Eu ando delirando em minhas noites santas
Ando sonhando com tempestades, redemoinhos, naufrágios
Ando sentindo a pele ardendo
Sonhos desfeitos, acordo insone
E a noite avança
Em horas inteiras e lentas
Eu ouço algo, leio algo
Eu caminho na grama fria, pés descalços e cabeça nas nuvens
Eu ando delirante
Sonhando desperta
sábado
segunda-feira
PENSANDO NO AMOR
Eu ando pensando muito no amor.
Ando analisando, questionando, colocando empecilhos, tentando desacreditá-lo para mim mesma. Não acho que consiga. Como bem canta Ana Carolina " eu fui feita para o amor da cabeça aos pés..."
Bela conclusão mas e daí?!!!
Amar cansa. Amar é um saco. Amar dói. Mas a maior pretensão do amor é tirar a liberdade. O amor pra se dar a conhecer exige introdução, comentários e epitáfio. Um epitáfio de respeito diga-se de passagem, pra dar certeza de que o 'aqui jaz' fique bem explicado. E isso toma um tempo capaz de ocupar uma vida toda. Há, e ocupar uma vida toda amando é...nem sei o que é. Aliás sei, mas nem vou comentar.
Eu acho que o amor não pode nos tirar a liberdade, não pode nos afastar daqueles preciosos momentos com outros elos da cadeia humana, não pode sufocar, não pode invadir, não pode nos tirar de nós mesmos, nos transfigurar, nos abortar.
Amor daqueles de cinema, dos de verdade, igual ao da nossa avó. Isto não é amor. Na verdade é algo bem maior. Esta denominação de 'amor' dá-se a algo que é na verdade um pacto. Um pacto silencioso, mais vital do que o sanguíneo. Um pacto como aqueles que levou homens de outras eras a lutarem por uma crença, daqueles que fez esposas jogarem-se nas piras funerárias de seus amados, servidores serem lacrados em uma tumba no deserto com seus senhores...
Tudo o que eu tenho visto, ouvido, sentido pelas ruas nada tem de amor.
Tudo isto a que assisto são paixões, apegos, conforto, gostar...
Num pacto de amor dá-se tudo. Entrega-se a vida, os sonhos, dias e noites, esperanças, vontades...neste tipo de vivência não se fala; cala. Não se olha, absorve. Não se arde, abranda. Não se quer amanhã, quer o sempre, o tudo. E o tudo ainda é pouco.
Pactos devem ser inquebrantáveis, inabaláveis, inamovíveis, eternos. Ecoar nos dias felizes que passam. Reverberar em quem está em volta. Mas o mal dos pactos é que ninguém compactua com a ausência, com a inverdade, com o engodo. Ninguém ama sozinho. Assim na verdade os pactos se extinguem...suavemente numa penumbra de lástimas. Os pactos tem fim sim; triste conclusão. O amor se ausenta.
Isso é amor pra mim.
Por isto ando pensando tanto e chegando ao entendimento de que, ou estou equivocada ou ultrapassada. Se equivocada, pena. Se ultrapassada, ufa tem solução.
Mas não vou enganar ninguém. Não me sinto nem equivocada, nem ultrapassada. Sou uma louca romântica, isso sim.
Me descobri capaz de amar sempre com uma intensidade que chega a ser injusta.
Só que pensar nunca deixou de ter valia para alguma coisa, e por pensar não ando afim dessa história de pacto. Dá muito trabalho. É muita doação, muita credulidade, muita emoção e, no final, uma sensação de que estive fazendo parte de uma seita de fanáticos alienados.
Tá bom, confesso, mesmo sendo um saco; se for um amor com tudo o que tem direito, eu aceito sim.
Já que me digo feita pra essa coisa toda...avante!!! Se tiver que cortar o pulso e amarrar com uma fita sobre o fogo, eu topo. Com a pessoa certa, eu topo. Olha só essa conversa de pessoa certa. Isso é coisa de quem está prestes a afundar num daqueles pactos de comer a carne e roer os ossos.
As vezes me sinto uma adicta da pior das drogas, do pior dos vícios.
Amar enormemente...
domingo
VIDA DE CINEMA

Uma pessoa aconselhou-me um filme. Avisou que é um filme muito bom, mas bastante dramático e com um forte suspense. Um filme onde as relações humanas são expostas da forma mais cruel.
Comentando antecipadamente sobre a história cheguei à conclusão que algo semelhante me havia acontecido. Falando tranquila e abertamente relatei que eu havia passado por um filme real que combinava drama e terror de forma mais pungente. A amiga calou-se, ficou constrangida e disse preocupar-se muito comigo ultimamente.
Porquê?
Ok, a coisa é simples. Nós queremos ver terror, suspense e drama no cinema. "Dormindo com o Inimigo", "As bruxas de Salem" " Guardiões do hades"...todos os monstros, psicóticos, assassinos...lá no mundo do faz-de-conta.
Nós queremos ler todo tipo de desatino. " Fora de mim", "O amor é um cão dos diabos", "Eu mato"...também lá, no mundo do faz-de-conta.
Todas as piores possibilidades de externar a verdadeira cara do ser humano...nós adoramos.
Mas com um detalhe...não na nossa sala de visitas, não no chá da tarde, não ao nosso lado. A gente adora toda a promiscuidade, a maldade, a irresponsabilidade, a vingança, a fraqueza que se possa conceber...mas nunca, nunca se ela for "de verdade". Aí então fica-se constrangido, assustado, foge-se. Pensa-se que aquela pessoa não precisava nos perturbar com sua realidade dura. Que paradoxo absurdo é esse? me expliquem...ah tá, eu sei.
O certo é ...
Diga "Oh, mesmo vou assistir. Vou adorar." Mas se você foi perseguido por alguém com a cara do Jason, não conte. Se você esteve dormindo com o inimigo, disfarce. Se você teve um cancer devorador e está se recuperando, diga que sua cabeça raspadinha é uma nova moda.
Não assuste, não se torne indigesto, não fale, não demonstre, não exponha sua sensibilidade ou qualquer dor...Seja polido, não mostre a mancha na sua roupa velha, suas cicatrizes...nada de sangue real, nada de serras, bisturis, diálogos alucinantes, histórias de vida que parecem ficção...você está fora das telas então, "do not disturb please..."
Vá ao cinema com a amiga ver aquele filme que parece um plágio da sua vida, chore um oceano pela mocinha e no final vá comer um pizza como se não houvesse passado nem futuro. Na despedida sorria e marque outra rodada de tortura. Leia o livro que lhe enviaram, diga que nunca viu nada tão incrível mas que aquela perturbação toda nada tem a ver com sua realidade.
Prefira a superficialidade no convívio social por favor.
Para manter os amigos fique só no território das fábulas. A vida real é profundamente individual e ninguém quer saber da sua. A tal história do "como vai você" por pura educação é verdadeira. Seus amigos nãooooo querem saber a verade, não tem tempo nem saco pra ouvir, não estão com vontade de se sentirem perturbados por cenas da vida real.
Tudo bem. A maioria vence, a hipocrisia é uma delícia, a superficialidade uma tragédia oscarizada e a urgência em ser feliz uma comédia sobre o tempo.
A mim não indiquem mais historinhas fortes, obrigada. Isto se você não quiser ouvir alguma comparação com a vida real que, com certeza, vai lhe por pra correr.
Eu sou bem real...
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