quinta-feira

Simples assim


No dia em que a vida for simples...
...eu não vou olhar para trás na rua,
...não vou ter noites insones,
...não vou ter que mostrar estrutura.
No dia em que a vida for simples...
...eu vou gostar da voz do vento,
...vou caminhar pela areia,
...vou ver beleza nos prédios cinzentos.
No dia em que a vida for simples...
...o tempo vai se alongar,
...minha paz vai se estabelecer,
...os problemas vou saber abreviar.
Tudo isto, no dia em que a vida for simples
Mas o simples é só um viver intenso.
O simples é saber que o todo está guardado
No menor e mais fugaz momento.


ao amigo Náufrago em virtude da simplicidade

quarta-feira

Cegos do Castelo


...se você puder me olhar...
...se você quiser me achar...
Cantam os Titãs no Cego do Castelo
Porque entre as paredes do castelo somos sempre cegos
Queremos cuidar do jantar, do céu e do mar...
Cantam eles, que não querem mais mentir
Mas mentimos porque somos os cegos do castelo
E nunca encontramos caminho nem lugar para o que somos;
e na verdade, quem queremos não nos olha
E não podemos cuidar bem do jardim
Já que somos apenas os cegos,
presos nas muralhas por trás de quem o sol se põe
Por onde escorrem os dias
Continuamos lá,
cegos no castelo
E as vezes a gente quer dormir sim de olhos bem abertos
porque quando se anuncia que o destino vai fazer algo com o que restou
queremos ser apenas os cegos do castelo
Pedindo para cuidar de alguém
Implorando para ter e ser o lar de alguém
Rastejando por um olhar, por um achar...
Por um você e um por mim
Os cegos...
baseado em Cegos do Castelo, Nando Reis




terça-feira

Odeio o vento

Eu odeio o vento
Essa coisa fluída e ululante
Esse gemido insistente e discrepante
Eu odeio o vento
As folhas mortas que ele trás
A necessidade de pisar com força
O chicote nos cabelos que na boca encostam
Eu odeio o vento
Quando as noites viram um lamento
O sacudir das janelas um desalento
Eu odeio o vento
Que faz tudo ficar agitado
Que sacode o mar que tinha acalmado
Eu odeio esse vento
Me sinto solitária
Me sinto encarcerada
Ah, como odeio o vento...

sábado

Insensata


Insensatez é jogar o verbo ao vento, pensar com cuidado em quem já não nos sente, se proteger das tempestades por medo de desaguar em caminhos sem volta.
Insensatez é acreditar que algo é pra sempre, que decisões não são riscos não calculados, é se deixar levar por olhares desavisados.
É insensatez querer viver tudo e muito...insensatos nós que insistimos.
Insensata eu e também você, que sem qualquer pudor investimos no tudo e no nada.
Insensatos os que querem o melhor, os que se preparam para o pior, os que julgam o meio termo pouco.
Insensatez ter medo, ter raiva, ter expectativas. Nunca estar pronto para as balas perdidas, as falhas de amor, as manhas de um outro alguém e no final para as partidas.
Insensata eu que quero tudo novo; de novo...toda a loucura, o tremor, a doçura.
Insensato você que não se entrega,
Já que o insensato delírio é a melhor parte deste tipo de refrega.
E a insensatez de não ter medidas é a melhor parte de viver...a única forma de existir.
Porque hoje sei, que mais insensata é a seriedade.
É não sentir gosto de nada, e viver pela metade.


quinta-feira

A mulher que conheci

Conheci um dia uma mulher forte
Feita de tijolos de um barro antigo
Sonhadora de fantasias ímpares
Conheci um dia uma mulher definitva
Sem medo de enfrentar a vida
Criadora de sua própria história
Conheci um dia uma mulher que foi embora
Deixou pra trás a sensação de paz
Abriu as portas
Rasgou os dias
Conheci uma mulher
Onde ela esta?

terça-feira

O Controle

Digo a você. Faça um favor a si mesmo, perca o controle as vezes.
Perder o controle é ótimo. Sair do eixo, da linha, da estrada, da rotina, do ar.
Perder o controle é saudável e necessário.
É pegar uma carona no inevitável ou no imprevisível.
Dá pra pegar as rédeas de um cavalo que passa correndo. Dá pra pegar um trem sem paradas.
Surtar, dizer, cair, brigar, comer, fugir, chorar...
Somente perca este maldito controle. Este hipócrita, moralista e horrendo controle sobre sua vida e seus atos.
Só não perca o controle sempre ou quando for jogo pesado.
E não cometa a imprudência de sequer sonhar que alguma vez você deteve algum controle sobre algo. Sobre o que quer que seja...sobre a vida, o tempo, as pessoas, a natureza.
Então digo a você. Perca, jogue fora este conceito abstrato. O controle...

A Cinderela


Vamos lá mulher moderna veja se você se enquadra.
As pesquisas revelam; os homens ainda sonham com a Cinderela. Eles não se sentem à vontade com as mulheres fortes, as independentes demais, as seguras de seu lugar ao sol. Não, o bom e velho macho primata quer cavar o lugar ao sol para sua boneca-Cinderela.
Eles gostam de cabelos bem longos, jeito meigo de guriazinha. Gostam da ingenuidade, da pureza, da vozinha suave, das mãos frágeis...Não importa o quanto isso seja representação.
Nós, que lutamos tanto para adquirir nosso espaço agora estamos condenadas.
Eles preferem as ninfetas. Burrinhas, rasinhas, risonhas...
Neste rol podem elas se dividir em: despudoradas com carinha de menina; estas pra se divertir. Ou purinhas com cara de menina; estas para casar.
Informe aos marujos: As estratégias de caça das mulheres são ancestrais garotões. Vocês estão sendo enganados. Estão comprando gato por lebre. As suas doces Cinderelas são filhas e netas de megeras indomadas e logo que tiverem vocês no laço, vão mostrar a que vieram.
Logo o beicinho não vai ser tão sexy. A burrice engraçadinha vai soar mal. A ingenuidade vai soar falsa. Os cabelos, vocês vão ver que são mega hair mal tonalizado. A dependência vai se tornar uma chatice.
As garotas-Cinderela são persuasivas em sua atuação, são as aranhas armadeiras, são blefadoras de pôquer internacional, jogadoras velozes.
A realidade é que os homens não estão acompanhando a mutação feminina. Se perderam em algum lugar no século XVIII.
E o placar fica assim: Cinderelas 10 - Homens 0
A colocação das mulheres modernas neste placar? Não sei, diga você...


sexta-feira

Meu amanhã

Amanhã vai ser outro dia.
Não sei por onde vou andar, nem mesmo o que vou querer fazer.
Se vou estar de saco cheio de estar aqui, não sei.
Provavelmente vou continuar pensando o que já pensei, talvez algo mais.
Amanhã quando o silêncio chegar ainda podemos estar eu aqui, você aí.
Cada um de um lado do invísivel.
Eu pensando no indizível, você pensando em se esquivar.
Ah, mas amanhã vai ser outro dia.
E eu posso resolver te sacanear.
Sem bilhete, sem recado.
Deixar tudo por aqui desligado e me mandar.
Eu posso ter tomado um bellini no Hary's.
Posso ter visto Vicky Barcelona antes de você.
Posso saber mais do que parece ser.
E daí, que importância tem se eu souber?
Você não pode ler em tintas que não reconhece.
E eu posso estar aqui, mas meu mundo se amplia.
E você está aí, mais distante da realidade a cada dia.
O que eu vou fazer amanhã?
Não sei. Posso voar pro Bahrein.
Ou resolver ouvir um blues sentada na areia.
Sei lá...
Mas me conte aí...onde mesmo você vai estar?...

segunda-feira

Caso ao acaso


O tempo é para a mulher um senhorio cruel. E é também, o mais terno dos amantes.
Ele abranda, lapida, faz crescer.Mas o tempo não é um caso ao acaso. É o companheiro definitivo, não aceita negativas e fugas.
Ele, sôfrego que é, não nos permite deleitar com a beleza, o frescor e a ingenuidade. Sempre quer correr...e corre.
Este senhorio sempre quer receitas. Cobra, instiga, acusa...
O tempo se impõe e se sobrepõe às mulheres.
Mas de boas uvas que somos feitas - raposinhas experientes - usamos nosso amante e algóz a nosso favor.Já que com ele, também temos mais cores, mais sabores e mais amores...e até perdão para uma certa acidez.
Sim, que senhor e amante me é o tempo...
E eu lânguida e seduzida me deixo envolver;
feliz cortesã que conhece o preço e a medida, dessa luxúria fugaz que é viver.

sábado

Éden

Há milênios, uma raça de seres diferente andava sobre a terra.
Aqui era o Éden.
Aqueles seres tinham pensamentos puros, faces doces, vozes líricas e corações imaculados.
No entanto o Éden estava fadado a desaparecer e a terra se mostrou sem véu, em sua imensidão, sua aspereza e seus rigores. E os seres perderam seu encanto pueril.
Tornaram-se humanos. Tudo se modificou.
O tempo se acelerou e a vida se derramou tal qual é hoje. Cheia de paixões, crimes e tropeços.
Ao homem restou adaptar-se e ser mais forte que a natureza. E do que a sua própria natureza.
Porque o homem já não era bom. E já não era puro. E já não era santo.
E hoje não confessamos nem a nós mesmos nossos sentimentos. Escondemos nossas verdades e nossas mentiras. Sem nem mesmo nos darmos conta de que aqui é o Éden.
Mas espere; já não lembramos...já não sabemos...
Colhemos sonhos sem saber que são momentos refletidos. Lembranças vagas de uma memória perdida.

Você já parou para ouvir hoje?

Você já parou para ouvir hoje?
Já parou para ouvir o mundo?
O sussurro rouco da terra girando para sempre voltar ao ponto de partida?...
Os filhotes de pardais nos ninhos, o farfalhar dos plátanos, o embalar das ondas?...
É o que ouço aqui e agora.
Ouço alguém cantando agudamente sobre as frias chuvas de novembro.
Se não está só neste momento, repouse a cabeça sobre o peito de quem você ama e escute o ribombar daquele coração.E por favor escute bem, o que no silêncio do eco de suas batidas ele possa estar dizendo.
Se estiver sozinho apenas aprimore seus sentidos e capte todos os sons do mundo.
Se você parou para ouvir, sabe o que é estar vivo. Sentir-se sublimemente vivo.
Pare um pouco e ouça.

quinta-feira

Insônia


Não, não é insônia.

É falta de vontade de dormir.
É vontade de ficar percorrendo mundos imaginários, labirintos de lembranças, fragmentos de idéias.
Como nos custa organizar todos os pedacinhos de uma vida. Quando há uma vida antiga e caminhamos para uma vida nova, não podemos simplesmente seguir ao largo. Não se pode expurgar o que se foi, o que se fez, o que se quis e o que se teve.
Para os rompimentos há que ter sutura.
Para as feridas há que ter cura.
Para a morte há que haver luto.
Para o silêncio, o entendimento.
Para as palavras ditas, o sincero lamento.
Para o calar, certo distanciamento.
Assim que tem que ser. Uma nova vida não pode ter sincronia se não acertarmos as contas com o que deixamos para trás.
É uma questão de maturidade e coragem.
Em alguns momentos não se pode pedir companhia, não se pode fugir de onde se está, não se pode adiantar o relógio.
Porque são passagens obrigatórias. E não existe começo sem antes ter havido um fim.
...não, não é insônia. É vontade de retroceder ao quando e ao porquê.
E assim se desvendam novas formas em mim. Eu me leio e releio. E já posso dizer que algo ganha forma.
Uma nova mulher em uma nova realidade.
É mágico e emocionante.
Mas é para quem não tem medo de fantasmas.
Para deixar a vida entrar estou quebrando todas as vidraças...inspiro forte, sorrio e não me arrependo...nem há tempo para dormir.

terça-feira

Eva e o Conhecimento

Eva e o Conhecimento
No paraíso havia a maçã. O fruto proibido. O fruto do conhecimento.Quem encontrou a maçã foi Eva. Adão não buscou a sabedoria. Eva buscou, abriu a visão do todo e foi condenada. Sim porque Adão é vítima de sua mulher e de uma cobra. Michelangelo representa a cena sendo o mal meio cobra meio mulher, ofertando o fruto.As mulheres tem um conhecimento único, dado somente a elas. Um instinto, um sentido, o poder de antecipar, o foco. E não são reconhecidas ou admiradas por isto.Mulheres são as que avisam e anteveem. São as cobradoras do não acontecido, são incômodas.Eva tem um papel díficil a exercer ao longo destes milênios incultos e cegos de humanidade. Detentora de enorme poder, se martiriza e sofre. É a portadora do conhecimento incômodo acumulado por gerações de Evas. Como a elefoa matriarca da manada sempre sabe onde há água por instinto passado de uma geração à outra. Assim é Eva: a que sabe demais. Eva, a culpada de retirar o ser humano da ignorância bem vinda do paraíso raso.

O tempo para os italianos


Esta semana fui procurada por um italiano através de um site de relacionamentos da internet.
Ninguém gosta de admitir, mas orkut, facebook, quepasa, e outros mais são a versão atual do "topei com um cara lindo na lanchonete".
Bem o Jan diz ter adorado meu perfil. É um homem mais maduro que eu, muito bonito, inteligente, com um doutorado, e que quer uma mulher especial. Um velejador de longas distâncias que me convidou para encontrá-lo em uma determinada marina famosa do Uruguai. Buscando o tradutor do google, entendi que ele tinha se "encantado" pelo meu perfil. Então quer dizer que a tal mulher sou eu ?
Vamos lá ser realistas... Pelos recados, emails. Parece que sou a eleita.

Talvez não por acaso eu esteja terminando de ler um livro belíssimo chamado Mil Dias Em Veneza que narra a aventura de uma americana de Saint Louis que se deixa levar por uma paixão por um Veneziano. No relato inspirado e crítico de sua nova realidade como habitante do Lido ela é brilhante em interpretar alguns acentos fortes do 'ser' italiano.A relação com o tempo é um deles.
Narra ela: (...) os italianos aprenderam mais sobre paciência do que qualquer outro povo. Eles sabem, que no final das contas, alguns meses ou alguns anos a mais, de um jeito ou de outro, não vão causar grandes prejuízos ao seu bem-estar, nem aumentá-lo. O italiano compreende as manhas do tempo(...)aqui a inventividade ancestral é suficiente(...)e com exceção dos esportes a maior simpatia é reservada aos derrotados(...)
Fiquei pensando em meu pretendente. Tranquilo e solitário em seu pequeno e confortável apartamento em Monza.
Um belo homem, com um belo barco para singrar os mares aos quais seus ancestrais não se dedicaram muito a desbravar. Desbravaria ele o Atlântico em busca de um amor no Brasil ?
Fico pensando com ecos de amante da arte, no quanto me atrai a Itália.
Então deixo de pensar em Byron entrando na laguna de Veneza em seu garanhão para banhos na madrugada e passo a escutar os sons da fórmula 1 em Monza. Um apartamento mini funcional. A diferença da lingua, a desconfortável situação de não conhecer todos com quem se cruza na rua, o abandono à minha família, meus cães, meus livros...Tudo em busca do amor do estranho que se encantou por uma mulher virtual.

Quais seriam as discrepâncias que afastariam uma mulher brasileira de um arrefecido italiano. Quanto tempo levaria para nossos 'tempos' se chocarem ?...
Acho que gostar da Renascença é uma coisa. Vivê-la é outra.
Não, Jan. Acho que não vou navegar com você.
Admiro a corajosa americana que abandonou carreira, filhos, amigos. Admiro seu estranho veneziano que teve sua vida revirada.
Não vou abandonar mais nada por ninguém. Principalmente a mim mesma.
E apesar da promessa de um glamour inusitado depois de momentos pálidos...
Eu ainda não aprendi a virtude de trabalhar o tempo e a paciência a meu favor.
O barco está na marina e o meu estranho espera uma visita.
Mas eu tenho meu próprio tempo...e é tempo de liberdade.
Citação de Mil Dias Em veneza, Marlena de Blasi - Sextante


Política de Privacidade

Política de privacidade
Política de privacidadeA partir do dia 08 de março de 2009 o Google estará disponibilizando aos usuários de blogs um tipo de política de privacidade com base em interesse. Ou seja, você que tem acesso ao blog vai encontrar anunciantes diretamente relacionados aos interesses demonstrados por suas pesquisas em rede. Isto em nada modifica a sua segurança. Este blog pode utilizar cookies e/ou web beacons quando um usuário tem acesso às páginas. Os cookies que podem ser utilizados associam-se (se for o caso) unicamente com o navegador de um determinado computador.Os cookies que são utilizados neste blog podem ser instalados pelo mesmo, os quais são originados dos distintos servidores operados por este, ou a partir dos servidores de terceiros que prestam serviços e instalam cookies e/ou web beacons (por exemplo, os cookies que são empregados para prover serviços de publicidade ou certos conteúdos através dos quais o usuário visualiza a publicidade ou conteúdos em tempo pré determinados). O usuário poderá pesquisar o disco rígido de seu computador conforme instruções do próprio navegador. O Google, como fornecedor de terceiros, utiliza cookies para exibir anúncios neste site.Com o cookie DART, o Google pode exibir anúncios para seus usuários com base nas visitas feitas a este site.Você pode desativar o cookie DART visitando a política de privacidade da rede de conteúdo dos anúncios do Google.Usuário tem a possibilidade de configurar seu navegador para ser avisado, na tela do computador, sobre a recepção dos cookies e para impedir a sua instalação no disco rígido. As informações pertinentes a esta configuração estão disponíveis em instruções e manuais do próprio navegador".Este blog tem como única finalidade criar meios para acréscimo de conhecimento a seus usuários e troca de experiências literárias. Nenhum dado fornecido por qualquer participante será utilizado publicamente sem autorização.Este blog afirma que não utiliza e-mails para políticas de Spam ou de envio de e-mails indesejados.Este blog, prima pela seriedade, mas não se responsabiliza pelo conteúdo, promessas e veracidade de informações dos banners colocados pelos seus patrocinadores. Toda a responsabilidade é dos anunciantes.

Os Olhos do Passado


Eu hoje olhei nos olhos do passado.

E é verdade que algumas coisas apenas os olhos podem dizer.No entanto, algumas vezes tudo o que se poder ver é ausência. Ausência de felicidade, de profundidade, de verdade. Ausência de sentimentos, de pureza. Ausência de paz.
Foi com o que me deparei. O vazio.
Que pena digo eu...que pena.
Tenho vontade de chorar pelo vazio daqueles olhos do passado.

Se em um passe de mágica eu pudesse colocar uma centelha de vida naquele olhar, eu o teria feito.
Depois eu sorriria e seguiria meu caminho me sentindo mais feliz.
Apenas não levaria comigo nada daquele olhar.
Afinal os olhos que vi hoje eram parte do passado. E o meu olhar, mesmo que carregue sangrias e sonhos demais...está voltado para o futuro.

A Menina

Há uma hora, dizem alguns, em que não se consegue manter inverdades. Parece que é na profundidade da madrugada, apesar das sombras.
Acordei às 3 horas. Sonhava novamente com a menina, e quando sonho com ela não volto a dormir. Algo me inunda e me oprime.
Ela algumas vezes é clara e rosada como uma daminha rafaelita. Em outras está difusa. Mas desta vez quase pude tocar seus cachos que escorrem pelas costas e seu rostinho sorridente.
Como será ter algo de si correndo ao seu encontro ?...o sonho não é medida justa para a realidade. Então pergunto como será ? Uma herança sua - a melhor herança - pele, voz, jeito de olhar...
Se você já sabe, é porque subiu um degrau na cadeia evolutiva. Você é um replicante, um fenômeno da natureza, um ser triunfante.
Seu degrauzinho tem asperezas ? Ah, por favor. Veja a beleza do conjunto da sua obra, pois isto é o que vale.
Eu digo à minha menina que ainda não vou encontrá-la. Ela diz que me esperará.
E eu sei que um dia eu vou estar dentro do sonho. Correndo e rindo na grama baixa e orvalhada da minha madrugada.
Eu e ela temos um encontro marcado. Numa fração de infinito vou estar lá.
Esta noite quero me esconder dos sonhos. Vou manter muitas luzes e velas para simular uma manhã de sol...

domingo

Lealdade

Será a lealdade algo fora de moda ?
Um entendido da mente humana disse-me que sim. Que não se pode esperar lealdade. Que é - perdoem a redundância - desleal esperar lealdade.
Agora pergunto a você: você espera lealdade dos que o cercam ?
Um discípulo que negou Jesus por três vezes antes de o galo cantar foi considerado desleal para toda a eternidade. Suas boas ações não encobriram a mácula.
Será desleal esperar amor dos que se ama, apoio dos que se apoiou, amizade de para quem se foi um bom amigo ?... Será desleal esperar um sentimento qualquer, uma palavra sequer, uma ternura, um respeito, um dar valor ?
Será desleal mesmo na simplicidade de não querer uma troca, ter expectativas quanto ao significado que você tem para seu semelhante mais próximo ?
Será tão absurdo, ininteligível e psicótico magoar-se quando negado e injustiçado ?
Não é o caso de dar para receber.
É o caso de dar, doar, amar, ceder, conceder...apenas por amor.
É o direito, o supremo e inalienável direito a uma resposta favorável sobre você.
Diga que você não espera nada de ninguém. Eu digo que você mente.
Então não sejamos hipócritas. Lealdade continua sendo algo importante.
Ninguém precisa jurar sobre a bíblia.
Lealdade está nos mínimos gestos, afetos e respostas.
Ainda que chegue o dia em que os galos não anunciem mais o alvorecer que se aproxima.
Algumas coisas simplesmente não podem mudar caso se queira ainda falar em humanidade.

Você corre com os lobos ?


O mito da mulher que corre com os lobos é muito antigo.
A mulher que corre com os lobos é a mulher que se desnudou, despiu-se da civilidade, abandonou as correntes e começou a dar vez a seu ser primitivo. Aquela criatura que está guardada nas entranhas de todo o ser do sexo feminino.
Ela é um ser selvagem e antigo.
Ela tem faro para as coisas. Seus sentidos são aguçados. Ela enxerga mesmo através da névoa, da noite ou dos enganos. Ela pode proporcionar alimento para a alma dos que a cercam. Ela conhece os caminhos trilhados por suas ancestrais. Sabe onde se abastecer de força e energia.
A mulher que corre com os lobos tem medo, mas não foge do enfrentamento.
Cada mulher pode correr com os lobos. Mesmo sob o verniz social ela pode mantér sua essência e a conexão com seu eu mais profundo e íntimo. Ela consegue se ver como realmente é a também como tem sido para seus parceiros de corrida.
Mulheres que correm com os lobos não podem ser sufocadas, apagadas, deserdadas desta terra.
Elas são algo muito primitivo que deixou pegadas no DNA de cada uma de nós.
O que você tem feito consigo mesma ?
Será que você tem corrido com os lobos ?
Ou você se esconde da mulher selvagem que há em você ?
Não tente manter o controle.
Estreite os olhos, fareje o ar, dispa-se de tudo e corra...

Quantos Tipos de Solidão

A maioria das pessoas detesta estar só.
Sempre me considerei uma privilegiada por gostar da "companhia" da minha solidão. Quem não se sente mal estando só, tem certo poder perante o resto dos mortais.
Pois surpresa. Vi que nunca é tarde para perceber que a solidão voluntária é imensamente diferente da solidão imposta.
A solidão imposta tem conotação carcerária, é imensa, dolorida e lúgubre. Esta é a solidão que temos quando não nos sentimos pertencer a algo ou alguém. Precisamos sim nos sentir parte de algo, de um grupo, de uma família...da vida de outra pessoa.
Pode-se ser pai, mãe, filho, colega de trabalho e estar só. Esta a solidão da alma e da falta de entendimento e comunicação.
Já não é o caso da solidão expressa pela figura de um idoso solitário à janela de um abrigo para "maiores abandonados". Grupos de apoio, visitantes bem intencionados ?
Não, não adianta.
Esta é a solidão do abandono, da rejeição...de quem ficou para trás por qualquer motivo, em qualquer idade ou por um sem número de intercorrências da vida.
Nem todo o cachorro que cai da mudança consegue um novo lar.
Do lado de fora do coração alheio faz frio e é escuro.
Feliz quem não conhece as várias faces da solidão e se sente auto suficiente.