sexta-feira

O Desconhecido

É alguém que anda e anda e nunca pode parar de andar. E as remissões de sua loucura-doença intransigente vão espaçando até que ele se perca.
Me perdi no desconhecido...pensando que os períodos de remissão na vida são curtos e quase dormentes. Espaços medidos em frames entre sorte e azar...amor e desamor...encontro e abandono...saúde e doença...
Num vai e vem infernal até o sepulcro de nossas almas cansadas. Mal lavadas, malfadadas e sem gosto de mar.
Há 3 dias numa tarde de sol, eu na rede me pensava feliz...redimida. Em paz. Poderia ficar ali para todo o sempre porque enfim parecia haver um lugar para os restos de mim. Andava dando ouvidos às boas novas dos Sabiás.
Hoje acabou a trégua. Veio essa chuva insistente, não pra me lavar; pra me enlamear a vontade e a perspectiva.
Eu me perco...a maldita critura em mim denominada "alma" sempre consegue esquecer. Nunca prevê o próximo percalço, a próxima parada, uma nova mentira, uma nova dor, outra facada. Dizem que se chama esperança essa atrofia da desconfiança. Maldição dos crédulos a tal esperança. Claro que eu tive esperança no meu atual estado apaziguado de viver...uns meses. Uns mesezinhos só e eu já voltava a sacudir os cabelos ao vento e sorrir. Minha memória negativista não está aderindo tão bem quanto antes.
Cadê eu mesma afinal? Eu que acabei dando lugar a essa criatura vivaz...como a Jaqueline de tanto tempo atrás.
Me perguntassem o que eu queria agora, e a resposta seria andar. Andar como o personagem desconhecido de uma história escrita por acaso. Não quero um lar, não quero amigos, não quero amar ninguém...nem a mim. Queria o benefício do esquecimento, do desprendimento, da mendicância sem fé.
Mas eu acostumada com a minha rede, com minha música, meus livros, meu sanduíche...meu telefone que toca, qualquer abraço que ganhe...eu sem blindagem volto a entrar em remissão.
Um tropeço. Um tropeço grande e to cheia de dor e medo. O que me dá raiva é que eu morro de medo e geralmente tenho que enfrentá-lo.
Quem foi que escrveu este código de sobrevivência?...
Levantar, trabalhar, comer, falar, ouvir, pagar, sorrir, ler, andar, ganhar, cumprir, perder, sentir, adormecer...e abrir os olhos outra vez.
Deus...Deus...me dá um tempo. Deu de surras em mim. Me deixa encontrar o resultado dessa maldita esperança. Me deixa sentar na minha rede e ter certeza de que agora, enfim, vai ser assim até o meu fim.

domingo

DESENCANTO

Me vi Narciso, não me achei a perfeita imagem.
Me senti Ariadne, mas não tinha o segredo do labirinto.
Me pensei Diana, então por quê a aljava já me pesava tanto?
Me vesti de Vênus, não suportei o fulgor.
Para ser Medusa, não havia vontade pétra.
Para Anjo, me faltava candura...
Então me imaginei uma Serpente caída
rastejando em culpas assumidas e em
culpabilidades impostas.
Mais calma, pensei me conhecer
e deitei-me ao sol. Não troquei de pele no entanto.
Permaneci antiga, marcada, equivocada talvez.
Não era Serpente também.
Refletida em um padrasto espelho, finalmente
vi quem eu era...
Nem mito, nem tormento.
Sem alento eu era Gente.
Criança símio, desencantada,
sem noção do caminho,
sem selo de autenticidade,
sem nada.
De volta ao espelho d'água gritei:
Deusa, deusa acorda em mim !
Só marulho e vento em um sussurro:
"Vá pra casa Bandarlog; vá pra casa.
Cria teu próprio encanto e tua história
Tu viveres já tua glória...
Não peças mais,
Não peças mais.

Purificação

Eu dormi. Dormi muito...dormi noites e dias consecutivos. Estive vivendo o sono da morte.
Estive fora, longe...fora de alcance.
Acordo agora com a chuva lavando as ruas.
Estou purificada.
As ruas estão desertas e limpas
Há cheiro da inocência liberta, eu o sinto. É quase palpável...
Cada gota desta chuva suave, tem o poder de apagar uma página, uma dor, um século inteiro de erros.
Que chova...
A melhor parte de acordar disto tudo é acordar em paz.
Sozinha, leve, forte.
Eu não escolhi ser quem sou, alguém me colocou aqui
Tive que aprender a reconhecer e apreciar luz e sombra
Aprendi a lutar e a adormecer; a me erguer
E hoje, quando a madrugada vier eu vou andar na chuva lá fora...vou andar descalça. Liberta...
Minha alma está leve.
Preciso apenas que uma gota escorra pelas minhas mãos
Depois eu volto a dormir...

quinta-feira

O LADO NEGRO DA FORÇA

Hoje me perguntaram se eu não andava escrevendo mais?!!! Respondi que andava sem inspiração.
Pois olha eu por aqui. É que bem no final do dia vai chegando a hora dos "gatos ficarem pardos" e tudo pode acontecer. E aconteceu...
No meio de uma discussão boba, (toda a discussão que termina mal, começa boba) eu me posicionei veementemente em relação a  algo e me disseram que eu tenho um "lado negro" meio assustador. Tá bom...Espera aí. Como é que é?!!!
Eu tenho um lado negro por que as vezes posso revidar o que considero uma agressão, com mais agressão ainda, porque posso duvidar e me enfurecer com as coisas?!!! Ok, pode ser ruim. Mas e o 90% das vezes em que sou um doce de criatura, fica automaticamente anulado? Será que to sendo meio parcial nessa estimativa de 90%?...rsrsrsrs
Eu queria era mesmo falar do lado negro, do black latino, do mármore nórdico absoluto que todos fazemos questão de esconder lá no fundo da alma. Não o mármore, o ladinho Black Swan da gente. Hum, até parece que feio é ser composto de partes mais escuras.
Algumas pessoas realmente tentam soar sempre alvas palomas, rosas, "blue sky with diamonds"...Cai melhor socialmente, isso aprendi. Já o preto é a cor do luto, a cor da peste, da magia negra, a cor do "lado negro da força" segundo George Lucas. Será que posso lembrar que ao menos a elegância é pretinho básico.
É eu sou preto no branco, afinal. Não tem terapeuta que me faça crer nos matizes. E ainda por cima acho que em termos de personalidade, o incolor é que é o mórbido. Gente incolor  é em cima do muro, é não assumida. Incolor não é dia claro, não é por do sol, nem noite limpa. Incolor é descolorido, é nada. Incolor é a pessoa black com medo de si mesma e dos outros.
Isso a terapia faz pela gente. To me curtindo "black power"...
Meu lado negro voa alto quando estou com raiva, quando faço sexo bom, quando brigo, quando choro, quando me emociono, quando pego a BR pra voar as tranças, quando descubro que to amando e ainda assim digo "não"...
Meu lado branco é chatíssimo, a meu ver. Graças a ele já engoli muito sapo, não exigi o que me era devido, fugi de batalhas ganhas e também das perdidas. Meu lado clarinho se deixou explorar, ludibriar, magoar um sextilhão de vezes. Quando ele anda dominante eu acabo pagando caro.
Só tenho esses dois lados. Sou um ser humano com alma daltônica. Duas cores já me são demais. E isso não quer dizer duas caras, absolutamente. A questão aqui é temperamento, não caráter.
Olha, eu quero dizer que respeito muito todos os matizes. Inclusive os de cinza, que não aparecem em mim porque preto e branco juntos nem sempre formam cinza. Isso não é matemática, é texto imaginativo gente!
Ai, esqueci...não respeito todos não. Não consigo formar arco-íris com gente muito rosinha. Mas essa gente existe. Eu cumprimento, até posso dar um "curtir" no Face as vezes. Só não me peçam pra aguentar mais de meia hora. Porque eu sou black e a mistura de preto e rosa fica cor de cocô. Pode comprar tinta e experimentar.
Isso tudo pra dizer que, ter lá suas obscuridades é algo bem humano. Tem gente que disfarça bem, tem gente que nem faz questão. Fico com o meio termo. Mas poxa, não sou tão assustadora quando vista bem de perto. Sou até bem esperta pra saber que ser uma pessoa intensa e de extremos, pode ter justificativa e até encanto. O importante é ser autêntico.
Fora isso, às pessoas que não suportam a cor de si mesmas ou a dos outros, eu aconselho o photoshop. Fica quase...quase real.
Jackie

quarta-feira

Martha sempre me "mata"
diz o que eu queria ter pensado e dito
mas calei



"o caminho é este
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica
fui."
Martha Medeiros - 1985
retirado de dicas do face

quinta-feira

Consciência súbita

A vida é um caso de consciência súbita.
Há uns bons anos ganhei um cachorro...esse aí, ao lado. Fofinho, peludinho, branquinho, engraçadinho. Uma bolinha conquistadora.
Ele veio para "tentar" preencher um espaço que jamais poderia ser preenchido e eu sabia. Ainda assim se tornou o "filhinho" da casa...
Agora, 9 anos depois meu cachorro não anda bem. O veterinário me pediu que começasse uma terapia geriátrica. Fiquei chocada, acordei, sei lá...que idade mesmo tem meu cachorro?!!! E eu, que idade tenho?!!!
Bom, ele está certíssimo. Comecei a terapia, mas desde sábado meu cachorro não está bem. Meio chateado, enjoado, deprimido...Claro que faz quase dois anos que ele não corre pela casa, não busca a bolinha, não banca o histérico todo o final de tarde. Quanto a isto não pude fazer nada...se o "pai" não pensa em guarda compartilhada quem sou eu para exigir...
Só que hoje, eu me dei conta de que a coisa é bem maior. Fui escová-lo e comecei a conversar com ele. Isto mesmo, fui escovando pausadamente e falando. E ele me entendeu...Pedi uma pata para escovar e ele deu. Pedi a outra e ele trocou (não to inventado, disse: "agora a outra" e ele trocou). Pedi que deitasse para escovar a barriga, ele deitou. Deixou eu escovar o rabo sem as tradicionais mordidas e rosnadas. deixou eu "podar" os pelos do pipi sem me ameçar de morte...
Enquanto conversávamos perguntei se ele estava triste...ele suspirou e rolou de lado.
Foi aí que eu me dei conta.
Meu cachorro finalmente passou a entender tudo. Chegou o tempo de ele entender cada detalhe, cada gesto, cada silêncio, cada ausência. E igual a nós, os sabidos sapiens, quando isto acontece é porque o tempo passou.
Parece que tudo o que anda sobre a terra, quando chega em certo ponto da vida recebe a visão. Mas isso é lááááá adiante. As vezes em tempo de algo, as vezes não. Depois de tanto bater a cabeça, rosnar, correr atrás do rabo, bancar o bobinho a gente subitamente arregala os olhos e enxerga...vê o todo, o macro e o micro se misturando. Todos os nós se desfazem, o véu desaparece.
Uma merda isso...porque nunca acontece cedo.
O cedo pra quem vive, é tempo de fazer bobagem, ser cego, ser burro, se fazer de desentendido. Que nem o Freddie. Fez xixi onde não devia, cocô na hora errada, roubou beterraba e ficou lilás por 15 dias, esburacou tapete, manchou sofá.......se divertiu, nos divertiu. Só fez merda...
Agora que o relógio andou ele conhece a vida finalmente. A gente já brigou demais, já até se separou e voltou a ser uma dupla. Ele conhece a ausência, o medo de trovão, a sede e a dor. Ele teve uns carocinhos cretinos e foi operado como eu, sofre do estômago e do rim como eu...se chateia; também como eu. Fica nervoso. 
E agora, puta merda...ele entende como eu. Como eu, que recém to  começando a entendender a coisa toda.Pelo jeito preciso andar mais rápido...meus relógios cronológico e biológico deram uma bela avançada, e eu fazendo que não vejo.  
Eu sempre juro que não quero mais cachorro.
Cachorro é um maldito calendário existencial que a gente é obrigado a acompanhar. Preferimos ignorar a passagem do tempo para quem amamos e para nós mesmos. Brincamos de roda até o fim...mas tendo um cachorro é impossível. Ele cumpre todas as etapas na cara da gente como tudo o que é vivo.
O problema é que não nos apegamos a uma tartaruga da mesma forma que a um cusco fofinho e babão. Uma tartaruga não ganha apelidinho, vira filhinho, usa roupinha e lacinho...cachorro é uma desgraça. Faz a gente sofrer...sempreeee.
Bem, o Freddie parece que agora é um senhor. Talvez saiba mais da vida do que eu.
Tudo bem alguém fazer terapia geriátrica aqui em casa. Sou boa nisto...não tenho problema com as "minhas horas" quando elas chegam. Vou fazer também...rsrsrsrs. 
Eu só não queria ter a prova de que no final é que a gente entende tudo, aprende tudo. Fica esperto, calmo e nobre... 
É muito injusto...com gente e com cachorro.

sexta-feira

Essa maldita falta de crença cria reféns.
Quem não crê tem que se submeter a se sentir vazio. Se a super criatura e seus desígnios não existem, se a gente tá aqui porque chegou de um zigoto, se a gente vai pro nada...bom, aí é duro.
Como é que eu vou ser feliz achando que sou uma ervilha que surgiu numa vagem aleatória.
E dái, o que se faz?... Catolicismo é muita hipocrisia, cientologia é de rir, espiritismo me faz sentir uma eterna punida...candomblé, budismo, siquismo...sei lá. Só sei que não rola. Andei analisando por 40 anos pra acabar tendo certeza que me falta um bocado de fé. E a fé me faz falta...
O que acontece? O tal vazio...esse maldito vazio.
Serão felizes os crentes. Eles se veem salvos, amparados, com alma, caminho, destino, pecados e perdões.
Eu? Sei lá de mim...
Ando por aí...vamos ver onde vou parar.
Só sei que quando a coisa fica feia eu me ponho de joelhos. São assim mesmo os incrédulos...rsrsrsrsrsrsrs...Deles será o reino das dúvidas.

Bloco de rua

To aqui acomodadíssima. Tá um frio antártico logo ali fora da janela. Uma delícia... 
Puta merda, tem gente que me liga e me instiga a "por o bloco na rua"...ahh, mas não mesmo. To no maior carnaval aqui...Cama deliciosa, musica ainda melhor. Um fogo crepitante na salamandra, o que me permite andar pela casa de camisola sem rumo. Isto, sem rumo.
Quem é que quer um rumo, se sentir parte do bloco?!!!
Tá, eu já quis. Não quero mais.
Hoje, quem quiser dançar comigo que se convide pra vir aqui. Se quiser dividir minhas cobertas, minha música e o foguinho...aí tem que saber rebolar. Oh yeah!
Tá uma noite fantástica. Gelada e silenciosa, bem ao meu gosto.
Lá pelas 3 da madrugada vou dar meu passeio noturno. Isso sim eu chamo de colocar o bloco na rua...Andar pelo jardim, olhar as estrelas. Sentir o ar penetrando na pele em forma de agulhas.
É, eu me desafio. Nunca faço o que esperam de mim.
Se é verão eu durmo...se tá frio eu levanto.
Se a música é lenta eu danço...se toca Ivete eu paraliso.
Quando amo rechaço...Se me amam não acredito.
Bebem vinho...eu gosto do meu sangue.
Se me ligam convidando pra sair até me agrada. Mas se me mandarem levantar a bunda, o bloco, dar as caras. Aí não vou.
Além de comodista e cheia de manhas eu sou do contra. Sou contra o gesto de me criticarem por ser assim...como assim? Eu sou o que sou e daí.
No final da conversa me perguntam se to mesmo sozinha.
Não, porque estaria?
Hoje to comigo...e isso já um bloco e tanto.

COBERTOR DE ORELHA

To me descobrindo meio feminista.
O quanto eu sou combativa, braba e cheia de idéias muito próprias; quem me conhece sabe. Mas e quem não me conhece bem? É aí que as pessoas escorregam o tempo todo.
Agora pra complicar, ando me dando o direito de virar feminista. Depois dos 30 a gente se transforma no que quiser...
Pois não é que esta semana tive que morder a lingua com um amigo. Bem, conversando educadamente - não digam aí que deixei a bola quicando - sobre o frio e alguns transtornos que ele causa. Falei que estava dormindo com uma pilha enorme de cobertores, e que isto causa certo desconforto.  
Pois a pessoa me diz: "olhe, eu também estou sem 'cobertor de orelha', e como você é uma pessoa 'bonita e querida', eu posso te 'ajudar' nisto sendo teu cobertor de orelha..."
"Aimeudeus"!
Diante do meu choque e mutismo, a pessoa se desculpou. Eu, educadinha, disse que "nãoooo que bobagem, não se preocupasse".
Acho que fui gentil e mantive o amigo no círculo das pessoas que não me odeiam pela minha forma de pensar e pela minha marcante agressividade. Vamos calcular...ele é até que gostosão. Até aí tudo bem porque gostosona também sou (rsrsrsrs). Não tenho os 30 anos dele, mas eu diria que ando no ponto certo para causar calor e ainda "ensinar umas coisinhas".
Só que a coisa toda descamba para o lado feminista quando começo a pensar. Por quê cargas d'água os caras acham que a gente precisa de um "cobertor de orelha" ou uma "ajuda"?!!! Nem me passa pela cabeça ceder espaço na minha cama maravilhosa, no meu lençol elétrico que eu "ligo e desligo" quando bem entendo, nas minhas gostosas noites escutando a música que "eu" gosto, com o abajur ligado até a hora que acho conveniente ler...não, nem me passa pela cabeça. Imagine ter de explicar para alguém que eu gosto de ficar sozinha em muitos momentos. Como é que eu faria este alguém entender que eu odeioooo dormir de "conchinha". Não dá...realmente, não dá.
Poxa, me deem um tempo. To adorando esse meu modo egoísta de viver. E por favor, me deem o crédito de pensar que quando isto acontecer, Deus me ajude na questão da escolha desta vez, seja alguém admirável. Aliás quem me conhece sabe, meu tesão inicialmente é pelo cérebro, não pela fina estampa da pessoa. Como sou uma chata, exigente e meio feminista, fica complicado admirar alguém a ponto de fazer uma imagem da divisão da minha cama por mais que algumas horas.
De qualquer forma, cobertas pesadas me causam realmente incômodo, mas porque tenho falta de ar; expliquei cheia de meiguice que eu não estava fazendo nenhum convite.
Sou uma pessoa que ama o frio, ama o inverno. Ainda tenho uma casa com uma lareira e mais uma salamandra, tenho ar condicionado, cobertor elétrico, pantufas, algumas meias de lã...e muitos cobertores. 
Além do mais, cá pra nós; tenho senso crítico e chocolate quente...tenho pavio curto e chocolate quente...não to desesperada e tenho chocolate quente...tenho um vibrador e chocolate quente...obrigada mas no pacote do "cobertor" sempre vem muita coisa que me assusta, então, por hora eu passo!!!
Umpf, depois de "velha" acabei me transformando em uma feminista que ainda por cima está de saco cheio da "esquerda democrática" do país (da prefeitura da minha cidade, passando pelo governo do estado e por fim, a Dilma) . Talvez isto signifique que agora sim, to ficando interessante.

terça-feira

OS TRÊS AMORES GREGOS

Gostaria de dividir algo belíssimo que descobri hoje. Sou uma apaixonada por mitologia, e mais pela ligação que há entre os mitos e a natureza humana. Hoje lendo sobre a deusa Tétis encontrei este parecer sobre as divisões do amor baseado no ideal grego e no que representa hoje. Acompanhem que linda a elaboração de Eros, Filos e Ágape.
(...) para os antigos gregos o ser humano experimenta basicamente três formas de amor. Eros, o deus dos olhos vendados, nos atinge penetrando as barreiras do ego e dos mecanismos de defesa que criamos. Com Eros, sem lógica e sem razão ficamos apaixonados, mas não realmente pela pessoa, mas por quem queremos que ela seja. Mais tarde percebemos as particularidades da pessoa , e ela já não é mais o que pensávamos ser. Nos apaixonamos por causa da correspondência de vulnerabilidades, não pela correspondência de forças, e quando atentamos para as características do parceiro nossas defesas novamente se erguem. Algumas vezes criamos as barreiras do ego uma após a outra, enquanto buscamos o relacionamento perfeito. Nos relacionamentos apaixonados de Eros atraímos parceiros que tem o que falta em nós e neste tipo de amor a intensidade do Eros é sempre temporária. Mas os que sobrevivem podem se tornar Filos.
No amor de Filos, após o caos inicial da atração de Eros, o relacionamento muda na forma de compromisso. Começamos a reconhecer os reais valores do outro e nos propomos a partilha-los. Assim, num esforço para manter um estilo de vida, frequentemente as partes mais profundas do 'Eu' são suprimidas ou negadas. Geralmente há respeito e até profunda compreensão, o que pode levar, em alguns casos, ao tédio e ressentimento. O relacionamento de Filos é aquele em que as pessoas não se veem realmente e pensam muito no que 'poderia ter sido'. Mas um amor Filos, muitas vezes satisfaz mais do que a solidão.
E então há o Ágape (lembrei agora de um termo, creio que árabe, que descreve a pessoa amada como 'ágape mou').
No amor Ágape, as pessoas realmente se conhecem e partilham qualidades, defeitos, intimidades sexuais e morais, sociais e mentais. Neste tipo de relacionamento não amamos por causa de, ou apesar de...amamos apenas pelo sentimento. O amor Ágape não vem acompanhado da chama intensa de Eros, mas traz prazer e calma. Traz segurança, crescimento, amadurecimento. No amor deste gênero não há ressentimento de nenhum tipo, nem insegurança; cada um é livre. Um ser individual mas recíproco, sem jogos ou estratégias(...)
Pois bem, dizem que o amor Ágape, o ser humano só é capaz de sentir pelos filhos. Pois quando unidos ao sexo oposto, misturamos Eros e Filos...desejo, paixão e outros sentimentos mais. Nos tornamos possessívos, críticos; desejando sempre ser amados como amamos. Para o ser humano dar amor implica em receber, sempre.
O que me fez parar e pensar foi a observação da terapeuta que redigiu o artigo. Diz ela que:" estamos sempre correndo, buscando, e esquecemos de tentar fazer do encontro uma união. Acha-se que com uma nova pessoa temos a chance de entrar logo na fase Ágape, pulando etapas de sofrimento e mágoa. Ledo engano, amar é um eterno aprendizado, e quanto mais amamos, mais sentimos que nada sabemos dessa força poderosa".
Eu sei que há quem diga que o amor integral passaria pelas três etapas. No mito, na teoria...parece muito bonito alcançar o Ágape. Seria uma espécie de Olimpo do amor, onde só chegariam os vencedores desta batalha ímpar. Eu, muito particularmente, me canso só de pensar.
Se enfrentar Eros é lindamente complicado. Ultrapassar Filos é verdadeiramente insuportável, eu garanto. E chego a pensar que o inquestionável Ágape possa ser meio entediante, apesar de teoricamente belo.
Se a chama de Eros queima e agride, o extremo respeito de Filos nos encarcera e o Ágape é um sonho distante!...Ufa, com base no belíssimo entendimento grego para os fatos da vida, é melhor não amar. Ou amar apenas a si mesmo, mas este já é outro mito e outra história.

Fonte: Mitologia Grega Blogspot.com

La Luna

                                                          
A noite cai, silêncio
A escuridão respira silenciosamente
Apenas a Lua estará acordada
Ela nos cobrirá de prata
Ela brilhará no grande céu
Apenas a Lua estará acordada

Interlude

Se me perguntarem quando chorei assim, eu não quero dizer.
Por que foi, eu não quero pensar.
Está ventando, alguém mais pode sentir?
Só o fogo ilumina a escuridão em mim...
Escuridão que se fez, repentinamente assim...enorme.
Olhando o fogo, surgiram pensamentos, surgiram lágrimas;
Surgiu um rio, um lago, um oceano.
E eu depois de passado tanto tempo sentei ao piano.
Eu havia prometido, não me permitir
Mas corri os dedos pelo teclado.
Soei de encontro ao vento
Uns acordes antigos
La Luna...
E eu chorei novamente agora
No escuro, com vento e o fogo.
O piano (ou era eu ) gemendo.
Só consegui dedilhar
Eu estou tão cansada...ah, tão cansada.
Perdida
Presa
Sem salavação
Será que apenas eu quem vejo
Que a vida é um disco quebrado, repetindo a introdução
Who Wants To Live Forever...La Luna...
Quem será que quer tocar isto, ouvir isto
Abandono o teclado e me abraço
Sou mesmo a única responsável
Por este eterno cansaço
Que se traduz no abandono de tudo o que esperei
Dos sonhos que sonhei.

O PNEU E EU

To tomando fôlego...acabo de trocar um pneu.
Sentei aqui pra refletir...
Dizem que a gente reencarna, e acho um desaforo ser obrigado a isso. Mas essa é outra história.
O que eu quero é que - se reencarnar na marra - eu venha "mulherzinha".
É, isso mesmo. Desejo que todas as mulheres-machinho que povoam a terra venham mulherzinhas. Há !!! Não é uma praga gurias, é a nossa salvação. Depois disso, só mesmo o nirvana.
Eu, por exemplo, não vou ter idéia de como se troca um pneu. Contrário a este procedimento masculino também vai ser o fato de que vou ter enormes e bonitas unhas cor-de-rosa, braços finos como varetinhas. Aliás vou ter uma compleição delicadíssima. Vou ser branquinha, fragilzinha, levinha, baixinha...toda "inha" !!!
Não vou nascer gritando, capaz que vou ser gritona. Toda só sussuros e murmúrios meigos.
Rosa, serei apaixonada por todos os rosas do universo e babados...muitos babados.
Nunca vou ficar braba, vou ficar sempre muito "sentida".
Não vou brigar, vou me desmanchar em lágrimas e soluços profundamente magoados. Claro que por qualquer coisinha, qualquer insignificância. Ah, lebrei...eu vou saber desmaiar. Juro, eu que nunca desmaiei por cálculo renal, por homem, por ver sangue e bisturi; vou desfalecer com a propriedade das mulherzinhas. Aquelas que colocam todo mundo pra correr na volta delas.
Ai, eu invejo tanto essas garotas. São tão lindas e doces...
Acho que to mal encaminhada. Não ando lendo romance de banca de revista, nem os conselhos da revista Nova. Putz, eu leio sobre homicídios e investigo sobre lançamentos de carro.
Não, a "telma" aqui não é gay. Nada contra, nunca provei. Quem sabe até pode ser por aí...hahahahaha
Aff !!! Ia ser contra meus planos de ser muito, mas muito mulherzinha. As mulheres gays, acho que não tem muito saco pra meninas assim.
Bom, pra ser mulherzinha eu não posso me meter em construção, tenho que bordar ponto cruz. Ouvir a Paula Fernandes e chorar. Tremer toda quando ouvir uma voz grossa ficar alterada. Não suportar dormir sozinha.
Ai, ai...eu daria tudo pra ser mulherzinha. Não estaria aqui, com falta de ar e cansada de trocar pneu. Eu teria rodado 400Km com o pneu furado e depois perguntado a um marmanjo que me socorresse o que estava acontecendo. Ele ia me pagar um sorvete e se apaixonar...

Bom, conclamo todas as garotonas, fodonas, duronas, independentonas...
Mulherzinhas na próxima encarnação!!!
Ou que pelo menos a genética se defina. Se é mesmo pra vir Maria ou se é pra vir João.
Mas se tiver que ser Maria...eu quero ser açucarada, fragilizada, embonecada, nunca suada, muito disputada e, quem sabe...menos crítica e estressada.
Ah, faz uns dois meses que andei de desconfiar que meu nome não combina comigo. É um nome tão feminino. Parece mesmo que não soa bem em quem troca pneu e usa galochas. 
No retorno quero ter nome de flor. Podia ter uns memorandos circulando por aí com as instruções pro pessoal onde a gente for pousar. Me chamem por nome de flor...me deem uma educação refinada.
Façam de mim, por favor, uma mulher delicada.

quinta-feira

PEREIRAS

Hoje voltei pra casa feliz. Feliz por ter feito parte de um Sabbath... Ah, não pense em fogueiras ou  festivais. A reunião foi aniversário de uma dessas mulheres que florescidas, nasceram invernais. Uma mulher... não  qualquer mulher. Uma mulher do meu clã. Sim porque eu não tenho família, eu tenho clã. Morar na mesma palhoça nem pensar, mas experimente erguer a voz ao se aproximar.
As minhas mulheres, mulheres que amo, são umas onças, são lobas, são bobas... são cada uma, porte de rainha e inteligência científica. Maduras ou jovens... de raiz ou agregadas. Todas são mulher-árvore e em formato de raiz de Pereira deixam na vida pegadas.
Sou crítica e analítica, mas não vou ser humilde aqui. Essas mulheres são lindas... cada uma de um tom, um estilo. Dá pra vislumbrar nas diferentes linhas, as sombras do tanto em comum. Sorrisos, pernas, cabelos... coragem, fulgor...todas reservadas e tão cheias de um espírito tempestuoso de amor. Amores característicos. Míticos. Femininos e matriarcais.
Não me lembram açúcar e sim melado, algo que adoça e se mantém encorpado. Não são bambu, porque não vergam nem a sós nem juntas; são carvalho, raras, nobres, fortes. Independentes, mas ok, conte com elas... Se uma precisa de colo nada de muita lamúria, o funcionamento do correio garante uma muralha de carinho e fúria.
Herdeiras de Augusta princesa transformada em amazona e de Octávio o amor caído em batalha. Um quarteto, unidade fracionada que guarda cada uma em si o mesmo lar. Trabalhadoras...mães...avós...irmãs...amigas...
Pode-se vê-las aos pares, trios ou mesmo em um enorme bando. Clã por inteiro, cheio de amores complementares raízes que se estendem e entrelaçam. Abraçam quem chega... depois revisada a segurança, é claro. E que delícia o respeito ao espaço alheio sem perder o gosto pelo comunitário.
Não, nunca conheci fraternidade igual a esta de que faço parte. Poderosas mulheres “augustas” que detém o segredo de andar de mãos dadas e fazer de cada encontro, uma arte.


JUSTIÇA À MODA ANTIGA

Eu desconfio que estou fora de moda. Cursei Jornalismo e Direito em tempos em que o sonho dos jornalistas não era emagrecer na TV e em que o sonho dos candidatos à magistratura ia muito além de salário e poder. Eram tempos em que ser magistrado, promotor e até jornalista, era dispor de sua vida em favor de uma espécie de sacerdócio. A coisa toda nessas profissões girava em torno de frases batidas como: promover justiça, ser o fiscal da lei, proteger os direitos dos cidadãos; levar aos jornais verdades incômodas, mentiras mascaradas e realidades marcantes.  
Estive do lado de dentro do mundo televisivo assim como do mundo jurídico. Assessorei  juiz, num tempo em que equívocos aconteciam apenas por conhecimento insuficiente; e isto já era coisa  gravíssima. Claro foi numa era em que juízes ainda trabalhavam na madrugada...restam poucos.
Bom, quando surgiram os ‘novos magistrados novos’ no mercado, eu achei até interessante. Talvez uma brisa fresca no entrave da justiça... Ah, que engano imenso. Recentemente fui tomando ciência de que juiz despreparado, jovem demais e, em alguns casos com um caráter duvidoso, pode querer fazer pencas de melhores amigos em cada cidade que chega, expondo-se à expectativas interesseiras e envolvendo-se com obscuridades. Juiz de antigamente, quando se aproximava de ex-detento, era para orientar sua reintegração na sociedade, não pra ser amigo do peito. Aliás Excelências tinham cuidado com quem recebiam em suas casas. Tentavam não criar vínculos que os expusessem à desconfiança pública. E não eram mesmo mereceredores de desconfiança pública.
Isto foi num tempo em que ‘homens da lei’ não freqüentavam colunas de fofocas em imprensa marrom partidarista, não ficavam famosos por festas e orgias, não tinham garotas seminuas correndo por seus jardins, não apresentavam-se na praia em trajes sumários, não viviam em busca de fama e grana...e só.  Os caras pra alcançar um cargo de tamanha responsabilidade e compromisso, tinham que entender o significado de palavrinhas como: moral ilibada, imparcial, incorruptível, reservado, direito adquirido, justiça !!!
O juiz, o promotor, o delegado, procurador, desembargador...não são pessoas maiores nem melhores que ninguém. Mas eu, na minha ingenuidade antiga, acredito que são diferentes. Tem responsabilidades tão pesadas, compromissos tão caros, ideais tão elevados em torno de si que, devem sim, ser diferentes. Devem, obrigatoriamente, seguir o melhor caminho, tomar a decisão mais correta, ter o olhar mais neutro, a atitude menos arrogante.  Precisam de um caráter irretocável, de relações íntimas equilibradas, de uma experiência de vida que lhes de discernimento. Estas pessoas precisam oferecer aos cidadãos honestidade, esperança, confiabilidade, exemplos. Creio que argumentar haver nas esferas mais altas de poder tanta corrupção, não livra nem ao juiz, nem a você, nem a mim do ônus da correção.
Um amigo me lembrou estes dias que: O diabo não é diabo por ser velho, mas sim por ser cansado. Hoje, talvez muitos de nós se sintam assim...cansados. Não importa, não se trata de vocês ou de mim. Trata-se da tal coletividade que precisa estar azeitada pra funcionar. É chato ter juiz ‘descansando’ em casa com manutenção de ganhos proporcionais ao tempo de fracasso. Mas é impossível permitir que pessoas em qualquer cargo que demande responsabilidade, permaneçam perpetrando desmandos. E, pra mim que sou velha e cansada como o diabo, é triste que os antigos sacerdócios profissionais tenham cedido lugar a indústria dos concursos.
Eu, um dia, pensei em seguir a magistratura... mas me dei conta que não teria condições emocionais de atender à imensa demanda humana por justiça, sem prejudicar minha saúde e minha vida privada. Fui franca e decepcionei algumas pessoas ao dizer: “eu não posso, porque maior que o salário, mais alto que o cargo, é o compromisso com a verdade, que vai roubar meus dias e noites. E a busca incessante pela justa medida das coisas,  vai me roer até o tutano dos ossos”. Ser desistente tem um peso. Fazer escolhas, abdicar, decepcionar, abrir mão de sonhos. Talvez umas insignificâncias para quem alcança o olimpo... por motivos errados, escolhas equivocadas, ambição. 
 Bom o que eu penso não faz escola... sou uma interiorana ultrapassada e crédula que lembra bem do tempo em que fio de bigode de coronel, valia por uma fazenda e quando fio de bigode de juiz, valia por um império. E sou quase tão cansada quanto o diabo que anda por aí vendo sempre a mesma coisa há milênios.... Milênios de desmandos.
O que me dá esperança???? Ah, é que as vezes alguém cai lá de cima...aí sim a gente pode sentir o ar renovado e uma certa vontade de seguir acreditando.




terça-feira

TUDO O QUE PODE SER

Pode ser encantamento entre a alma escondida em uns olhos de asa da Graúna ou em uns olhos de asa de Pardal...
Pode ser uma nova forma de paixão pela anatomia cerebral
Pode ser, quem sabe, emoção do roçar na pele nua e crua por inteiro.
Até pode ser um absurdo tesão um com os pelos, outro com os cabelos...e ambos pelo cheiro.
Ou poderá ser pela conversa que permite uns risos e umas divergências.
Pode ser ainda o encontro de Narciso com seu duplo...
O encontro de um Anteros caído e uma Venus espoliada.
Ou o contrário; ser o desencontro de quem sem relógio se prende às horas, com aquele que é absorvido pelo tempo mas se algema à relógios.
Duas ansiedades, dois egos marcantes, duas auto estimas sensíveis?!!! Será isto?
Pode ser inclusive um quebra-cabeça de encaixe onde um tem o sulco e o outro a protuberância que se ajustam tanto.
Talvez pra você, pareça a oportunidade do romantismo filosófico conhecer a aparente distração daquele que se importa.
Duas profundidades...
A fraternidade do gênio ruim com o mau gênio?
Ou apenas genialidades sem maldade?
Não me seria estranho se fosse a praticidade crua vencendo a diligência.
Pode ser também a ingenuidade interiorana e a vivência metropolitana brincando juntas.
Será que adolescência e maturidade resolveram se misturar?
Ou mesmo a exibidinha e o pouco humilde que estão se reconhecendo divertidos.
Pode ser um espelho d'água...
A batalha fatal entre verdade agressiva e sinceridade assassina?
Pode ser a aproximação entre uma 'virgem da terra' e um astronauta de mármore.
Pode ser um elo entre o gosto pelo passado e a curiosidade pelo futuro.
Uma conservadora e um inovador
Um ato de coragem numa noite quente e um ato de bravura na mesma noite quente.
Pode ser a combinação do ronronar com os suspiros entrecortados.
É possivel atribuir tudo a "Moira"?
Não...não só. Ou nenhum pouco a ele.
Na verdade é muito menos do que tudo isto. E é algo bem maior...
É química; e eu afirmo com autoridade. Química pura, básica, simples. Fórmula antiga...primordial:
Duas moléculas de hidrogênio e muita...mas muita oxigenação!!!!!!!!!!!
Resulta nisto. Duas vertentes cristalinas escorrendo juntas. Cavando um leito de pedras antigo, revolvendo bancos de areia do caminho, criando redemoinhos.
Oxigenando!!!
H2O...............
Uma força...um tsunami...um perigo...
Surfar no prazer. Navegar no espaço. Mergulhar na descoberta.Ter sede e beber.
Abrir os olhos quando se está lá.
A mesma química do nascimento e da finitude. Do recobrimento e da corrosão...das eras.
Excitação de duas moléculas de hidrogênio vibrando e ressoando...com suficiente oxigênio; sempre.
Hidrogênio atômico? vá saber!!! Choque magnífico...aquoso e galáctico.
Na verdade, uma reunião de mundos.
É o que somos. Tudo o que isto é,
e o que poderá sempre haver.
Correndo sem curso...escorrendo em intercursos.
Livres, é o que podemos ser.

Jaqueline Mendes
29 maio 2011

CINEMA NUNCA FOI MEU FORTE


Durante minha infância as matinês de domingo eram motivo para sair de casa com os primos, não para ver os filmes. Na adolescência era uma expectadora daqueles filmes no meio da tarde, alguns com um papai “batuta”, ou uns corsários no velho estilo. Claro que admirei o que as massas admiravam...Ben Hur, E o vento levou. Essas coisas.Tudo sempre sem comprometimento. E claro, pesa o fato de que o cinema da minha cidadezinha de interior faliu na década de 80. Eu não tinha mesmo como ser cinéfila.
Entrei pra faculdade de jornalismo, quando ter 18 anos ainda significava ser uma “pirralha” bobona e sem noção. Bobona e sem noção é um estado permanente, mas naqueles tempos a coisa era bem pior. Quando olhei o currículo do curso, vi lá as cadeiras de cinema. Achei ótimo. Parecia que eu ia ser salva da ignorância cinematográfica...Bem, o mesmo professor lecionava Cinema 1 e Cinema 2. Era um cara Chamado Reis, um “crítico de cinema” local. E bem local. Mas o cara era respeitado e realmente entendia da arte. Um tipo baixo, grisalho e ensimesmado...e que tinha como particularidades gostar de filmes Noir e exercer o ofício de professor em permanente monólogo. Sempre em tom baixo e no mesmo ritmo sonolento. Ele também não admitia um pio. Já o cochilo em aula não lhe afetava a auto-estima. Rsrsrs...Pois é um fato, que as cadeiras de cinema aterrorizavam e causavam muita reprovação. Fiquei sabendo o motivo já na minha primeira aula com ele. Exames orais !!!  O tal do Reis aplicava exames orais onde os alunos deveriam mostrar vários posicionamentos de câmera, tomadas de cena e tal. Todo mundo morria de pavor disso. Eu surtei por outro detalhe: o exame era oral prático e também teórico. Puta merda !!! eu nunca tinha sido sabatinada na frente de ninguém nem no primário, e agora ia encarar um negócio daqueles. E mais; sobre cinema. E pior; o homem tinha fixação em datas. E o impossível; eu não tenho memória pra datas ou nomes de ruas.
Vi que não ia me tornar expert em cinema com a ajuda da faculdade. Como aluna novata, CDF e com mania de competir com o espelho; passei com louvor. Assim como passei com louvor na única cadeira que me causou risco de enfarte. A tal da Lógica...mas esta é outra história. O que fiz pra ser aprovada foi estudar como que para salvar a minha vida e esquecer tudo imediatamente após vomitar em cima do homem. E cinema pra mim voltou a ser pipoca e diversão.  Adoro filmes e isto é muito diferente de apreciar cinema. Gosto de bobagens comerciais, desenho animado, alguns heroísmos, um bocado de barbárie e até algum terror...eclética até sou, mas não tenho intelecto para o Cult ou filmes franceses. Não sei nada de diretores. Sei pouco de atores. Comédia, pra mim só se opõe ao trágico, porque graça nunca achei. Não tenho idéia de quem está fora ou dentro da tal “academia”. Apenas suspeito o que é “alternativo”. Não to nem aí pra Cannes ou pro Quiquito. Acho que a festa do Oscar é para lançar vestidos e jóias. Ok, sou sensível às trilhas sonoras, a uma bela fotografia...coisa comum. Não, nunca vou ser cinéfila. E parece que não fui a única a desistir...vejam onde o Jabor foi parar.












ANA PÃO E CIRCO

Sempre fui fã da cantora Ana Carolina. Bom, fã é meio exagero mas uma grande admiradora de seu trabalho. Ana que na minha humilde opinião é a melhor voz e violão que há hoje por aí.

Pois eu nunca tinha tido oportunidade de ir a um show dela. Vontade que decidi saciar neste fim de semana. E que vai fazer parte da história da minha vida por diversos motivos. Mas falando de música...esta estrela da música brasileira causou uma tremenda decepção em seu público cativo. Pelo menos nos não tão alucinados a ponto de perder o senso crítico. O show foi péssimo. Um tremendo fiasco que só serviu pra me dar a conhecer a total falta de profissionalismo e a arrogância de algumas pessoas que alcançam o topo da esfera. Pelo menos os que se dão este direito. Coisa pequena. Coisa chata. A cantora que adoro ou adorava, que sempre me emocionou, que aparentava tanta sensibilidade e arregimenta legiões que se misturam sem preconceito. Esta cantora, pra mim, não existe.

A cantora da legião de fãs e súditos. Legião de pessoas que compram CD original e ingresso de show. Legião dos que levam seu som pro exterior, que presenteiam com suas verdades, que representam momentos particulares com o poder entorpecente de uma cantora magnífica.

O povo precisa de pão e circo. Vamos admitir. Mas veja bem, a gente evoluiu um pouquinho. Claro que vemos o Faustão e o Big Brother. E assistimos impávidos ao Palocci porque temos o “bolsa pão”, ou porque somos preguiçosos demais pra gritar com o “leão”.

Mas espere; dizem que sou cristã, mas eu não sou cordeiro. O show da D. Ana Carolina no teatro do SESI em Porto Alegre neste final de maio de 2011, ano de Nosso Senhor...foi uma afronta ao seu público. Aos pagantes, como eu. A quem tinha expectativas como eu.

No chão do palco um pano negro amarfanhado e roto. De um lado jogaram uma bateria qualquer e do outro um tecladinho de escola de música. Um trilho aparente e uma grua mal feita onde descansava um violoncelo. No meio o esperado banquinho. De fundo imagens péssimas de pinturas terríveis que a cantora decidiu vender...por uma causa. Só ficou esclarecido pra mim que o show era em benefício de pacientes diabéticos quando ela enunciou que: “o show de hoje não vai ser o que vocês esperavam”. Também disse que estava fazendo uns experimentos musicais, acho que pra justificar a tentativa de ver unidade em um samba e “entre tapas e beijos”, coisa muito desarranjada. Fora isto, a platéia da Ana foi apenas o fã clube; umas 20 garotas pulando lá na frente (é um teatro onde todos ficam sentados) com camisetas. Ela sequer passou os olhos pelo resto do pessoal, e vejam que alguém ousou gritar um “olha pra cima” lá no mesanino.  Espetáculo inferior ao “tempo regulamentar” na música...mal tocado, mal cantado, sem vontade e sem respeito. Sem artista, sem produção.

O pessoal do diabetes merecia mais. Se você se compromete a emprestar seu nome a uma causa, o faça com boa vontade.  Eu que ando com o açúcar alto, e que rodei 250Km pra ver e ouvir Ana Carolina, merecia mais. Amarguei um arrependimento irado. Fazer parte da platéia desta cantora novamente? Nem morta. Seus lançamentos já não me interessam. Provavelmente ela escreve e canta o que nem reconhece. E obviamente não precisa mais que consumam sua arte. Ou nem precisou um dia, sei lá. Não sou fã a ponto de saber sua história. Só sei que é diabética...e que é mais um caso de impostura nacional.




segunda-feira

QUERO ALGUÉM

Eu soube há algum tempo que estava pronta. Soube e me surpreendi.
Vou confessar aqui...eu quero alguém.
Eu, ferida de morte um dia; quero alguém.
Eu, já curada agora; quero alguém.
Mas o alguém que quero tão ímpar que me mete medo não encontrá-lo.
Pra começar quero alguém pra ler comigo na cama à noite. Não é muita exigência e é exigência demais. Tem que chegar e me convidar pra adquirir um segunda lâmpada de leitura para o antes "meu" quarto. Vai precisar ser meio morcego, maluco por livros e por umas músicas meio estranhas...new age, blues...e coisas piores. Do tipo que ama dormir até tarde, ou acordar e ficar na cama. Que adore comer porcarias, não seja viciado em malhar e goste de cruzar fronteiras as vezes.
Alguém que convide pra comer um cachorro quente à meia-noite e depois andar na praia na madrugada fria de julho. Mas que ache ainda melhor chegar de volta, acender a lareira e conversar até o dia raiar.
Só é aceitável se tiver mãos - preferencialmente também os pés - bonitos. E cabelos abundantes me agradam muito.
Essencial que tenha muito cérebro. Se tiver inteligência emocional para equilibrar a nós dois, melhor.
Honesto, digno, sincero. Que veja o sexo como algo mágico e a vida com olhos de quem encanta serpentes todo dia.
Eu quero alguém que diga que vai passar uns 3 ou 4 dias na própria casa por estar precisando do seu espaço - e eu do meu. E que na volta, me encoste na parede com força e me de um beijo longo pra matar a saudade de nós dois.
É, verdade seja dita...eu quero alguém. Não precisa ser urgente, mas eu vou querer alguém. Contrariando meus próprios desígnios eu vou sim.
Pode haver pertencimento, sem a indébita apropriação da minha solitude.
Alguém que não me peça demais, nem que me dê de menos...
Uma presença constante mesmo quando estiver por uns dias distante.
Eu me rendo, eu quero alguém.
Não vamos falar de amores adolescentes aqui. Nem de estropiantes paixões. Apenas maduro, livre, cuidadoso. Com disponibilidade e vontade. Disponibilidade pra nós dois e vontade de me enxergar por trás da capa.
Ainda é difícil pra mim mesma, aceitar...mas eu quero mesmo alguém. 

NOVA CONVERSA SOBRE AMOR

Confessei hoje à uma amiga que não vai rolar...
Ela também confessou a mim que  já não há encanto...
É bem isto. Fiz esforço, me enganei, procurei ver as coisas sob uma luminosidade especial. Mas o fato é que o 'verniz social' vai fazendo a gente ficar algumas camadas mais dura, mais intransponível, mais à prova de tudo. Inclusive do amor em seu estado mais puro.
Eu já amei...e quem já amou sabe. Para amar daquela forma transcendental que amamos quando jovens é preciso uma ingenuidade, uma credulidade que vamos perdendo com o passar do tempo. E vem a capacidade de análise, o senso crítico, a exigência, a experiência, a segurança, e mais uma batelada de coisas bem avessas a um ideal do 'tudo cor-de-rosa'. É bonitinho amar, mas é bem bobo também...
Não, não acredito que vá se repetir. Uma pena. A idéia do amor até que é fascinante.  
Talvez eu tenha mesmo estado durante muito tempo apaixonada pela idéia, não pela realidade. É que a aceitação de viver sem o sublime sentimento dos poetas me era aterradora. Precisa maturidade pra aceitar que já não dá mais, que passou, que se está num outro patamar.  Verdade seja dita, ninguém quer crescer. Ninguém quer enxergar o óbvio. Ninguém quer dar adeus às melhores fases da vida.
Talvez eu esteja errada e um dia possa sentir algo semelhante. Quem sabe muito melhor, sem tantos percalços e instabilidades. Hummm...sei não; acreditar no "até que a morte nos separe" não é mais a minha cara. Foi um dia, e foi bem legal já que eu era ingênua pra crer piamente. Valeu, foi bom de viver. Hoje acredito mais no "até que a vida nos separe, ou nossas manias, ou alguém, ou diferentes objetivos..." Creio que aposto ainda mais no "até nunca mais, ou até o meu retorno, ou até um dia desses; ou ainda num até que a gente se esbarre por aí, ou até nosso próximo dia agendado..."
Parece tão mais de acordo conosco hoje, não é amiga?!!!
Por ora seguimos conversando sobre o amor como era...nos Tempos do Cólera, nos tempos de Ases Indomáveis na matiné, no tempo de passar o Bubaloo de uma boca à outra, no tempo em que não tínhamos a real dimensão da coisa... ou seja, que quanto mais se sabe, quanto mais se vive, quanto mais tudo...mais envernizadas ficamos.

ADEUS PANQUECA

'Bandarlogs' no convívio social
Não há mais onde comer Crepe Suzette na minha cidade.
O  verdadeiro Crepe Suzette quero dizer; aquela panqueca francesa, sofisticada, deliciosa, leve...
Então lembrei de uma noite no início deste ano em que eu e outra pessoa resolvemos jantar no gostoso ambiente da creperia que havia por aqui.
Ao chegarmos havia outras 3 mesas ocupadas.
Sentei, pedi meu crepe de trigo sarraceno recheado de frango e coberto com molho de mostarda. Sou uma mulher de hábitos.
... E então me dei conta de que seria impossível curtir o jantar agradavelmente.
Dois cidadãos, cada um em sua mesa e cada um com sua respectiva esposa, conversavam aos brados entre si. O assunto era política. Cada qual parecia mais entendido e cada qual gritava mais e se empolgava mais...
...esquerda, centro, direita...uma ex frequentadora do pau-de-arara chegando à presidência...o poder que muda de mãos...as ironias...Jangos, Jânios e Getúlios...
As esposas; cabisbaixas, troca de olhares e meio-sorrisos tortos. As vezes alguma concordância murmurada.
Nós, eu a minha amiga, mudas sem conseguir conversar. Sufocadas pela deselegância de dois elegantes membros da comunidade. A demagogia invasiva não acabava nunca. Os pareceres surgiam daqui e de lá num bate-bola empolgado e rápido.
Comemos nossos crepes e fomos embora com as vozes ecoando nos ouvidos.
Bem, soube agora que a creperia fechou; deixou de existir.
Talvez porque o dono - francês autêntico que deve ter estudado no primário sobre revolução - não tenha tido saco para aguentar as conclusões políticas de seus clientes.
Talvez porque a maioria dos clientes que queria apenas comer um bom crepe, tomar um bom vinho e relaxar não tenha tido saco para aguentar outros frequentadores.
Conclusão: o inverno aí está. E não temos mais a simpática creperia e suas iguarias originalíssimas.
Mais uma vez digo aqui...três vivas e uma salva de fuzil aos 'Bandarlogs'...
Agora falando em fuzil eu tive uma idéia...rsrsrsrs...meu avô tinha um lindo fuzil com direito a baioneta e tudo. Onde será que anda? Não, eu não estava pensando na 'Legião Estrangeira' para ir atrás de Crepes...rsrsrsrsrs... Sou moderninha, só estava pensando que carregá-lo por aí talvez fosse indicado ao 'convívio social' no final das contas.
 Já que não dispomos de Crepe, poderíamos experimentar 'cérebro de Bandarlog', uma iguaria finíssima para alguns povos. Fácil de encontrar em todo lugar...

HOMENS E MULHERES

O bom da vida é que ela é imoral, ilegal e meio promíscua...
Eu a tenho visto como tendo surgido da imaginação de um Nelson Rodrigues, sei lá...
Vejo um cara que quer dar um tempo sozinho, vejo alguns caras que descobriram as ninfetas, vejo um cara que ama a que ficou pra trás, vejo o cara que quer a mulher de alguém, vejo caras que simplesmente não querem aquela mulher, ou o que querem dinheiro e poder, e até os que gostam de contar. Vejo os cafajestes, os covardes, os dignos, os que amam e os que não tem idéia do que é amar. Estão todos certos e todos loucos em diferentes medidas.
E então eu olho em torno de mim e vejo as mulheres. Vejo mulheres que querem dinheiro, as que amam o ex ou o morto, vejo mulheres que pensam demais no trabalho, as que não são afim daquele cara, as que são afim de um determinado cara, ou as que gostam do que é fugaz. Vejo mulheres que passam a vida amando um alguém, vejo as que nunca souberam o que é um amor, vejo as calhordas e as que precisam se afirmar. E estão todas certas e todas loucas em diferentes medidas.
Então repito, felizmente a vida pode ser ilegal, imoral e promíscua...só que nunca indolor e também nunca proibitiva ou definitiva. Caras ou garotas, eu digo a vocês que tanto faz. A gente muda de categoria o quanto quiser...ao sabor dos ventos e das marés.

domingo

O SEIXO E O RIO

Quando alguém joga o seixo no rio, suas formas mudam para sempre.
Você é pedra e eu sou rio. Então depois de você, meu curso é inusitado, não vou mais deslizar serena...porque eu me expandi para receber você.
Mais que rio de marolas e barulho suaves, eu agora tenho urgência de rolar nós dois em direção ao mar...misturar o que há em nós com o sal e o sol. Também não há barreiras que me impeçam de abrir caminhos em sua direção...natureza irrefreável me tornei.
Vou te massagear, com o passar dos séculos te suavizar.
Você a pedra, que se perdeu em mim.
Eu o rio, que se modificou ao pressentir você...assim nós dois, um no outro e com pressa de chegar.