quarta-feira

2010 se vai
Fim de uma década
Fim de um tempo
Fim de história
2011 chega
Um recomeço...

segunda-feira

UMA VADIA VELHA

A vida é uma velha vadia e má Uma eterna prostituta Uma mentira Uma bruxa de dentes podres Uma sentinela no barco das almas Asas negras e traições A vida é algo de podre, algo de rançoso, uma cerveja choca A vida é a tormenta sem bonança A ilusão sem esperança, curta, seca, fria A vida é uma cama vazia gelada demais, estreita e dura Uma coisa assim meio crua Carne curtida e de cheiro ruim Velha eterna e infeliz espremida num destino obrigatório Esperando o nada vir à passos largos Vadia e má Jackie - dez/2010

domingo

EROS



Há dez meses adquiri um cachorro boxer. Um belo filhote a quem dei o nome de Eros. Eros para me lembrar sempre que eu acredito no amor...

Apesar de tanto gostar de mitologia nunca tinha parado para pensar em Anteros.

Anteros é o irmão de Eros. E enquanto este último é representado como um luminoso anjo de cachos dourados, olhar azul e asas brancas; Anteros é um deus de longas melenas negras, olhos e asas negros.

Eros representa o amor apaixonado e impulsivo, o sentimento que une...Eros não admite o ímpar, a solidão. Este deus nunca cresceu, é intempestivo e imaturo, criança eterna...No dizer da poesia grega é um "deus alado, arqueiro ágil que brinca com os deuses e os mortais". Eros é inconsequente e causador de dores.

Anteros foi criado para ser o irmão que cresce, que amadurece. Anteros é o outro lado do amor...o ódio, a separação, o ímpar, o discenso. Anteros é a razão, a solidão, o discernimento, o rompimento. Consequentemente Anteros também é causador de dores em deuses e humanos. Irmãos, duas faces de um mesmo sentimento. Amor e ódio. Próximos, gêmeos, duas interpretações para uma mesma força dantesca.

Meu cachorro é imaturo, inocente, puro, bobo, apaixonado, incansável...chama-se Eros afinal. Acho que escolhi bem. Estou acompanhada do Eros para nunca esquecer de quanta impulsividade e dor seu deus homônimo é capaz de causar. Mas eu hoje não escolheria viver sem meu Eros.

Quanto a Anteros, passei a conhecê-lo há pouco tempo e somados os dois, não sei se sou grata por permitir que o irmão dourado se sobreponha em mim...



quarta-feira

É NATAL

Pessoal
Desejo à todos um Feliz Natal e uma linda entrada de ano...
Quem estiver com a família preste atenção no quanto são importantes as raízes.
Sua família não é nem melhor nem pior do que as outras...apenas é a sua, portanto é especial e a única.
Quem estiver em carreira solo, observe que amigos também podem ser nossa família, ou que estar sozinho até pode ser um bom remédio.
Porque no final das contas, o que importa é estar bem consigo mesmo, seja na multidão, seja jogado no sofá assistindo um filme em companhia do cachorro.
Dias de luz à todos...

terça-feira

TRAIR E TRANSGREDIR

Nesta mesma época, há um ano eu pensava diferente do que penso agora. Achava que a vida era feita de amores eternos, dedicação imensurável, fidelidade incontestável.
Eu aprendi aos tapas que não é assim e sinceramente agradeço.
Não acredito mais que alguém possa deitar e levantar da cama durante 40 anos com a mesma pessoa e morrer de tesão. Não vão ter velas, posições e lingeries que sustentem tanto tempo de repetição. Ninguém come macarrão todos os dias por toda a vida.
A gente as vezes olha na rua um homem tão diferente daquele que frequenta nossa cama...um cabelo diferente, mais alto, mais forte, mais expressivo. E pode ser que ele retribua um olhar atento. Algumas mulheres, fiéis a seus maridos e companheiros podem ir para a cama com este homem e transgredir a regra de ouro das relações duradouras.
Já os homens quando veem uma mulher que os atrai, eles não transgridem, eles traem.
No meu novo conceito de vida trair e transgredir tem pesos e medidas diferentes.
Nós mulheres, mesmo as transgressoras, nunca somos infiéis. Amamos aquele homem de sempre, nos doamos a ele, aceitamos seus defeitos, partilhamos a vida. É um tipo de fidelidade que se tem por um ser humano que consideramos parte de nós. Isto pode não impedir o transgredir as regras, sentir o sabor do suor alheio uma vez ou outra e manter a sanidade e o interesse pela vida de sempre.
Já os homens não. Esses maridos a quem as mulheres são fiéis, eles sim traem à valer. Eles desrespeitam suas parceiras, as desconsideram, menosprezam. Eles desafiam a sorte, exibem seu poder de sedução, passam a ser caçadores, tornam-se egoístas e manipuladores...tudo isto quando vem o tempo.
Não me digam que tem que inovar para deter o tempo. Tenho pena das que se iludem com suas inovações.
Inovação de verdade é um cabelo mais longo e de outra cor, uma bunda mais arrebitada, uns mamilos de outro tom, uma outra data na certidão de nascimento.
Tudo se resume no fato de que mulheres transgridem, mas não desrespeitam seus maridos, seus amores, seus parceiros de toda a vida. São discretas até à morte e até se sentem culpadas por uma certa insanidade temporária. Homens traem da forma mais vil e mais profunda...traem nos sentimentos, nas promessas, nas referências, nos sonhos e em tudo que foi construído.
Homens e mulheres são mesmo de planetas diferentes.
Casos há em que o feliz casal é do mesmo planeta...ou jura que é.
Chegando aos 40 eu aprendi que comer macarrão a vida toda não é saudável nem para o corpo nem para a mente. Apenas há que se ter respeito e lealdade. E quem pensar bem ou for no mínimo prático e realista, vai saber que não estou sendo assim tão incongruente.

domingo

ADEUS

Pois então
Foi nesta noite insípida a chuvosa que o sonho acabou
Acabou-se a alegria...embalos em dó maior
Apagaram-se as luzes
Deslizaram as estrelas do céu...e o firmamento chora
Choro eu
Morro um pouco a cada respiração...todo o soluço é punhal
A fome se foi...a sede passou
Tudo porque o sonho acabou
Pois então
Adeus eu disse à você...que palavra horrível de se dizer
Foi o que coube entre nós
Indolor pra você
O fim dos meus dias com luz
Fomos breves...fomos frios
Abandono sem lágrimas
Solidão
Assim é que foi...nesta noite terrível
Quebrou-se o encanto
Seus olhos brilhantes, drogados, distantes
Foi melhor...
Mas ainda assim
O melhor dos sonhos acabou em mim

quinta-feira

MADRUGADA



Eu acordo mas mantenho os olhos bem fechados. Quase posso ouvir o barulho na porta.
Sua calça jeans sussurra no silêncio da minha noite de paz.
Penso se você está sem camisa e então em seus braços e em abraços...pés descalços, o chuveiro, seu ar cansado. Seu cheiro é bom.
Sinto a cama afundar a meu lado. Você toca meu rosto com a ponta dos dedos, já sabe que gosto assim...traça meu perfil e o contorno da minha boca; respira compassadamente junto a meus olhos.
Se eu erguer a mão vou tocar seus cabelos revoltos sua barba macia. Eu suspiro e posso ouvir seu riso rouco. Me viro na cama e busco nitidez em meu olhar desfocado pela madrugada...mas não há você, não há nada.
Então levanto e me vejo no espelho. A espera tem se mostrado longa demais, os dias se arrastam e as noites são tomadas pela vontade de ver você chegando. Ando até a piscina e jogo no chão a camisola. Entro na água fria sabendo que são mais de duas horas nessa madrugada alucinada.
Me deixo embalar por um céu coalhado de estrelas.
Minha pele está gelada, mas todo o resto ferve em mim e meu coração se nega à calmaria. Tomo um comprimido e me deixo seduzir como a garota dos contos de fadas que dormiu demais.
Quero dormir por séculos.

O TEMPO DO CÉU


Nós homens que nos erguemos um dia e passamos a andar eretos sobre esta terra, fomos quem criou o conceito de ontem, hoje e amanhã...o que passou, o agora, o que virá. Conceito abstrato que nos arrasta ao derradeiro fim instigados por empreender o máximo num mínimo de tempo.
Já erguidos e podendo olhar os céus há tantos milênios deveríamos analisar mais as estrelas e conhecer a lição.
As estrelas que você pode ver agora, se tiver um tempo e voltar seus olhos para o firmamento, estas estrelas não estão mais lá. O que você vê lá em cima, luzindo e embelezando o manto negro é apenas o passado. As estrelas estão, na verdade, há milhares ou milhões de anos-luz daqui. Quando sua imagem nos chega, chega de um passado longínquo. São elementos refulgentes que ou não estão no mesmo lugar ou incandesceram, extinguiram-se.
Então se olhamos para cima, o que vemos é o passado. O que não existe mais. O que não está mais lá. E as imagens referentes ao nosso tempo chegarão aqui quando já não pudermos vê-las...
Sob nossas cabeças o passado e não temos acesso ao futuro. Pense então, além do âmbito estelar. A fórmula é a mesma, carregamos o ontem e não temos noção do amanhã. Parece mesmo que resta o agora. E como não se pode andar olhando para o alto, é bom se concentrar no hoje.
Não pense que eu bebi, fumei um baseado ou algo assim...é apenas a ciência servindo para dar formula ao bem viver. O que foi, está há anos-luz...o futuro você pode não poder enxergar. Vire-se com o agora e faça bom uso dele.
Quando ficar olhando o céu em busca de respostas lembre-se que as respostas não podem estar no passado. Abandone o firmamento, erga-se e ande.


A MORTE


O fim do ano está chegando e eu gostaria de compartilhar uma lição importante. Sempre soube de sua existência, mas não conseguia colocá-la em prática e 2010 me deu este novo dom. Não foi um presente inofensivo, foi duro recebê-lo, entendê-lo e finalmente, adotá-lo.
Trata-se do que está contido em uma frase simples: "Para ser felizes nós temos que abandonar os nossos mortos."
Esses mortos - sentido pra lá de figurativo - são tudo e todos os que perdemos, sofremos, não alcançamos, erramos, recebemos, entregamos; o que feneceu, se extinguiu, perdeu seu valor...temos que aceitar estas muitas mortes e simplesmente abandonar.
Eu não sabia quanta leveza há em andar sem carregar cadáveres. Já carreguei tantos que posso dizer que andei boa parte dos meus quase 40 anos curvada e extenuada.
Nossos mortos cheiram mal para quem está por perto, pesam muito, grudam em nossas vestes e nossa pele, nublam nossa visão, fazem lento nosso caminhar.
Da metade deste ano para cá eu, sem sentir, comecei a me despojar dos mortos. Não fiz questão de pranteá-los, enterrá-los com louvores, carregar souvenires deles...afinal estão mesmo mortos. Eu apenas fui largando-os pelo caminho e me erguendo. Respirando melhor, vendo com mais clareza, andando como deveria andar e por lugares que antes não andaria.
Foi um grande presente que a maturidade me deu. Sei que sou cheia de cicatrizes de batalhas, mas quem morreu em mim, quem me matou em si...eu soltei lentamente no chão em algum lugar lá atrás. Não ouço mais o roçar de algo que arrastava-se comigo, não tenho peso nos ombros, minha visão se ampliou incrivelmente. E, principalmente, tenho meu coração e minha mente somente para mim e para os vivos em torno de mim.
Nós somos uma cultura de preconceito em relação à morte. Mas a morte é o benefício final do existir, porque tudo precisa de um fim. Tudo na humanidade um dia tem que parar, murchar, romper a cadeia. Passando por nosso corpo físico até as escolhas que fizemos. E porquê tanto medo, tanto apego, tanta fuga? A morte é o prêmio final, traz leveza, libertação.
Então hoje procuro ser amiga da morte. Vou vivê-la muitas vezes e recebê-la com gratidão. Porque muitas coisas que virão para mim terão que morrer ainda e será bom que seja assim. E quanto aos cadáveres...devem ficar ali, onde a morte se deu. Cascas do que foram bons ou mau momentos, boas ou más pessoas, situações, opções, palavras, conceitos...tudo pelo chão ao longo da estrada. E nunca mais vou vê-los...porque leve e ereta eu ando sempre rumo ao novo, para frente...
Assim que tem que ser; eu sempre soube. Apenas agora entendi o intrincado mecanismo. Funciona, é honesto e é o fundamento que justifica a pompa de alguns funerais. Podem ser com choro, com velas, com festa regada a champagne, com brigas, com um adeus sem uma palavra de consolo ou gratidão...mas são funerais. Gostaria que todos aprendessem como sair deles de mãos limpas e alma leve. Eu estou feliz por ter aprendido antes do fim.

sexta-feira

Servos dos ossos


As vezes a terra se fende e expulsa de suas entranhas algumas criaturas inomináveis. Pessoas que entram na sua vida, te abraçam, te chamam de irmão, amor, amigo, pai, filho...cuidado.
Os racionais os chamam psicopatas ou sociopatas. Os crédulos os chamam de mal. Alguns ainda acham que são só crianças sem orientação...há, experimente.
Na verdade são pessoas que precisam viver sugando a alma, o bolso, a bondade e o amor alheios.
Há uma teoria antiga que fala dos 'servos dos ossos'. Diz que quando algo muito ruim anda sobre a terra, geralmente procura tomar para si a forma e a alma de alguém para seguir sempre em frente sem ser descoberto.
Agora pare e pense. Você já não foi, ou não está sendo o 'servo dos ossos' de alguém?
Geralmente começa de maneira imperceptível e a situação vai num crescendo até que tome você de todo ou até você reagir. Mas o neflin, a besta, o vampiro que precisa se alimentar de você; bem ele não aceita bem a descoberta. Ou a criatura consegue enganá-lo e permancer 'ancorado' em suas entranhas; ou a criatura tenta prejudicar você. Você pode ser agredido, roubado, enlameado e até morto. E tudo isto por alguém a quem você deu abrigo, amor, apoio, dinheiro, sangue...enfim, alguém a quem você se entregou em qualquer papel social.
Então agora pare e olhe ao seu redor. Você não precisa ser o 'servo dos ossos' até que nada reste de você. Você não precisa se condenar por um filho, um pai, uma irmã, um amor, um amigo. E não sinta dor, nem culpa, não se sinta burro, cego...afinal essas coisas não são humanas. Lembre apenas isto.Só uma coisa, perceba quem está a seu lado antes que o processo de doação chegue aos ossos. Não importando o que represente na sua vida, caia fora. Proteja-se.
Lembre-se, são o expurgo da terra fendida. Não vieram do mesmo lugar que nós. Não tem consciência, bondade, caráter...afinal nem alma tem.



quinta-feira

Balanço na tarde quente


Na tarde quente estava eu na rede. Pés descalços, pernas nuas na pouca brisa de verão.
Olho a tatuagem que desce em ondas pelo meu pé direito. Ela me fala da verdade e do que é honesto. E me fala de libertação e de magia. Penso em tatuar asa de anjo...não sei. Uma rosa, um coração, uma espada...
Penso em ousadias que prefiro não fazer. A maturidade é relevante e chata.
Apenas penso enquanto a tarde se arrasata em direção à noite.
O telefone toca e eu sei que não é você. Sei onde você está e que não pode me ver, nem me falar.
Levanto da rede, me dispo e me banho em sais.
Você não vem.
Alguém canta " I want a do bad thinks with you"
Agora danço e me visto.
Saio de casa e ando.
Ando por aí cantando.
Amanhã...
Quem sabe amanhã eu decida o que tatuar em mim
e o que fazer com você.


quarta-feira

SACRILÉGIO


Faz um tempo eu negociei com as forças do além sobre os desígnios do coração e os caminhos da alma.
Escolhi o equinócio de inverno, quando a terra se recolhe e nada frutifica. Naquela noite fiz a mandinga mais eclética. Vestida com nada além de mim, tracei no chão um pentagrama, circundei com velas e pétalas de rosas, aspergi meu melhor perfume no frio ar daquela noite. Cantei, dancei, louvei e proferi sortilégios. De um corvo arranquei uma pena, da salamandra cortei a cauda, de uma pombinha suguei um arrulhar tristonho. Na fogueira joguei ervas vindas do Ceilão e alguns ossinhos do Daomé. O Santo Antônio eu virei de costas, roguei a Iemanjá que me sacasse as águas do coração, com Kali e Ogum tive uma conversa sobre a guerra em mim. À Ísis, entendida de amores desmembrados, implorei abrigo.
No final da noite, de bruços no chão, descabelada e louca me devotei a Alá, Thor, Zeus e Yaveh.Tudo combinado, oferendas aceitas, eu finalmente voltei a mim. Veio meu inverno e eu estava com o corpo e a alma encomendados pra nunca mais sentir o mal.
Mas quando o sol chegou aquecendo o mundo, percebi você. Tremi e recorri aos deuses. No chão da clareira, sinais apagados encontrei o coração que lhes tinha ofertado. Íntegro, pulsante e ainda rubro de mim. Esbravejei aos céus e terras. Levantei almas de um sono infernal; e então me vieram Baco, Eros e um anjo triste. Disseram que fui devolvida, não fui aceita para ser árida, seca e indiferente.
Teria que voltar em meus passos e sobreviver ao mal do amor. Tantas vezes e por tão pouco em troca e por tanto tempo quanto vivesse. Decidiram assim e assim será.
Antes de partir Eros me feriu o peito em um gume envenenado para que eu jamais possa desistir. Eu então, assustada mas pensando em você; aceitei a sujeição. Vou amar de novo, e de novo, pra todo o sempre. Mas eu posso pedir ainda, que quando o castigo acabar joguem as cinzas do que tenha sido eu bem nos pés de um tufão, pra que eu me desfaça em grãos e pó e nunca possa recomeçar.

terça-feira

Fones

Quem foi a maligna criatura que inventou os fones de ouvido, os aparelhos de Mp3 e os celulares com direito a playlist musical?
Só vou dizer uma coisinha bem no pé do ouvido de quem anda por aí de fones...ABAIXA O SOM DESSA M!!!!!
Eu, quem está atrás, na frente, ao lado...do outro lado da rua, dobrando a esquina, na Austrália e na China; NÃO estamos afim de ouvir o baticum da sua musiquinha indecifrável que depois de trombar contra seu pobre e deteriorado tímpano, volta direto pra nós.
3,5 hs viajando com o retumbar dos fones de alguém no assento de trás é demais pra mim.
Mas estou vingada. A criatura obrigatoriamente perdeu 30% de sua audição só nesta viagem.
Não, não estou vingada. A criatura vai aumentar mais ainda o volume e ferir a sensibilidade de outro pobre mortal.
Ei você...você mesmo aí, sem desconfiômetro. Abaixa essa droga de som!!!

quinta-feira

Trem Bala

Nas últimas campanhas presidenciais falou-se muito em trens. A gente sabe que em época de campanha se redescobrem objetivos perdidos a torto e a direito. Mas trens sempre foram um tema que me motivou a questionamentos.
Já ouvi mil teorias sobre a preferência pela implantação desta imensa e tenebrosa malha rodoviária no Brasil em detrimento de ferrovias. E também sei que se tivessem sido implantadas ferrovias em quantidade estariam iguais as de filme de faroeste.
Quando penso em trens, penso em Japão. Como não pensar?
Eu, por exemplo estou querendo ir esta semana até a capital do meu estado. De minha cidade até Porto Alegre se vai em cerca de 2hs. Em um ônibus vou levar desgraçadas 3 horas e meia. Tempo que dá pra recuperar o sono, ler, ouvir música, se chatear com os demais passageiros...um tempo imenso que nos faz perder tempo.
Então não posso deixar de imaginar um trem. Um daqueles elevados, rombudos e lustrosos que passeiam sem tocar nos trilhos como aviões à jato em forma de centopéia. Ele deveria começar em Buenos Aires, imaginem nós ligados à capital Portenha. Os garotos iam poder assistir aos jogos na La Bombonera...hahahá. Ele viria direto ao Rio Grande do Sul com paradas instantâneas em algumas cidades. Depois Santa Catarina - nem precisava entrar na ilha - Paraná, São Paulo...Rio a gente deixa de fora porque tem que fazer um desvio e não quero ver meu trem queimado. Subia por Minas em direção à Bahia ia direto para Alagoas, depois Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará. Faria uma grande curva e seguiria pelo Maranhão, Amapá e Roraima.
Sua última estação seria em alguma cidade da Amazônia.
Pensem na maravilha, no fluxo de pessoas e de negócios...
O preço deveria ser menor que de uma passagem de avião. Vamos desafogar os aeroportos e terminar com esse gasto ridículo de combustível. As poltronas teriam mais de 40 cm de largura, haveria banheiros e lancheria privatizados.
Minutos e puft. Estou na estação de Porto Alegre. E se me der na telha, mais um instante e posso estar curtindo uma praia no Nordeste.
Não sei se vocês repararam mas a rota do meu trem tem o formato de um ponto de interrogação.
Tem sim. No meio, inacessível, está a planaltina. Descomposta, abandonada, árida em todos os sentidos. Quem sabe até ocupada pelo Michel Temer. Já basta pro trem não passar.
Não ia dar pra conviver com o pessoal do colarinho branco querendo levar malas suspeitas até o Maranhão num passe de mágica.
Não, meu trem é japonês lembram?...é honesto, funciona e visa o avanço do País. Nada semelhante à região do planalto. Então, eles a gente ignora já que tem que engolir.
To só pensando na minha ida pra capital. O quê seria, uns 15 minutinhos no meu bólido imaginário?
Nem precisaria levar almofadinha, água, um livro de 600 páginas e um saco de paciência.
Ainda espero que amanhã não esteja muito calor, porque duvido que o ar condicionado do buzão esteja funcionando...eu não to no Japão afinal, não é.

segunda-feira

Prova


Como se chama o estado inverso à catatonia? Deve haver algo com este nome, uma síndrome, uma doença, um desespero qualquer que defina como estou me sentindo.
Sou daquelas criaturas que não podem ser colocadas à prova. Então desapareça, você vai dizer; porque todos os dias enfrentamos provas. Sim, eu respondo, eu desapareci faz tempo. Mas como continuo no modo de operação básico e algumas coisas absolutamente imprescindíveis eu preciso encarar...bom eu surtei.
Pessoas de quase 40 anos também fazem simulados, eu nem sabia. Mas hoje fiz um. Então no exato instante que alguém disse "hoje estamos fazendo um simulado para a prova "...acabou o jogo pra mim. Game over, the end...terminou a brincadeira. Eu saí do controle, perdi o domínio de mim. Parece brincadeira mas não é. Isso acontece com quem não sabe, errar, não confia em si, não aceita os tropeços e falhas...não as dos outros, porque com estas eu sou pra lá de tolerante. Essa sou eu. Não, mas aquela não podia ser eu hoje pela manhã. A pessoa que até o dia de ontem dominava totalmente a questão deixou seu lugar para uma menina de 8 anos de idade. Uma garotinha assustada sentada em frente a um quadro negro preenchido pela tabuada. Eu nunca consegui dominar os números - felizmente havia o alfabeto pra eu me sentir humana -. Foi sempre uma dificuldade sentar em frente de uma folha em branco e ver surgir no espaço da minha mente perturbada um neon com a frase "você não sabe"!!! E daí a coisa toda perdeu o controle e eu passei ao você não pode, você não consegue, você não vai...
Não há terapia que de jeito. Mesmo programada terapeuticamente como um cachorro adestrado, o neon maldito não queima com passar dos anos. É mais resistente que eu que saí correndo.
Dessa vez, como de outras, eu não vou poder sair correndo. Daqui a dois dias a prova vai ser feita por uma menina num corpo de mulher; olhos arregalados, respiração entre cortada, suor na testa. A nota? Nem quero imaginar.
Alguém me disse: não tente se garantir com um Rivotril, vai embotar seu cérebro. Talvez seja por aí o caminho; um cérebro embotado de uma mulher de 40 pode ser melhor que a nebulosa de uma criança fantasma que insiste em não buscar a luz.

quinta-feira

Solteirice

Eu e uma amiga conversáva-mos dia desses sobre a liberdade de viver em nossa própria casa. Claro que somos animais que formam matilha, ou casais...não ficamos muito tempo a sós se tivermos a opção de não ficar. Mas nós fomos lembrando uma à outra as delícias de não dividir nosso domínio com ninguém.
Na cama, dorme-se esparramado, no meio, atravessado ou do jeito que quiser. Sem ninguém que puxe cobertas, jogue braços ou pernas ou ronque. E quando se quer companhia basta convidar alguém...no meio da noite, se vai até a porta e dá beijinho de adeus. Quando acordamos não precisamos passar pela eterna cena matinal.
O banheiro de um solteiro(a) é território minado. Pode ter toalha jogada, restos de barba na pia, maquiagens esparramadas na bancada, calcinha ou cueca no registro do chuveiro. Quando se entra lá de novo está tudo do mesmo jeito e não tem ninguém para azucrinar.
Comer...se come o que quer, na hora que quer. Se você amar ervilha e a família ou parceiro odiar ervilha, você quase nunca vai comer. Mas uma pessoa solitária pode comer ervilha todos os dias se quiser. Ou pode optar pela lasanha congelada, pela pizza, pelo sanduíche com os restos que tem na geladeira. Em compensação ninguém vai devorar o chocolate ou o sorvete que estava guardado, o que é um crime grave no convívio entre pessoas num mesmo lar.
O armário de roupas...ah, o armário de roupas...ele é todo, todinho seu.
O programa de TV, você escolhe e ninguém mais vai se adonar do controle remoto.
O melhor lugar no sofá também é seu. Aliás qualquer lugar do sofá ou todo o sofá é seu.
O carro, não tem que dividir com ninguém nem pegar de tanque vazio ou com o banco e os espelhos fora do lugar.
A gente concluiu que não se consegue dar o real valor a preciosidades como esta. Estamos sempre em busca de alguém para invadir nossa vida, se espalhar em nosso território e revirar nossa rotina tão egoisticamente maravilhosa. Por que será que a gente não resiste?
Sente falta de uma perna invadindo nosso lado na cama, de comer o que não gosta, de ter que dividir o banheiro, de ver que o carro foi batido...Não adianta negar. Todo mundo adora.
A verdadeira dimensão da privacidade só se passa a ter, quando a loucura, a febre e a paixão passam. Ou quando os filhos vão embora de casa. Ou quando a irmã vai estudar em outra cidade.
Não conseguimos chegar a conclusão alguma sobre o que motiva esta insistência, essa dependência, essa busca desenfreada. Claro que os motivos são milhares, mas nós preferimos nem filosofar. Fato é que estamos aproveitando todas estas mordomias. E estamos a ponto de ceder nosso paraíso particular...de novo.

domingo

Maldição musical


A distância da minha casa até a beira da praia é de uma quadra. Eu vivo num bairro tranquilo onde os adolescentes da casa ao lado nem parecem existir.Então porque eu e talvez o pessoal de todas as casas ao longo de umas cinco ou dez quadras tem que escutar essa coisa horrenda que alguém tem a ousadia de chamar de música? Na minha própria sala essa coisa parece que está saindo do meu som. Não, não é do meu som...porque eu simplesmente odeio funk. Até nem digo nada dos movimentos sociais que ele envolve, juro. Mas odeio de morte esse tum, tum que sacode as janelas da minha paz.
Tem gente, eu sei, que acha ruins as letras. Mas que letras?
Isso que toca hoje tem até cavalo relinchando, eu juro. Já teve tigrão, já teve cachorras e agora fazem um elogio a si mesmos colocando relinchos no meio da 'música'.
Tá bom, eu não tenho legitimidade pra falar de música. Minha juventude foi na sombria década de 80 quando bom era Cazuza, Legião Urbana e afins. Eu acompanhei o Rock'n Rio -aquele do vinil do planeta na capa que alguém deve lembrar - madrugadas à fio com direito a Nina Hagen e Ozzy. E de lá pra cá eu me tornei um ser amorfo em termos de gosto musical. Eu curto muito o Pink Floyd, mas isso não me exime de gostar do Supertramp. E a coisa foi piorando com a idade quando me encantei por Sarah Brightman. Indo além eu curto muito ouvir Carmina Burana e o Fantasma da Ópera. E me rendo a piada gótica do Blackmore's Night.
Techno pra mim era bom quando o pessoal dava uma 'guaribada' no Chilli Pepers.
Agora mesmo o pancadão tá rolando solto. Não dá pra saber onde nem a que distância porque eles são móveis com direito a mega investimento até em luzes neon.
Voltando ao meu mau gosto musical, eu escuto ainda alguns blues, Vanessa Mae e até umas descobertas de algum amigo descolado. Claro que eu prefiro mesmo é a Ana Carolina e parafraseando uma música velha: 'Telma eu não sou gay'. Há, até se fosse podia estar mais bem acompanhada.
To me perdendo no assunto. Afinal como vocês querem que consiga concatenar as idéias com esse cavalo e alguém gritando 'baby' mil vezes sem parar.
Hoje não é exceção. Nem é porque o verão tá chegando. É a contracultura musical mesmo.
Claro que eu não entendo. Como vou entender se quando ando no carro escuto a Bonnie Tyler e canto Eclipse of the heart esganiçada com os vidros bem fechados pra não incomodar ninguém.Como diz a minha mãe, as músicas que eu gosto não são boas. Ela curte mais um Capital Inicial e dou o braço a torcer, ela é boa. Ela nem sabe do meu CD de música italiana do Renato Russo na fase mórbida.
Bom é domingo. Quem pensava em ler um jornal na rede ou cochilar não vai poder. Liberdade condicionada Srs. Eles tem direitos, nós não.
De minha parte vou me encerrar em casa e colocar um CD de Rock Balads no volume máximo, assim pode ser que nenhum refrão assassino cole na minha cabeça.
Ai, tarde demais.Baby you...baby you...

A Mensagem

Aconteceu de novo. Acordei de um sobressalto e o que corria nas minhas veias era lava pura. Minhas idéias tinham sido embaralhadas por um croupier de Vegas; eu nem sabia que dia era.
Tentei falar comigo e não consegui porque eu já não falo a mesma língua que eu.
Nãoooooo !!!!!
Foi só o que eu consegui vomitar antes que aquela dor me partisse ao meio de novo. Tudo porque olhei para o telefone e você estava lá num envelope fechado piscando pra mim. Foi o que me acordou. Não você com seus carinhos, apenas um você perdido pra mim. O terremoto em mim derrubou o telefone, o abajur e o meu controle. Até o envelope que mostra você parece elegante. Não parece um envelope sem cor na tela de um celular e quando abro o que salta no meu coração ferido não são palavras, mas a tua voz de homem na inteira posse de si mesmo.
Nada parecido comigo que nem me encontro em mim; já que num simples segundo sou arrastada da minha pretensa paz pelo tsunami chamado 'você'.
Vivo...você está vivo. Chega de mentir pra mim. Eu te matei de tantas formas e tantas vezes que passei a acreditar na minha obra. Eu te tatuei lentamente todo com meu nome e depois eu te cobri de pregos, te queimei à ferros e finalmente te esquartejei. No final eu comi teu coração porque só de olhar pra você já me dava fome.
Fiz tudo isso nas longas noites em que não houve um envelope piscando ou uma ligação. No meu desespero me tornei uma artesã da tua morte sem medo de confessar o crime de mulher desesperada. Sem me importar com o FBI ou a Interpol me perseguindo em sonhos pelo mundo à fora. Eu cheguei a vestir o quarto de branco e te crucificar num ritual pra poder assistir você implorar meu perdão por semanas...meses...anos...
E agora, justo agora que eu andava conseguindo sorrir, que eu andava podendo me ver no espelho você surge no meio da minha noite calma. Me arrasta pra essa dor titânica sem a menor vergonha de se fazer de fênix na minha vida.
Eu sei e você também sabe que seus sumiços me enlouquecem porque mostram que você não pensa em mim. E se você aparece eu enlouqueço porque é tentador pensar que você sente falta de mim. Na verdade fico esperando toda noite meu poltergeist voltar e me mandar abrir a porta. Chego a me ver correndo para o espelho e abrindo a porta pra deixar você tomar mais um pedaço roubado da minha vida com toda a arrogância que te é peculiar.
Não, eu não sou louca, você é que é. Você sabe que é louco de me perder e admite. E a cada vez eu me sinto mais cansada e te mando embora antes que me ajoelhe e implore por clemência. Eu chego a me ver, ali na sala, no robe transparente que comprei pra te impressionar. Eu ali, agarrada aos teus pés depois de você ter gravado seu cheiro em mim demarcando um território que não deveria mais ser seu. Por isso sempre te mando embora antes dessa cena patética e me jogo na cama pra te matar de novo.
É um processo terrível que arranca do meu calendário mais alguns dias. Dias e noites até poder entender de novo o que eu mesma falo e aquela lava esfriar em mim.
Então passa um tempo e você resolve me implodir de novo. E eu espero ansiosa você exercer seu direito de rebobinar a fita num movimento antigo que traduz a história de nós dois.
Me sinto assaltada e gosto. Me sinto ofendida e aceito. Me sinto uma doida e nem me importo mais. É minha punição preferida te permitir ser um morto que anda e que as vezes, só algumas vezes, parece ter voz pra mim. Depois você volta pra sua vida e eu fico aqui perdida em delírios.
Posso dizer de boca cheia que eu odeio você. Odeio esse seu poder, sua ironia e sua meiguice. Odeio suas mãos lindas e seu jeito único de me olhar sem me ver.
Você é execrável no seu egoísmo. Eu sou impagável na minha comiseração.
Chega agora de escarnecer da minha inteligência perdida. Quero perder a lucidez para um Valium. Mas antes eu vou desligar este maldito telefone mudo que me impede de dormir, esperando por você.

quarta-feira

Bunker

Vou transformar minha casa em um Bunker.
Você não sabe o que é um Bunker? Bem vou te contar em segredo. É um abrigo. Na verdade um abrigo anti aéreo para tempos sem paz. Algo como uma caixa de concreto cavada embaixo da terra contendo água, comida e alguns elementos básicos para sobrevivência por alguns dias.
Ok, você pegou a idéia...
Eu estive olhando hoje e achei que minha casa tem cara de Bunker...pode não me abrigar de bombas, mas me serve como um senhor abrigo. A sua não?
Vejamos:
Eu tenho litros e litros de Coca-Cola. Quanto a água eu vejo depois na internet como fazer a filtragem por algum processo químico e pego a que brotar do solo em volta.
Um armário eu notei hoje, está cheio de Miojo e latas de ervilha. Eu posso aprender na internet como conseguir mais vitaminas plantando umas cebolas em volta do abrigo.
Conto com a iluminação de 4 lanternas e 3 pacotes de vela. Dá pra ver que eu realmente me incomodo com a falta de luz.
Tenho uma pilha de lenha. Uma montanha de cobertores. Duas barras de chocolate. 18 ovos de galinha da colônia.
Vou ter que fabricar um radio para ouvir as últimas notícias do mundo tão...tão distante, já que no rádio as notícias tem mais glamour. Mas isso eu vejo na net também. Claro, meu computador tem bateria expandida e um 3 G de merda; mas serve. A não ser que os satélites entrem em pane...mas aí eu dou um jeito.
Tenho um cachorro aqui dentro e um saco grande de ração e dois de biscoitos caninos, então estou bem acompanhada. O freezer contém algumas carnes que vou acabar comendo mesmo sem gostar, mas esconde 3 pizzaz e 2 lasanhas pré prontas.
Numa gaveta eu sei que existe pilhas de tylenol, dorflex, ibuprofeno, e todos os enos e óis que necessitar. Devo ter sabonete pra uns 2 anos; shampoo pra mais que isso e pasta de dentes pro resto da vida. Humm, quanto ao papel higiênico tenho que calcular.
Mas o bom da coisa é que nada disso faz a mínima diferença. Porque no meu Bunker eu tenho o que realmente preciso pra viver por meses mantendo minha sanidade mental...livros.
Um sem fim de livros. Incontáveis lombadas de todas as cores e larguras em vários tipos de encadernações. Livros...livros às mãos cheias pra me preencher, cuidar, manter e alimentar.
Sim, minha casa é um Bunker. Agora vejo que sempre foi.
Quem tem uma casa mas não tem um Bunker que construa um. E rápido. Ninguém pode ficar sem proteção e alimento por muito tempo nestes tempos de guerra. Ninguém pode ficar preso na realidade da batalha diária sem ter pra onde correr...
Escolha seus ítens de sobrevivência e se abasteça. Você vai ficar tão melhor que nem mesmo o calor da batalha você vai sentir...do seu Bunker.

Educação pra quem precisa



Eu hoje tô de 'cara'...tô de cara com o mundo e com seus eméritos habitantes: nós.
Tenho todo o direito de dizer que nós somos uns 'Bandarlogs' uns macacos. Tudo isto por causa da educação. Não, a educação não tem culpa de nada...é a falta dela a culpada.
Fala-se tanto em educação. Mas parece que só falar basta, porque aplicar não vejo muitos fazendo.
Eu hoje fui ao supermercado. Início de mês com grana no bolso combinado com dia de ofertas da horta e você tem uma avalanche de atitudes e situações simiescas. Será que aquela pessoa que pega o maior carrinho do super e deixa no meio de um corredor enquanto percorre outros rumos com o segundo carrinho, se considera civilizada?
A criatura que para seu carro em frente à banca de tomates enquanto dezenas de olhos ansiosos perseguem o tomate bonito que ela põe no saco como se fosse o último fruto da sabedoria, em momento algum foca sua visão aguçada nos que cercam os tomates do outro lado da grade do seu carro escudo? E o casal de namorados que passeia de mãos dadas entre gôndolas não venezianas e se beija romanticamente em frente a estante de margarinas? O amor é um filme lindo queridos, mas vão pra casa, pra praça ou pra Madagascar.
A avó-coitada- cuida de todos os netos e quando vai ao super tem de levar pelo menos três. Ela resolve a situação dando um carrinho vazio pra cada criança...voilá, o autódromo está montado. O homem de meio-pouca idade que esqueceu os óculos e tenta escolher entre um pacote de presunto por 3,58 e um pacote de presunto por 4,10. Bom aí você olha e só tem os dois pacotes, então ajuda ele com o preço e pega correndo o que sobra antes que outra alma com boa visão passe a mão no 4,10 do seu lanche. A mulher e o marido brigam...discutem mãe e filha...um garoto quer salgadinhos de churrasco sem desistir do chocolate...E no final, bem lá no final desta odisséia quixotesca e grotesca, quando você acha que está quase a salvo, vê que puseram um carro atrás do seu...como é que pode???!!!!! Bom, o cara pode ter pensado que justo aquele carro era do ronda noturno e ia pernoitar tranquilamente no estacionamento...
A anarquia está instaurada. Somos mesmo uns Bandarlogs.
Não damos bom dia ao segurança do banco, não pedimos licença, respondemos a um pedido de licença com um torcer de boca e um rosnado. Não paramos na faixa de pedestres, não damos o banco do ônibus, jogamos chiclete na calçada, viramos os bancos da praça, fazemos tiro ao alvo nas lâmpadas da rua...
Sim, queridos. Tudo isto somos nós. Não me venha com um "eu não faço isto". Seu filho, seu irmão, sua mãe e até sua vovozinha fazem. Ah, e você também !
Educação é artigo de luxo. Custa caro e depois de usar uma vez pra todos verem que se tem, joga-se no armário das causas perdidas. Ah tá, a gente esquece; não se dá conta; não se liga nas coisas pequenas...
Não, não é questão de falta de educação dirão uns aí do outro lado. É o que então? Não me venham com a desculpa do estresse...
Amanhã, quando levantar da cama, pense se está usando a educação que alguém lhe deve ter dado. Começe dentro de casa, repita na portaria, leve até o trânsito, de lá para o trabalho e o jantar. E por favor...'pelamordedeus', a próxima vez que for ao supermercado leve e faça bom uso dela. O resto dos Bandarlogs agradece.








domingo


(...) era preciso mudar, não para me adaptar, o que me parecia uma traição, mas para me lançar acima daquele lodo espesso de mesquinharias e baixezas em que acabamos por chapinhar. Eu não sabia como enfrentar aquilo. Não conhecia nenhum 'modo de usar' para obter um nível superior de humanidade e maior sabedoria. Mas sentia que intuitivamente rir era o começo da sabedoria que me era indispensável para viver(...)

Ingrid Betancourt - Não há silêncio que nunca termine

A Selva em nós

A selva está por aí...
Tenho lido sobre ela minha vida toda. Tenho vivido dentro dela minha vida toda. Tenho tido ela dentro de mim por toda a minha vida. Tenho ouvido muito falar sobre ela.
Selva. Selva de pedra...isto é uma selva...ele é um selvagem...é como viver em uma selva...
Os contextos são os mais variados.
Mas espere. A selva sempre esteve aqui. A selva veio antes. Ela é mais antiga do que tudo que se nos apresenta agora. Falo aí naquele tipo de selva a quem fui apresentada pelo mestre Rudyard Kipling, o homem que tornou minha juventude muito mais interessante do que qualquer aventura de bruxos, vampiros ou dragões poderia tornar. Mas Kipling que viveu as ‘intensa luz e escuridão’ da verdadeira selva me ensinou em seu ‘Livro da Jângal’ que a selva tem boas leis e bons habitantes.
Então o que terá havido de lá para cá?
Qual a diferença da selva que Kipling conheceu, para a selva que recebeu Ingrid Betancourt. Uma colega de cativeiro da ex candidata à presidência colombiana, ao longo de seus sete anos de prisão na selva, chegou a expressar que ‘adorava aquele lugar’.
Eu sei de onde vem a profunda diferença de entendimento de quem se sente em um paraíso ou em uma prisão na selva verde, na verdadeira Jângal. É do mesmo lugar onde vem a diversidade de sentimentos de quem vive em outros tipos de selva.
Não, não se iludam. Não é a selva. Somos nós.
Como eu já disse antes, a selva é ela mesma. Está contida em si, no mesmo formato à milênios. Mas não. Falo mesmo da selvageria que habita em nós. Por que favorecer tal qualidade com uma similaridade ofensiva ao paraíso perdido da natureza terrena.
Nós, habitando o verde ou o concreto somos coisas muito mais ferozes.
O que mais explicaria espancar, queimar com cigarros ou inserir agulhas no próprio filho...seleção natural e aprimoramento da raça como no caso dos leões que matam o filhote do adversário? Acho que não.
O que pode justificar amarrar um cachorro a um carro e sair correndo em alta velocidade? Diversão como faz um filhote de cachorro com um pequeno grilo? Acho que não.
O que leva homens a terem prazer em armar emboscadas, prender inocentes em nome de causas absurdas e degrada-los até a loucura e morte? Justiça de massas. Acho que não.
Não amigos. Por favor, não vamos mais cometer o impropério de chamar o lugar, o tempo e as condições em que vivemos de selva. A teoria do ‘bom selvagem’ de Rousseau nunca esteve tão distante de nós. As utopias, projeções otimistas, tentativas de dourar a pílula não tem funcionado muito. Então por favor, deixem a selva em paz.
Nós não vivemos na selva. Não importa onde estejamos. Nós é que somos uma coisa qualquer que merece uma denominação que não é a de selva. Unicamente a nós cabe esta denominação no seu mais profundo sentido. Shere Khan tratou Mowgli com uma dignidade que nenhum homem jamais teve para com seu adversário. Rudyard soube traduzir a verdadeira selva como ninguém. Nós nos apropriamos da idéia....mas não fazemos jus a ela. Absolutamente.
Não servimos como selvagens. Merecemos outras denominações que não ofendam aos habitantes da gloriosa Jângal submetidos a uma injusta e forçada comparação conosco.
A selva que está em mim e em você, não é a verdadeira selva...tenha certeza disto. Tem outros nomes, nenhum deles tão bonito e singular como....Jangal.....Jungle....Dschungel.....Giungla.....Jungelen......Orman......Foré...
Talvez sejamos um povo de Bandarlogs, macacos sem lei, sem preceitos ou parâmetros que agridem e mentem, destituídos de inocência, ignorantes...Habitantes e habitados por um desatino sem par na natureza pura.

terça-feira

Money


Pra começar quero sair correndo...
Quero umas botas de cano longo com salto 15, um vestido esvoaçante e um chapéu de abas grandes
Então uma passagem para algum lugar bem distante
Um pingente de lágrima com o mais raro diamante
Um veleiro de 30 pés e uma taça de espumante
Quero uma ilha onde não haja qualquer habitante
Um som de muitos watz e algumas luzes neons, nada muito ofuscante
Uma brisa leve e brincalhona pra amainar um sol escaldante
E depois um entardecer de cinema e uma cama com baldaquino na beira do mar
Ao fundo na mata um véu de noiva a cascatear
Um leito de rio rochoso pra meu corpo na lua eu platinar
Quero Sarah cantando Time to say good bye pra me fazer delirar
Não quero o tempo ter que contar
Mandar tudo ser feito à minha vontade fazendo o relógio parar
Tudo vai ser assim quando o vento da minha vida mudar
Pode parecer sem sentido, mas eu sei que esse tempo vai chegar
Resta saber se vou preferir estar aqui ou se vou mesmo pra lá...

Decisão

Sempre, todo dia e a cada dia é tempo de decisão.
Se vai ou se fica. Se quer ou não quer. Se cala ou diz tudo.
As vezes cansa, vem angústia e medo. Mas não, não há saída.
Viver é uma imensa decisão.
Tudo, nada ou meio termo?
Decisões...decisões...
Sempre me tomando inteira e intensa, sacudindo as bases...
Fecho os olhos e tenho que decidir se vou reabri-los.
Venha sono, por favor...me invade e me livra. Decide por mim. Apaga-me...
Não quero decidir abrir os olhos. Que imagem rotineira compartilhamos todos.
Vou abrir os olhos e voilá!!!
Lanço-me às decisões. É o andar, a consequência, o peso do fardo.
Não falo do viver ou do decidir, mas do ter consciência.
Porque decidir manter os olhos abertos não basta...tem que decidir enxergar.

segunda-feira

A Queda

Acho que as palavras queda, cair e decadência, nos acompanham desde tempos imemoriais. Desde quando as lendas não era lendas e Ícaro tentava alcançar o sol com suas asas de cera.
Anjos caem do céu ao abismo, patriarcas da humanidade caem do paraíso, torres caem, cidades caem, reis caem, governos caem, estrelas caem...
E como bem diz o ditado, "tudo o que sobe, desce"...
Somos movidos pelo impulso de chegar ao topo. Vivemos querendo o tudo, nunca o tão pouco. Assim subimos e subimos, besourinhos rolando idéias estercadas montanha da vida acima. Subir está no nosso âmago, no nosso DNA. Estudamos, trabalhamos, desbravamos, inventamos, conquistamos.
E então vem o depois. E o depois não está contido nas palavras relaxar, curtir, usufruir. Porque nunca estamos no topo da montanha. É uma idéia utópica a da conquista do tudo.
Não se alcança, não se vence, não se tem...nunca se chega ao final.
Mas por quê a queda, por quê a decadência? Digo a você que mais difícil que galgar uma escada ou uma montanha é permanecer no topo. Nunca ninguém conseguiu...nem deuses, nem reis, nem super humanos. Nunca nos mantivemos no topo por tempo suficiente.
Mas como besouros com instintos pavlovianos, somos treinados a chegar no sopé e voltar a subir. Fazendo enorme esforço, lutando contra ventos, cansaço, opositores...lutando contra o tempo que nos corrói as entranhas da alma.
Nos inclinamos para o alto, protegemos os olhos e nos lançamos. Quantas vezes for preciso por toda a existência.
A história da humanidade é a história das quedas. A história de cada homem é, invariavelmente, uma história de superação.
Todos caímos, despencamos...sempre e a cada dia...e apenas um dia para sempre.

quinta-feira

Bala

Aos que portam armas...
Uma bala por dinheiro,
Uma bala por um boné,
Uma bala por uma cheirada,
Uma bala por paixão,
Uma bala por um carro,
Uma bala por ciúme,
Uma bala na calçada,
Uma bala numa escola,
Uma bala em casa,
Uma bala na cabeça,
Uma bala no inimigo,
Uma bala no trânsito...
Quem já não desejou ter uma bala...
Será que muitos se arrependem de tê-la usado?

Um Cubo de Cimento



Me façam por favor um cubo de cimento indevassável
Com pão e água; e uma roca de fiar
Pra eu tecer os dias, as dores...alegrias
Me escondam dentro de um cubo cinza
Já que não quero ver a luz azul
Nem raio, nem sol ou estrelas dessa vida imensa
Me joguem em um cubo de cimento à prova de som
Coloquem lá um piano negro,
Um bandolim e um acordeão
Me isolem em um cubo bem vedado
Sozinha...seca, farta...
Isolada, sem futuro nem passado
Me deem um bom motivo
Pra vivermos em cubos de cimento
E, a cada dia, nos sentirmos vivos.
Me permitam romper o cubo e sair gritando
Louca, leve, livre, insistente
E mais uma vez amando...






quarta-feira

O Medo


Depois de ler Harry Potter eu convencionei chamar o "medo" de Bicho Papão. Achei bem legal a idéia de que o Papão toma a forma de nossos medos imaginários para nos assustar e intimidar. Então seria o caso de, num rompante, escancarar as portas do armário, olhar o tal Papão de frente e não surtar...Não dá, não consegue? É...as vezes não dá.

Como por exemplo, quando você tem um container da Maersk deslizando na pista em direção ao seu carro; como quando você vê alguém gritando com uma pistola apontada para a cabeça de um ente querido; como quando você se depara com o imponderável.
Creio que todo o ser humano ou animal sinta medo. Salvo algum psicopata de grau elevado, o que você acha que faz um leão fugir de um rolo de papel higiênico ou você de um leão? Medo, é claro.Sentimento subjetivo, mas previsível até.
Medo é paraplegia cerebral e emocional.
Mas medo também preserva. É ele quem causa a descarga de adrenalina salvadora e é ele quem faz você não cometer loucuras. Não ter medo é caso de imprudência, imperícia e negligência...não ter medo faz de você alguém anormal. É de bom tom e respeitável a atitude de temer algumas coisas.
O que você vai fazer com seus "papões", ou o que você vai deixá-los fazer com você é a questão fundamental. É questionamento para uma vida inteira...para cada momento, cada atitude, cada sentir. Também para ver o seu medo na íntegra, tem que ter coragem. Assumir, falhar, dar as costas...ou enfrentar, confrontar, vencer, tentar.Num átimo tem-se que fazer a escolha. E parece que a cada curva da estrada nos aparece um papão diferente. Apenas vamos observar que não julgar os papões alheios é uma atitude, no mínimo inteligente.

terça-feira

Prazo de Validade

Já dizia toda e qualquer avó que tudo na vida tem prazo de validade. Iogurte, desodorante, sola de sapato, nozes (experimenta ignorar esse), tinta, moda. Até a carne por ser fraca tem prazo de validade. Não falo aqui do filé ou da picanha do churrasco... ou falo sim do filezinho e da picanhazinha que nos satisfazem momentaneamente. Sim, invariavelmente as relações tem prazo de validade. Quanto mais profundas e duradouras, mais sujeitas à intimidade. E é aí que o prazo encurta. A receita dos longevos? Conservantes, meus caros. Conservantes. Não me refiro ao salitre nem ao ácido sórbico. To falando de um presentinho, um carinho, um tempinho, um sorrisinho, um beijinho. Em hora e fora de hora... Quem se perder no prazo, pode crer que vai ser vencido. Porque ainda não vi nada se conservar eternamente sem um esforço pra ser mantido. Estão pensando nos amigos, nos amores, nos empregos... ou quem sabe na qualidade de vida, na saúde, no sossego?!!! Conservantes neles leitores. Muito conservante para manter a consistência da vida. Do contrário, quando tirar do armário vai ser uma questão de perder para o tempo, o mofo e o pó. E que ninguém de nós se queixe porque já avisavam as nossas avós.

O Velho, o Novo e o Bom e Velho Gosto




Coisa difícil é conseguir ser autêntico sem passar por antigo ou excêntrico.
Duvido que alguém possa passar pela vida sem o saudosismo inerente ao tempo e às coisas que se foram ou ficaram.
Eu, por exemplo, sou de 71... o que significa ser do século passado. Tem gente muito mais entrada no século passado que prefere tudo o que for do século XXI.
Aí que me refiro ao poder da autenticidade e de não justificar seu gosto... bom ou mau gosto.
Vou começar citando veículos. Por que eu preferiria uma Ninjia a uma Harley?
Quem me convence a não ter vontade de voar por aí num Buick com 70 bons anos vividos a gostar de andar no New Civic. Porque será que eu preferia os antigos aviões da Varig aos modernos kinder ovo em que vôo hoje. Jeep verde militar a um Troller amarelo gema.
E daí eu vou adiante... quem vai me obrigar a gostar de um felino pintado por Romero Britto depois de ver um felino pintado por Alma Tadema.
Flan com calda de morango ao invés de Bavaroise. Abacaxi do mercado público de Sampa à Petit Gateau... simplicidade aqui ? Nada, bom e velho gosto. Ta, com uma pitada de forçassão de barra.
Até colocaria o Roy dos Menudos contra o Justin Bieber... vai falar em charme agora???
Tênis Reebok botinha de couro marrom à Reebok botinha amarelo e pink.
E a calça boca de sino, qual a explicação pra insistência dela? Não seria uma questão de estilo?
Cromado contra plástico, ferro fundido contra alumínio, madeira de lei contra MDF... só pra falar em materiais.
Não me venham com modernidade, atualização ou outras filosofias. Eu gosto mesmo do que é velho. Não me chamem de "Vintage".
Gosto até de batucar numa máquina de escrever, coisa que não poderia usar pra fazer chegar esta postagem até você...
A modernidade é algo grande. Mas grandiosa mesmo é a antiguidade. Simples equação entre bom gosto e autenticidade.

Meu Barco é Vermelho


...Lá vou eu no meu barco pra mais um dia de rota imprevista.
Não sou louca, nem podre de rica, sou só uma idealista.
Cruzei mares calmos e também bravios,
mas os maiores naufrágios vi em salões de navios...
Comparei a cor das águas do Tahiti, com Sauípe e com Mauí
e cada mar tem seu tom.
E foi lá que concluí que cada quebrada da vida tem um som...
Nas noites bem boas meu pouso é na proa, onde falo com Deus
E se tiver tempestade, fundeio em qualquer cidade pra dormir com os meus.
Não tenho endereço, tenho sim radar,
mas é quase certo que caiu na água o meu celular.
Meu barco é vermelho; e isso é só pra contrariar...
Tem poltrona na popa e muita 'Veuve' no bar.
Virei amante de Poquer e até passei a fumar.
E tenho uns 'bons' marinheiros, que é pra não faltar
Nos braços de um e de outro assisto todo dia o raiar.
Dia desses, se me forçarem até posso aportar,
mas quando me largarem em terra não vou nem saber andar.
Vou ter trazido comigo - de ouvido - um certo balanço do mar...
Do mar...

domingo

Eva e a Maçã

No começo havia o paraíso, e nele havia a maçã. O fruto proibido. O fruto do conhecimento.
Quem encontrou a maçã foi Eva porque ela ficou atraída pelo conhecimento mágico contido na fruta. Adão, seu companheiro, não buscou a sabedoria. Eva buscou, abriu a visão do todo e foi condenada. Sim porque o pobre e inocente Adão é vítima de sua mulher e de uma cobra. Michelangelo representa a cena sendo o mal meio cobra meio mulher, ofertando o frutoa um aparvalhado Adão.
As mulheres tem um conhecimento único, dado somente a elas. Um instinto, um sentido, o poder de antecipar, o foco. E não são reconhecidas ou admiradas por isto.
Mulheres são as que avisam e anteveem. São as cobradoras do não acontecido, são incômodas.
Eva tem um papel díficil a exercer ao longo destes milênios incultos e cegos de humanidade. Detentora de enorme poder, se martiriza e sofre. É a portadora do conhecimento incômodo acumulado por gerações de Evas. Como a elefoa matriarca da manada sempre sabe onde há água por instinto passado de uma geração à outra. Assim é Eva: a que sabe demais. Eva, a culpada de retirar o ser humano da ignorância bem vinda do paraíso raso.

O Sétimo Dia


Hoje andava na rua prestando atenção às pessoas...
Domingo de sol...calçadão da praia
Eu não passeava apenas andava
Ouvia fragmentos de conversas, sussurros, risos.
Eu observava os olhares, as cumplicidades, as evidências, o mau humor, o tédio.
Me peguei perguntando a mim mesma o que quero para mim e não soube bem o que responder. Já quis tanta coisa, já estive certa de tanta coisa...agora parece que querer muito não faz sentido e estar muito certa é na verdade, um perigo.
Então passei a me perguntar se saberiam todas aquelas pessoas o que querem...duvido.Mas olhando me parece que não muitos fazem perguntas no espelho, perdem tempo com auto análise, críticas a si mesmos, transcrições noturnas dos eventos do dia.
Acho que a cada geração mudamos de forma assombrosa, ofensiva, porque não dizer. Tudo parece igual mas não é. Vejo uma ausência de sentido que não havia antes. Parece que enxergo planos de fuga da realidade em cada olhar por que passo...ou 90% pelo menos.
Os risos artificiais, o nada a fazer e nada a dizer.
Eu sou mais uma que sofre com o ócio. Máquina do diabo, oficina de problemas. E sofro com os excessos...afinal sempre sofro.
Personalidade melancólica...quem sabe realista, inquisitiva, inconformada...Porque quem anda na rua em um dia de sol não perde tempo observando as reações humanas do alheio...Eu perco.Aliás perder tempo com outros seres humanos sempre foi parte da minha oficina...aquela do diabo. E se o diabo veste Prada, ninguém me contou. Ele é insurgente, feio e mal educado. Ele joga na cara, queima ilusões, mata de saudades.
Foi ele que me fez sair de casa para andar. Porque andar a esmo, sem destino é coisa dele. Não digo que ele maquina as piores gracinhas... Ficar angustiada com os rumos da juventude também só pode ser coisa dele. Alías viver de angústias é característico dos possuídos.
Como li em um livro dia desses, Deus fez o mundo e foi dormir. O diabo ficou bem acordado.
Mas vá lá, o cara tem senso crítico. Ele atribui a alguns um poderoso maquinário pensante. Isso também significa dizer que ele é irônico e maníaco.
Porque esta máquina na cabeça a vida toda é o inferno...e não adianta sair para caminhar pra não pensar no que há de errado aqui...porque então a gente repara no que há de errado lá.
Claro que tem coisas certas. O sol estava maravilhoso, a brisa tinha cheiro de maresia, havia uma certa alegria no ar, uns cachorros muito autênticos correndo na areia, umas crianças gritando.
Então porque será que de resto me pareciam todos zumbis...
Sei lá. Saí de casa instigada por um diabo. Boa coisa não podia ver nem ouvir.
Não adianta tentar, o sétimo dia é mesmo nefasto.


sexta-feira

Meu anjo

O meu anjo vai gostar do som certo e do silêncio mais correto.
Ele será palavra imensa, atitude única, capacidade, presença...
Quando vier a mim, o meu anjo nada trará de óbvio.
Terá cinzelado nada menos que um grilhão com seu nome e o meu num coração.
Vai chegar manso e se mostrar potente.
E será para mim um companheiro sempre presente.
Sério, plácido, autoritário.
Delicado, alegre, libertário.
E este meu anjo há de chegar no tempo certo.
Ele pode estar distante ou estar por perto.
Estou aqui esperando, ansiosa, mas não em prantos...
Verei nas estrelas quando meu anjo amor estiver se aproximando
E se nada disso ele tiver na verdade,
basta que venha e que me ilumine
com muito amor e lealdade...

terça-feira

Meu avô

Quando eu era pequena, lembro bem de cada instante...
Meu avô, ah meu avô.
Meu pai-avô-amigo, meu protetor, meu querido.
Nós éramos cúmplices de grandes armações. Fugíamos de todos para navegar de Opala pela cidade com um belo saco de chocolates entre nós. E nós brigávamos pelos melhores chocolates.
Meu avô era chocólatra...mas era muito mais que isto.
Nós víamos filmes do corujão, mas antes, saíamos na noite para buscar sorvete em mágicas caixinhas de isopor. Pistache não...hehehe. Chocolate e creme, por favor.
Adorava o doce Rei-Alberto.
Eu o acompanhava como um filhote de gato. À tardinha ele chegava para tomar seu banho e se arrumar para sair. Calças bem passadas; uma exigência...perfumes a escolher.
Um homem cheiroso e elegante meu avô.
Um gentleman...
Pela manhã íamos para a fazenda. Lá eu brincava em baixo dos araçás ou andava no cavalo rosilho que era de todos e de cada um. Lá eu comia massa crua de pão de casa, subia escondida nas imensas pilhas de sacos de arroz, invadia a casa de máquinas do gerador.
Enquanto meu avô fazia pagamentos sentado no escritório, eu andava desbravando campos com seu binóculos: "não vá perder isto minha filha"...
"Oooo Vô, eu posso......Ooooo, Vô eu quero......Ooooo Vô, me leva"
"Você passa o dia dizendo : OVÔ !!!!!!! "
E assim, éramos parceiros.
Não conseguiram fazer de mim uma menina. Eu era muito mais do meu avô...e meu avô não dava bola pra meninas. Meu avô gostava mesmo era de mim, e isso era a melhor coisa do mundo.
Viagens para a praia...
Viagens para a serra...
Dente quebrado por chocolate. Tombo nos patins que ele comprou.
O primeiro livro que eu comprei foi na companhia dele. A Vida na Terra do Reader's Digest. Fomos juntos e eu mesma entreguei o dinheiro ao livreiro. Tinha uns 6 anos. Nele está escrito que a sua querida neta tem todo o seu carinho. Sua letra é uma arte. Seu amor é toda minha garantia de felicidade.
Uma valsa nos 15 anos...na foto estamos de mãos dadas, sorriso cúmplice.
Dia 06 de outubro de 1920 nasceu meu avô. Já não está aqui. Só a pouco ele se foi.
Quando ele partiu me senti órfã. Órfã nunca fui...tive o bastante de meu avô.
E ter tido meu "Oooo Vô" foi tudo de que precisava. Hoje sei.
Onde estiver, obrigada vô...você foi o pai que eu amei.

O Caminho


Acordei hoje com uma lufada de vento na cortina.
Pensei no meu dia, e ele era somente meu.
Fiquei ali, enroscada como uma gata sem unhas...fique olhando o vazio e,
Lembrei de uns momentos que vivi, de umas trilhas que enfrentei
Cheguei à conclusão de que ocupei espaços alheios, senti dores que não me pertenciam, dividi ardores que não me cabiam.
Analisando com calma o longo caminho por onde andei, vi claramente minhas paradas, meus recuos, minhas quedas. Está tudo lá, bem marcado no caminho da minha vida.
Mas meu caminho segue até onde meu olhar não alcança...e posso enxergar isto também.
Um caminho largo e tranquilo. Uma avenida com poucos e conhecidos pedestres.
Levantei revigorada, com sede de vida.
Olhei lá fora, vi a paisagem de sempre e sorri. Há uma paisagem e há um sorriso em mim.
Meu caminho é doce e estou pronta para a caminhada.

segunda-feira

A Rosa e a Noite



É noite. E filha da noite eu me considero.
Então visto uma camiseta do Elvis pra me embalar. Ligo o ar no calor máximo pra espantar o frio que está invadindo as horas da primavera.
Subo em minha grande cama de rainha. Cheiram bem meus lençóis brancos sob o edredon branco...uma única rosa me espreita aos pés da cama e como eu, não é botão nem fenecida. É uma rosa desabrochada e tem a cor da minha boca.
Espalho livros em torno de mim. A Teoria das Janelas Quebradas, Picasso, O Último Irmão, Antologia do Poetinha...os acaricio como se fossem crianças adormecidas, mas não escolho nenhum.
O som na sala toca Laguna Sunrise do Black Sabbath e uma melancolia gostosa me invade.
A noite parece morta mas eu sinto o pulsar tranquilo da minha paz. Me embrenho nas cobertas e fico bem quieta. Quero um sono bom.
Olho a rosa no edredon. Amanhã ela vai estar igual...a cada noite sempre igual, sem nunca fenecer.
Penso nisso e adormeço...