sexta-feira

O Desconhecido

É alguém que anda e anda e nunca pode parar de andar. E as remissões de sua loucura-doença intransigente vão espaçando até que ele se perca.
Me perdi no desconhecido...pensando que os períodos de remissão na vida são curtos e quase dormentes. Espaços medidos em frames entre sorte e azar...amor e desamor...encontro e abandono...saúde e doença...
Num vai e vem infernal até o sepulcro de nossas almas cansadas. Mal lavadas, malfadadas e sem gosto de mar.
Há 3 dias numa tarde de sol, eu na rede me pensava feliz...redimida. Em paz. Poderia ficar ali para todo o sempre porque enfim parecia haver um lugar para os restos de mim. Andava dando ouvidos às boas novas dos Sabiás.
Hoje acabou a trégua. Veio essa chuva insistente, não pra me lavar; pra me enlamear a vontade e a perspectiva.
Eu me perco...a maldita critura em mim denominada "alma" sempre consegue esquecer. Nunca prevê o próximo percalço, a próxima parada, uma nova mentira, uma nova dor, outra facada. Dizem que se chama esperança essa atrofia da desconfiança. Maldição dos crédulos a tal esperança. Claro que eu tive esperança no meu atual estado apaziguado de viver...uns meses. Uns mesezinhos só e eu já voltava a sacudir os cabelos ao vento e sorrir. Minha memória negativista não está aderindo tão bem quanto antes.
Cadê eu mesma afinal? Eu que acabei dando lugar a essa criatura vivaz...como a Jaqueline de tanto tempo atrás.
Me perguntassem o que eu queria agora, e a resposta seria andar. Andar como o personagem desconhecido de uma história escrita por acaso. Não quero um lar, não quero amigos, não quero amar ninguém...nem a mim. Queria o benefício do esquecimento, do desprendimento, da mendicância sem fé.
Mas eu acostumada com a minha rede, com minha música, meus livros, meu sanduíche...meu telefone que toca, qualquer abraço que ganhe...eu sem blindagem volto a entrar em remissão.
Um tropeço. Um tropeço grande e to cheia de dor e medo. O que me dá raiva é que eu morro de medo e geralmente tenho que enfrentá-lo.
Quem foi que escrveu este código de sobrevivência?...
Levantar, trabalhar, comer, falar, ouvir, pagar, sorrir, ler, andar, ganhar, cumprir, perder, sentir, adormecer...e abrir os olhos outra vez.
Deus...Deus...me dá um tempo. Deu de surras em mim. Me deixa encontrar o resultado dessa maldita esperança. Me deixa sentar na minha rede e ter certeza de que agora, enfim, vai ser assim até o meu fim.

domingo

DESENCANTO

Me vi Narciso, não me achei a perfeita imagem.
Me senti Ariadne, mas não tinha o segredo do labirinto.
Me pensei Diana, então por quê a aljava já me pesava tanto?
Me vesti de Vênus, não suportei o fulgor.
Para ser Medusa, não havia vontade pétra.
Para Anjo, me faltava candura...
Então me imaginei uma Serpente caída
rastejando em culpas assumidas e em
culpabilidades impostas.
Mais calma, pensei me conhecer
e deitei-me ao sol. Não troquei de pele no entanto.
Permaneci antiga, marcada, equivocada talvez.
Não era Serpente também.
Refletida em um padrasto espelho, finalmente
vi quem eu era...
Nem mito, nem tormento.
Sem alento eu era Gente.
Criança símio, desencantada,
sem noção do caminho,
sem selo de autenticidade,
sem nada.
De volta ao espelho d'água gritei:
Deusa, deusa acorda em mim !
Só marulho e vento em um sussurro:
"Vá pra casa Bandarlog; vá pra casa.
Cria teu próprio encanto e tua história
Tu viveres já tua glória...
Não peças mais,
Não peças mais.

Purificação

Eu dormi. Dormi muito...dormi noites e dias consecutivos. Estive vivendo o sono da morte.
Estive fora, longe...fora de alcance.
Acordo agora com a chuva lavando as ruas.
Estou purificada.
As ruas estão desertas e limpas
Há cheiro da inocência liberta, eu o sinto. É quase palpável...
Cada gota desta chuva suave, tem o poder de apagar uma página, uma dor, um século inteiro de erros.
Que chova...
A melhor parte de acordar disto tudo é acordar em paz.
Sozinha, leve, forte.
Eu não escolhi ser quem sou, alguém me colocou aqui
Tive que aprender a reconhecer e apreciar luz e sombra
Aprendi a lutar e a adormecer; a me erguer
E hoje, quando a madrugada vier eu vou andar na chuva lá fora...vou andar descalça. Liberta...
Minha alma está leve.
Preciso apenas que uma gota escorra pelas minhas mãos
Depois eu volto a dormir...

quinta-feira

O LADO NEGRO DA FORÇA

Hoje me perguntaram se eu não andava escrevendo mais?!!! Respondi que andava sem inspiração.
Pois olha eu por aqui. É que bem no final do dia vai chegando a hora dos "gatos ficarem pardos" e tudo pode acontecer. E aconteceu...
No meio de uma discussão boba, (toda a discussão que termina mal, começa boba) eu me posicionei veementemente em relação a  algo e me disseram que eu tenho um "lado negro" meio assustador. Tá bom...Espera aí. Como é que é?!!!
Eu tenho um lado negro por que as vezes posso revidar o que considero uma agressão, com mais agressão ainda, porque posso duvidar e me enfurecer com as coisas?!!! Ok, pode ser ruim. Mas e o 90% das vezes em que sou um doce de criatura, fica automaticamente anulado? Será que to sendo meio parcial nessa estimativa de 90%?...rsrsrsrs
Eu queria era mesmo falar do lado negro, do black latino, do mármore nórdico absoluto que todos fazemos questão de esconder lá no fundo da alma. Não o mármore, o ladinho Black Swan da gente. Hum, até parece que feio é ser composto de partes mais escuras.
Algumas pessoas realmente tentam soar sempre alvas palomas, rosas, "blue sky with diamonds"...Cai melhor socialmente, isso aprendi. Já o preto é a cor do luto, a cor da peste, da magia negra, a cor do "lado negro da força" segundo George Lucas. Será que posso lembrar que ao menos a elegância é pretinho básico.
É eu sou preto no branco, afinal. Não tem terapeuta que me faça crer nos matizes. E ainda por cima acho que em termos de personalidade, o incolor é que é o mórbido. Gente incolor  é em cima do muro, é não assumida. Incolor não é dia claro, não é por do sol, nem noite limpa. Incolor é descolorido, é nada. Incolor é a pessoa black com medo de si mesma e dos outros.
Isso a terapia faz pela gente. To me curtindo "black power"...
Meu lado negro voa alto quando estou com raiva, quando faço sexo bom, quando brigo, quando choro, quando me emociono, quando pego a BR pra voar as tranças, quando descubro que to amando e ainda assim digo "não"...
Meu lado branco é chatíssimo, a meu ver. Graças a ele já engoli muito sapo, não exigi o que me era devido, fugi de batalhas ganhas e também das perdidas. Meu lado clarinho se deixou explorar, ludibriar, magoar um sextilhão de vezes. Quando ele anda dominante eu acabo pagando caro.
Só tenho esses dois lados. Sou um ser humano com alma daltônica. Duas cores já me são demais. E isso não quer dizer duas caras, absolutamente. A questão aqui é temperamento, não caráter.
Olha, eu quero dizer que respeito muito todos os matizes. Inclusive os de cinza, que não aparecem em mim porque preto e branco juntos nem sempre formam cinza. Isso não é matemática, é texto imaginativo gente!
Ai, esqueci...não respeito todos não. Não consigo formar arco-íris com gente muito rosinha. Mas essa gente existe. Eu cumprimento, até posso dar um "curtir" no Face as vezes. Só não me peçam pra aguentar mais de meia hora. Porque eu sou black e a mistura de preto e rosa fica cor de cocô. Pode comprar tinta e experimentar.
Isso tudo pra dizer que, ter lá suas obscuridades é algo bem humano. Tem gente que disfarça bem, tem gente que nem faz questão. Fico com o meio termo. Mas poxa, não sou tão assustadora quando vista bem de perto. Sou até bem esperta pra saber que ser uma pessoa intensa e de extremos, pode ter justificativa e até encanto. O importante é ser autêntico.
Fora isso, às pessoas que não suportam a cor de si mesmas ou a dos outros, eu aconselho o photoshop. Fica quase...quase real.
Jackie

quarta-feira

Martha sempre me "mata"
diz o que eu queria ter pensado e dito
mas calei



"o caminho é este
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica
fui."
Martha Medeiros - 1985
retirado de dicas do face

quinta-feira

Consciência súbita

A vida é um caso de consciência súbita.
Há uns bons anos ganhei um cachorro...esse aí, ao lado. Fofinho, peludinho, branquinho, engraçadinho. Uma bolinha conquistadora.
Ele veio para "tentar" preencher um espaço que jamais poderia ser preenchido e eu sabia. Ainda assim se tornou o "filhinho" da casa...
Agora, 9 anos depois meu cachorro não anda bem. O veterinário me pediu que começasse uma terapia geriátrica. Fiquei chocada, acordei, sei lá...que idade mesmo tem meu cachorro?!!! E eu, que idade tenho?!!!
Bom, ele está certíssimo. Comecei a terapia, mas desde sábado meu cachorro não está bem. Meio chateado, enjoado, deprimido...Claro que faz quase dois anos que ele não corre pela casa, não busca a bolinha, não banca o histérico todo o final de tarde. Quanto a isto não pude fazer nada...se o "pai" não pensa em guarda compartilhada quem sou eu para exigir...
Só que hoje, eu me dei conta de que a coisa é bem maior. Fui escová-lo e comecei a conversar com ele. Isto mesmo, fui escovando pausadamente e falando. E ele me entendeu...Pedi uma pata para escovar e ele deu. Pedi a outra e ele trocou (não to inventado, disse: "agora a outra" e ele trocou). Pedi que deitasse para escovar a barriga, ele deitou. Deixou eu escovar o rabo sem as tradicionais mordidas e rosnadas. deixou eu "podar" os pelos do pipi sem me ameçar de morte...
Enquanto conversávamos perguntei se ele estava triste...ele suspirou e rolou de lado.
Foi aí que eu me dei conta.
Meu cachorro finalmente passou a entender tudo. Chegou o tempo de ele entender cada detalhe, cada gesto, cada silêncio, cada ausência. E igual a nós, os sabidos sapiens, quando isto acontece é porque o tempo passou.
Parece que tudo o que anda sobre a terra, quando chega em certo ponto da vida recebe a visão. Mas isso é lááááá adiante. As vezes em tempo de algo, as vezes não. Depois de tanto bater a cabeça, rosnar, correr atrás do rabo, bancar o bobinho a gente subitamente arregala os olhos e enxerga...vê o todo, o macro e o micro se misturando. Todos os nós se desfazem, o véu desaparece.
Uma merda isso...porque nunca acontece cedo.
O cedo pra quem vive, é tempo de fazer bobagem, ser cego, ser burro, se fazer de desentendido. Que nem o Freddie. Fez xixi onde não devia, cocô na hora errada, roubou beterraba e ficou lilás por 15 dias, esburacou tapete, manchou sofá.......se divertiu, nos divertiu. Só fez merda...
Agora que o relógio andou ele conhece a vida finalmente. A gente já brigou demais, já até se separou e voltou a ser uma dupla. Ele conhece a ausência, o medo de trovão, a sede e a dor. Ele teve uns carocinhos cretinos e foi operado como eu, sofre do estômago e do rim como eu...se chateia; também como eu. Fica nervoso. 
E agora, puta merda...ele entende como eu. Como eu, que recém to  começando a entendender a coisa toda.Pelo jeito preciso andar mais rápido...meus relógios cronológico e biológico deram uma bela avançada, e eu fazendo que não vejo.  
Eu sempre juro que não quero mais cachorro.
Cachorro é um maldito calendário existencial que a gente é obrigado a acompanhar. Preferimos ignorar a passagem do tempo para quem amamos e para nós mesmos. Brincamos de roda até o fim...mas tendo um cachorro é impossível. Ele cumpre todas as etapas na cara da gente como tudo o que é vivo.
O problema é que não nos apegamos a uma tartaruga da mesma forma que a um cusco fofinho e babão. Uma tartaruga não ganha apelidinho, vira filhinho, usa roupinha e lacinho...cachorro é uma desgraça. Faz a gente sofrer...sempreeee.
Bem, o Freddie parece que agora é um senhor. Talvez saiba mais da vida do que eu.
Tudo bem alguém fazer terapia geriátrica aqui em casa. Sou boa nisto...não tenho problema com as "minhas horas" quando elas chegam. Vou fazer também...rsrsrsrs. 
Eu só não queria ter a prova de que no final é que a gente entende tudo, aprende tudo. Fica esperto, calmo e nobre... 
É muito injusto...com gente e com cachorro.

sexta-feira

Essa maldita falta de crença cria reféns.
Quem não crê tem que se submeter a se sentir vazio. Se a super criatura e seus desígnios não existem, se a gente tá aqui porque chegou de um zigoto, se a gente vai pro nada...bom, aí é duro.
Como é que eu vou ser feliz achando que sou uma ervilha que surgiu numa vagem aleatória.
E dái, o que se faz?... Catolicismo é muita hipocrisia, cientologia é de rir, espiritismo me faz sentir uma eterna punida...candomblé, budismo, siquismo...sei lá. Só sei que não rola. Andei analisando por 40 anos pra acabar tendo certeza que me falta um bocado de fé. E a fé me faz falta...
O que acontece? O tal vazio...esse maldito vazio.
Serão felizes os crentes. Eles se veem salvos, amparados, com alma, caminho, destino, pecados e perdões.
Eu? Sei lá de mim...
Ando por aí...vamos ver onde vou parar.
Só sei que quando a coisa fica feia eu me ponho de joelhos. São assim mesmo os incrédulos...rsrsrsrsrsrsrs...Deles será o reino das dúvidas.

Bloco de rua

To aqui acomodadíssima. Tá um frio antártico logo ali fora da janela. Uma delícia... 
Puta merda, tem gente que me liga e me instiga a "por o bloco na rua"...ahh, mas não mesmo. To no maior carnaval aqui...Cama deliciosa, musica ainda melhor. Um fogo crepitante na salamandra, o que me permite andar pela casa de camisola sem rumo. Isto, sem rumo.
Quem é que quer um rumo, se sentir parte do bloco?!!!
Tá, eu já quis. Não quero mais.
Hoje, quem quiser dançar comigo que se convide pra vir aqui. Se quiser dividir minhas cobertas, minha música e o foguinho...aí tem que saber rebolar. Oh yeah!
Tá uma noite fantástica. Gelada e silenciosa, bem ao meu gosto.
Lá pelas 3 da madrugada vou dar meu passeio noturno. Isso sim eu chamo de colocar o bloco na rua...Andar pelo jardim, olhar as estrelas. Sentir o ar penetrando na pele em forma de agulhas.
É, eu me desafio. Nunca faço o que esperam de mim.
Se é verão eu durmo...se tá frio eu levanto.
Se a música é lenta eu danço...se toca Ivete eu paraliso.
Quando amo rechaço...Se me amam não acredito.
Bebem vinho...eu gosto do meu sangue.
Se me ligam convidando pra sair até me agrada. Mas se me mandarem levantar a bunda, o bloco, dar as caras. Aí não vou.
Além de comodista e cheia de manhas eu sou do contra. Sou contra o gesto de me criticarem por ser assim...como assim? Eu sou o que sou e daí.
No final da conversa me perguntam se to mesmo sozinha.
Não, porque estaria?
Hoje to comigo...e isso já um bloco e tanto.