Alguém por perto 'puxa' um assunto. Diz a você que é um amante dos livros e que sabe que você também é. Ok, amars, amatoria, 'a arte de amar', a busca pelo sentido definitivo....é, amante sim. Então você se propõe, com um sorriso um tanto cínico, a enfrentar a ladainha que vai surgir.
Você não quer conversar sobre livros. Você não quer falar de pensamentos, crenças, mitos, conclusões. Tem horror ao engenheiro que conversa sobre pontes, ao advogado que enuncia pareceres de tribunais, ao médico que descreve diletantemente casos que lhe caem nas mãos; é grosseiro com os demais...você não pretende contar o que pensa, lei, viu, soube ou intuiu.
Mas então está bem; o cara pergunta o que você gosta de ler. E você se saí com um desencorajador "de tudo um pouco". Bloqueiam sua rota de fuga e começam a surgir pareceres sobre todos aqueles livros do Dan...como ler Mestre Sun já que as empresas exigem...E, claro, quem lê ou pensa que lê Nietzche vai manifestar seu ego...o cara alemão anda na moda já faz um tempo, qualquer dia vai ser um outro o redescoberto e poderá pensar justo o contrário do que está em voga e todos vão achar que aprovam, ou que compreendem.
Alguns 'ohs' e 'ahs' de sua parte a fazem se sentir à vontade para pensar que está sendo bacana com todos ali. Também pode ser que passe por burra e falsária. E isto se torna imoralmente agradável...inopotência, mal dos males.
Você tem vontade de perguntar ao cara que começou a conversa, o que ele pensa do fato de Theroux andar 'modernizando' Maquiavel - a quem podiam tornar obrigatório nas grandes empresas e nas grandes famílias, hehehe. Ah claro, melhor, você poderia dar uma de incendiária e dizer que Nietzche era só mais um alucinado, que se alucinado não fosse não criaria vontades de poder, não reeditaria o bom e velho eterno retorno, não adoraria Byron...mas que apesar disso você reconhece; das alucinações saiu o que há de melhor em literatura, música e todo tipo de arte. Chapados, bebados, esquizóides, psicóticos, sifilíticos, megalômanos, suicídas e tantos outros tais foram os gênios deste mundo. Ou então quem sabe, você dissesse que gosta de Dante, que ama Cícero, mas que nunca leu Platão; isso poderia ficar constrangedor e por fim à conversa? Teria de coragem de observar que alguns desses caras foram uns simples idiotas endeusados pela morte, pelo tempo e pela falta de sentido e mitos que nos ronda? E que tirando fora estes idiotas lunáticos, o resto é mercantilismo?!!!
Quem sabe contar que leu o Dan, e que se divertiu porque não precisa 'pensar' pra ler algo assim. Por isto já é bom e basta, porque na verdade é uma grande merda. Isto chocaria e poria fim à conversa? Ou será que chocaria ainda mais o simples fato de você tê-lo lido. Há...
Naquele instante seu pensamento está no fato de que algum dia na vida, as pessoas deveriam ter lido algo decente com o único intento da sabedoria e satisfação íntima. Deveriam ter efetuado suas buscas e suas descobertas sobre verdades e mentiras...mesmo sabendo que depois tem que depurar e deixar o cérebro esquecer todo aquele calhamaço de idéias e ideais alheios para poder funcionar com leveza. E pra não se tornar um chato de carteirinha nas rodas de amigos.
O cara tem um copo de cerveja choca não mão e discorre longamente sobre alguém que você não costuma ler, aliás a quem você detesta. Alguém comenta livros de ajuda. E todo o resto do pessoal se sente soterrado pelo assunto. Chega a ser mórbido.
Então, a boa nova numa noite perdida: uma pessoa diz que não lê. Não gosta de ler.
Agora sim, você tem algo nas mãos para uma noite razoável, já que saiu para se divertir. Alguém por perto é um prático.
Só os idealistas, os perturbados, os românticos, os inconfessos e outros malucos iguais a você leem. Nem todos conseguem alcançar o entendimento e se manter do lado de fora da cáfila... Os prático-realistas admitem que não gostam, não entendem, não se cansam...ah, você gosta disto. Na verdade você prefere conversar sobre tudo e sobre nada; por hora.
E enquanto os falsos conhecedores conversam sobre o último lançamento de algum autor famoso sem se dar conta que é tudo uma grande brincadeira, você leva a sério conversar com alguém sobre coisas convencionais. Uma boa conversa para uma sexta à noite...
O cara de antes pergunta o que você acha da obra de Sartre...você diz que nunca leu Sartre e volta a conversar sobre banalidades. Além do mais, quem é você para ficar dando pareceres como se estivesse em uma tribuna e não numa mesa de bar. Até porque na sua infinita ignorância (o bom amante da arte da leitura ignora muita coisa, sim senhores, e o admite), você acredita que Sartre cansa......lê-se, pensa-se, arquiva-se. Adeus Sartre...há milênios não me aproximo das tuas cantilenas!!! Acho que foi numa época em que lia-se Carlos Castañeda em vez de Paulo Coelho...era um pacote heterogêneo, mas foi coisa de uns tempos que o tempo não esquece...e também não favorece. Sartre agora? A essa hora?!!!
Ninguém sai numa sexta pra provar que entende o que alguém quis dizer.....porre!!! Não, você não está de porre...a situação é que escorrega para o absurdo, porque ouço alguém - querendo entrar no assunto - citar a fatídica Cabana. Tá !!! O cara foi instigado a demonstrar toda a sua argúcia. Será que puseram algo nessas bebidas?...
Uma olhada em volta. Talvez ali adiante tenha uma mesa com algumas pessoas 'normais'. Ou serão um bando de engenheiros, advogados, médicos, filósofos, educadores e todos queles tolos que legitimaram a colocação do 'Dr' em seus cartões de apresentação?... Olha, tem gente que é possuidora do verdadeiro Dr... daqueles Dr que não se consegue sem malhar muito...E a maioria destas pessoas não fica por aí falando sobre sua perturbadora sapiência; geralmente estes são os com quem qualquer mortal pode conversar. E isto é muito relaxante. Pessoas brilhantes e merecedoras de apreço sabem fazer surgir seu intelecto num bate bola sutil e inteligente, sem demonstrar qualquer superioridade aos humildes que os cercam.
Bem, quase madrugada e as coisas estão complicadas, você analisa e não vê salvação. Levanta alegando dor de cabeça e vai pra casa. É ótimo que todos estejam à par do fato de que você sofre de enxaqueca. É seu plano B em muitas ocasiões.
Seu ego arrogante se sente bem legal por ter livros de tantos caras bons, muito bem guardados. É uma arte e uma honra escutar um estudioso discorrer sobre o que sabe bem. E um saco quando os babacas que ocupam o mundo todo discursam sobre nada...
Esta noite você, por vingança vai reler "Onde Vivem Os Monstros". É bem mais divertido e até filosófico. E menos burro, cansativo e falso do que ouvir algum membro da cáfila de 'leitores'. Daquela que você é obrigado a reconhecer que também faz parte.

