parece que querer muito não faz sentido e estar muito certa é na verdade, um perigo.
Então passei a me perguntar se saberiam todas aquelas pessoas o que querem...duvido.Mas olhando me parece que não muitos fazem perguntas no espelho, perdem tempo com auto análise, críticas a si mesmos, transcrições noturnas dos eventos do dia.
Acho que a cada geração mudamos de forma assombrosa, ofensiva, porque não dizer. Tudo parece igual mas não é. Vejo uma ausência de sentido que não havia antes. Parece que enxergo planos de fuga da realidade em cada olhar por que passo...ou 90% pelo menos.
Os risos artificiais, o nada a fazer e nada a dizer.
Eu sou mais uma que sofre com o ócio. Máquina do diabo, oficina de problemas. E sofro com os excessos...afinal sempre sofro.
Personalidade melancólica...quem sabe realista, inquisitiva, inconformada...Porque quem anda na rua em um dia de sol não perde tempo observando as reações humanas do alheio...Eu perco.Aliás perder tempo com outros seres humanos sempre foi parte da minha oficina...aquela do diabo. E se o diabo veste Prada, ninguém me contou. Ele é insurgente, feio e mal educado. Ele joga na cara, queima ilusões, mata de saudades.
Foi ele que me fez sair de casa para andar. Porque andar a esmo, sem destino é coisa dele. Não digo que ele maquina as piores gracinhas... Ficar angustiada com os rumos da juventude também só pode ser coisa dele. Alías viver de angústias é característico dos possuídos.
Como li em um livro dia desses, Deus fez o mundo e foi dormir. O diabo ficou bem acordado.
Mas vá lá, o cara tem senso crítico. Ele atribui a alguns um poderoso maquinário pensante. Isso também significa dizer que ele é irônico e maníaco.
Porque esta máquina na cabeça a vida toda é o inferno...e não adianta sair para caminhar pra não pensar no que há de errado aqui...porque então a gente repara no que há de errado lá.
Claro que tem coisas certas. O sol estava maravilhoso, a brisa tinha cheiro de maresia, havia uma certa alegria no ar, uns cachorros muito autênticos correndo na areia, umas crianças gritando.
Então porque será que de resto me pareciam todos zumbis...
Sei lá. Saí de casa instigada por um diabo. Boa coisa não podia ver nem ouvir.
Não adianta tentar, o sétimo dia é mesmo nefasto.


sexta-feira

Meu anjo

O meu anjo vai gostar do som certo e do silêncio mais correto.
Ele será palavra imensa, atitude única, capacidade, presença...
Quando vier a mim, o meu anjo nada trará de óbvio.
Terá cinzelado nada menos que um grilhão com seu nome e o meu num coração.
Vai chegar manso e se mostrar potente.
E será para mim um companheiro sempre presente.
Sério, plácido, autoritário.
Delicado, alegre, libertário.
E este meu anjo há de chegar no tempo certo.
Ele pode estar distante ou estar por perto.
Estou aqui esperando, ansiosa, mas não em prantos...
Verei nas estrelas quando meu anjo amor estiver se aproximando
E se nada disso ele tiver na verdade,
basta que venha e que me ilumine
com muito amor e lealdade...

terça-feira

Meu avô

Quando eu era pequena, lembro bem de cada instante...
Meu avô, ah meu avô.
Meu pai-avô-amigo, meu protetor, meu querido.
Nós éramos cúmplices de grandes armações. Fugíamos de todos para navegar de Opala pela cidade com um belo saco de chocolates entre nós. E nós brigávamos pelos melhores chocolates.
Meu avô era chocólatra...mas era muito mais que isto.
Nós víamos filmes do corujão, mas antes, saíamos na noite para buscar sorvete em mágicas caixinhas de isopor. Pistache não...hehehe. Chocolate e creme, por favor.
Adorava o doce Rei-Alberto.
Eu o acompanhava como um filhote de gato. À tardinha ele chegava para tomar seu banho e se arrumar para sair. Calças bem passadas; uma exigência...perfumes a escolher.
Um homem cheiroso e elegante meu avô.
Um gentleman...
Pela manhã íamos para a fazenda. Lá eu brincava em baixo dos araçás ou andava no cavalo rosilho que era de todos e de cada um. Lá eu comia massa crua de pão de casa, subia escondida nas imensas pilhas de sacos de arroz, invadia a casa de máquinas do gerador.
Enquanto meu avô fazia pagamentos sentado no escritório, eu andava desbravando campos com seu binóculos: "não vá perder isto minha filha"...
"Oooo Vô, eu posso......Ooooo, Vô eu quero......Ooooo Vô, me leva"
"Você passa o dia dizendo : OVÔ !!!!!!! "
E assim, éramos parceiros.
Não conseguiram fazer de mim uma menina. Eu era muito mais do meu avô...e meu avô não dava bola pra meninas. Meu avô gostava mesmo era de mim, e isso era a melhor coisa do mundo.
Viagens para a praia...
Viagens para a serra...
Dente quebrado por chocolate. Tombo nos patins que ele comprou.
O primeiro livro que eu comprei foi na companhia dele. A Vida na Terra do Reader's Digest. Fomos juntos e eu mesma entreguei o dinheiro ao livreiro. Tinha uns 6 anos. Nele está escrito que a sua querida neta tem todo o seu carinho. Sua letra é uma arte. Seu amor é toda minha garantia de felicidade.
Uma valsa nos 15 anos...na foto estamos de mãos dadas, sorriso cúmplice.
Dia 06 de outubro de 1920 nasceu meu avô. Já não está aqui. Só a pouco ele se foi.
Quando ele partiu me senti órfã. Órfã nunca fui...tive o bastante de meu avô.
E ter tido meu "Oooo Vô" foi tudo de que precisava. Hoje sei.
Onde estiver, obrigada vô...você foi o pai que eu amei.

O Caminho


Acordei hoje com uma lufada de vento na cortina.
Pensei no meu dia, e ele era somente meu.
Fiquei ali, enroscada como uma gata sem unhas...fique olhando o vazio e,
Lembrei de uns momentos que vivi, de umas trilhas que enfrentei
Cheguei à conclusão de que ocupei espaços alheios, senti dores que não me pertenciam, dividi ardores que não me cabiam.
Analisando com calma o longo caminho por onde andei, vi claramente minhas paradas, meus recuos, minhas quedas. Está tudo lá, bem marcado no caminho da minha vida.
Mas meu caminho segue até onde meu olhar não alcança...e posso enxergar isto também.
Um caminho largo e tranquilo. Uma avenida com poucos e conhecidos pedestres.
Levantei revigorada, com sede de vida.
Olhei lá fora, vi a paisagem de sempre e sorri. Há uma paisagem e há um sorriso em mim.
Meu caminho é doce e estou pronta para a caminhada.

segunda-feira

A Rosa e a Noite



É noite. E filha da noite eu me considero.
Então visto uma camiseta do Elvis pra me embalar. Ligo o ar no calor máximo pra espantar o frio que está invadindo as horas da primavera.
Subo em minha grande cama de rainha. Cheiram bem meus lençóis brancos sob o edredon branco...uma única rosa me espreita aos pés da cama e como eu, não é botão nem fenecida. É uma rosa desabrochada e tem a cor da minha boca.
Espalho livros em torno de mim. A Teoria das Janelas Quebradas, Picasso, O Último Irmão, Antologia do Poetinha...os acaricio como se fossem crianças adormecidas, mas não escolho nenhum.
O som na sala toca Laguna Sunrise do Black Sabbath e uma melancolia gostosa me invade.
A noite parece morta mas eu sinto o pulsar tranquilo da minha paz. Me embrenho nas cobertas e fico bem quieta. Quero um sono bom.
Olho a rosa no edredon. Amanhã ela vai estar igual...a cada noite sempre igual, sem nunca fenecer.
Penso nisso e adormeço...

sábado

Você



Então era assim, você andava sobre a terra há uns bons anos e ainda não estava pronto.
Você não tinha aprendido a reconhecer os sinais que a vida lhe dava.
Não se sentia comprometido, não tinha grandes idéias, não gerava grandes conflitos.
Para todos, você era apenas alguém normal... mas um dia alguém teria que descobrir seu segredo. O que você procurava esconder de si mesmo; que havia um vazio, um limbo no que era você.
Você se olhava no espelho todas as manhãs e não podia ver o que faltava. Não assimilava conhecimentos, não lembrava das grandes passagens, não rememorava grandes momentos. E quando você se abria, não vinha nada, porque nada havia.
Quando alguém gritava, você se omitia. Quando alguém chorava, você fugia. Quando alguém caia, você nem sabia.
A calmaria, a placidez não é pra sempre. Pra quem não quer despertar, tem água fria. Pra quem não quer ceder, tem a solidão. Pra quem não que viver, tem a guilhotina.
E tudo isso um dia lhe cai nas mãos...
E agora você???
O que é mesmo que vai fazer???
Chegou ao final da trilha sem saber como roçar o mato e enfrentar os espinhos. Olhou para os lados e estava sozinho. A felicidade fora um engodo. A busca, um fracasso. A escolha, uma vergonha.
Então resta andar e andar. Por ainda muitos anos, a esmo. Fingindo que aprendeu algo, que tinha alguma idéia, que somava grandes momentos. Se iludindo que sabia amar, que conhecia a felicidade. E por fim, assustado, sem saber abrir caminho... sobre talvez à você, guilhotina da vida. Tem o peso certo para os seus dias. Ela é do tamanho certo para alguém assim como você, um eterno inacabado.

sexta-feira

Movimento


Não me perguntem o que me move.
É tudo e tanto, e tão forte o que me move...
Me move o sangue, a água, a fome.
O que me move é a aposta, a certeza, a indecisão.
Me move o abismo, a estrada, a muralha.
O que me move é mágoa, raiva, compaixão.
Me move a facilidade, a dureza, a solidez.
O que me move é fé, descrédito e razão.
Me move o medo, a raiva e a ternura.
O que me move é a amizade, a paciência e a solidão.
Me move a beleza, a feiúra e a ignorância.
No fundo sou movida mesmo à ilusão.