
Esta semana fui procurada por um italiano através de um site de relacionamentos da internet.
Ninguém gosta de admitir, mas orkut, facebook, quepasa, e outros mais são a versão atual do "topei com um cara lindo na lanchonete".
Bem o Jan diz ter adorado meu perfil. É um homem mais maduro que eu, muito bonito, inteligente, com um doutorado, e que quer uma mulher especial. Um velejador de longas distâncias que me convidou para encontrá-lo em uma determinada marina famosa do Uruguai. Buscando o tradutor do google, entendi que ele tinha se "encantado" pelo meu perfil. Então quer dizer que a tal mulher sou eu ?
Vamos lá ser realistas... Pelos recados, emails. Parece que sou a eleita.
Talvez não por acaso eu esteja terminando de ler um livro belíssimo chamado Mil Dias Em Veneza que narra a aventura de uma americana de Saint Louis que se deixa levar por uma paixão por um Veneziano. No relato inspirado e crítico de sua nova realidade como habitante do Lido ela é brilhante em interpretar alguns acentos fortes do 'ser' italiano.A relação com o tempo é um deles.
Narra ela: (...) os italianos aprenderam mais sobre paciência do que qualquer outro povo. Eles sabem, que no final das contas, alguns meses ou alguns anos a mais, de um jeito ou de outro, não vão causar grandes prejuízos ao seu bem-estar, nem aumentá-lo. O italiano compreende as manhas do tempo(...)aqui a inventividade ancestral é suficiente(...)e com exceção dos esportes a maior simpatia é reservada aos derrotados(...)
Fiquei pensando em meu pretendente. Tranquilo e solitário em seu pequeno e confortável apartamento em Monza.
Um belo homem, com um belo barco para singrar os mares aos quais seus ancestrais não se dedicaram muito a desbravar. Desbravaria ele o Atlântico em busca de um amor no Brasil ?
Fico pensando com ecos de amante da arte, no quanto me atrai a Itália.
Então deixo de pensar em Byron entrando na laguna de Veneza em seu garanhão para banhos na madrugada e passo a escutar os sons da fórmula 1 em Monza. Um apartamento mini funcional. A diferença da lingua, a desconfortável situação de não conhecer todos com quem se cruza na rua, o abandono à minha família, meus cães, meus livros...Tudo em busca do amor do estranho que se encantou por uma mulher virtual.
Quais seriam as discrepâncias que afastariam uma mulher brasileira de um arrefecido italiano. Quanto tempo levaria para nossos 'tempos' se chocarem ?...
Acho que gostar da Renascença é uma coisa. Vivê-la é outra.
Não, Jan. Acho que não vou navegar com você.
Admiro a corajosa americana que abandonou carreira, filhos, amigos. Admiro seu estranho veneziano que teve sua vida revirada.
Não vou abandonar mais nada por ninguém. Principalmente a mim mesma.
E apesar da promessa de um glamour inusitado depois de momentos pálidos...
Eu ainda não aprendi a virtude de trabalhar o tempo e a paciência a meu favor.
O barco está na marina e o meu estranho espera uma visita.
Mas eu tenho meu próprio tempo...e é tempo de liberdade.
Citação de Mil Dias Em veneza, Marlena de Blasi - Sextante