quinta-feira

COLHENDO SONHOS


Eu andei colhendo sonhos

Sonhos numa manhã de calor

Meus sonhos já foram enormes, agora sei que apenas ter sonhos já é bom...mais que bom

E acordar pra colher os sonhos numa manhã qualquer é o que há de melhor.



VENENO


Ontem uma dose de veneno entrou em mim...posso senti-lo na corrente sanguínea, deslizando acelerado em meio ao furor borbulhante que me bombardeia o peito. Sinto o gosto forte da substância, um Piretróide. Irritam-se minhas mucosas assim como se irritam as pessoas no trânsito de uma marginal qualquer na sexta-feira paulistana.

Estou completamente envenenada...mas engraçado. Aos poucos posso sentir minha alma ficando novamente limpa. Limpa e clara naquele movimento inverso ao invadir, ao borbulhar que me toma as vezes.
Não tomei uma dose de veneno. Foi um engano, um acidente incidental...um lapso. Podia ter sido intencional, por que não? Tanta gente bebe veneno, come veneno, suporta veneno, convive com veneno. Não, meu veneno era para desinfecção de banheiro de gado. Pegou mal em mim.
Prova de que sempre tive razão em não me sentir parte do gado que pacientemente dormita sem pensar. Eu dormito, mas existo...logo penso.
É bom pensar na hora de botar as mãos em algum veneno, enfiar a mão numa urna egípcia, tocar a flauta...não me dou bem com venenos. Sou resistente, mas me dá vontade de vomitar o mundo.

quarta-feira

TEMPO PERDIDO


Não me diga que não há tempo perdido e nem que somos ainda bem jovens...que temos tempo. Não diga nada, se nada tem a dizer. Porque eu sinto um gosto amargo na boca, um gosto de passado distante que não consigo definir. Não é amargo, nem tão pouco doce...é na verdade acre.

E tudo passa ao nosso lado correndo fazendo parecer que estamos parados e que temos todo o tempo do mundo.
Mentira. Nosso tempo está acabando. Eu quebrei aquele relógio com um martelo num dia chuvoso de inverno. Foi um marcador de tempo resistente, mas tinha apenas uma direção e eu não quero mais uma direção só. Nem quero parecer estar a 20 Km/h numa via expressa. Lá, encolhida no lado direito da pista enquanto passam 11 Big Brothers, passam os Mamonas Assassinas, passa a validade dos nossos diplomas e todas as gírias que eu conhecia.
É tanta perda de tempo e correr atrás do tempo com essa fome toda me parece que também faz perder algo...não tem saída.
Ao longo do caminho do tempo perdemos tudo; elasticidade, boa vontade, ingenuidade, e a mania de fazer alarde de tudo que era tão bom.
Não venha olhar pra mim e dizer que não há perda de tempo, que é subjetivo, idealizado, hipotético. Não estou no cenário de Matrix...estou a caminho do fim. E você meu bem...ah, você também!

quinta-feira

FIM DO DIA NO PARAÍSO

Começo de noite.

Ele vai chegar do trabalho como se não tivesse feito nada o dia todo. Ele fez, claro que fez. Na verdade ele usou os dedos pra digitar (nem todos), o ouvido no telefone e os olhos num vai e vem constante acompanhando a estagiária gostosa que ele ajudou a contratar. Ah e ele deu uma porrada de ordens. Mas ok, ele ralou pra valer e fechou uma venda que vai engordar a conta da empresa e a sua também. Agora ele quer comemorar e como é um cara bonzinho nem vai pensar em tomar todas com os amigos. Ele vai pra casa comemorar com ela.
Já ela teve um dia de cão. Não, cães tem dias tranquilos...ela teve um dia infernal. Na empresa o ar pifou, a chefe brigou com o marido e teve o carro destruído pelo filho drogado ( imagina como estava o humor da chefe), uma colega faltou ao trabalho porque estava com dor de dente. Pra concluir até às 18:00hs os 5700contratos que surgiram em cima da sua mesa pela manhã ela precisou de documentos que encontrou enterrados numa gaveta de um colega que se demitiu há 6 meses.
Ela ama o scarpin da Carmim que 'se' deu de Natal, mas aquele salto de metal sob uma base também de metal só prova que elegância não ganha guerra.
Claro que ela acaba chegando em casa com dor na lombar, dor de cabeça e uma massacrante raiva de não ter nacido sob a 'égide' dos Onassis. Toma um banho rápido, se enfia numa camiseta velha com um furinho na barriga (o furo não é por excesso de barriga entendam bem), enche um copo de Absolut e se joga no sofá ouvindo a Amy.
Às 21:00hs pontualmente ele chega. Ele, seu amor, seu marido, seu parceiro, sua alma gêmea, sua metade de alguma fruta...Seu herói venceu uma guerra e alardeia seus feitos enquanto tira o sapato no tapete, joga o casaco em uma cadeira e a pasta namesa de centro. Beijinho na cabeça, um golinho no copo dela...Diz que vai par um 'banhinho' e depois está afim de uma 'comemoraçãozinha'. Pede pra ela colocar aquela camisola que ele adora e um sapato beeem alto e sexy. Enquanto ele some, ela vira outra dose.
Quando ele sai do chuveiro perfumado mas sem ter feito a barba, encontra sua princesa encostada no batente da porta do quarto. Pernas lizinhas(a tal corrente russa é cara mas faz efeito depois dos 35) sensualmente cruzadas. A camisola branca tem 6 anos, mas ele sempre pede a mesma (lembranças de uma viagenzinha pra Noronha); o scarpin é um velho e confortável sobrevivente de uma liquidação de loja de departamentos.
Ele diz que ela está linda... e ele só de cuecas (aquela de algodão cinza que ele adora e chama de 'sunguinha'.)Ela tem o olhar meio vidrado...
Então começa o ritual e ela tem que dizer o quanto ele é forte, o quanto seu pênis é grande e assustador, que ele é um garanhão. Bom, ela só queria mesmo que ele usasse melhor as mãos e não pensasse que fazer todas as posições do kama sutra numa transa só é ser bom de cama.Alguns Ohs e Ahs depois eles dormem.
Ele ressona e sonha com a estagiária nova dançando um funk numa lingerie vermelha.
Ela sonha que está soterrada numa pilha de contratos e acorda sobressaltada...amanhã as crianças voltam das férias no sítio da vovó.

quarta-feira

SAPATOLÂNDIA

Do nada resolvi arrumar meus sapatos. Assim, sem ter nem porquê...Sentei no chão e começei a jogar todos pra fora das prateleiras. Novos, velhos, muito usados, sem uso, apertados, altos baixos...e então comecei a pensar em outros altos e baixos, nas idas e vindas. Não dos sapatos , mas da minha vida.
Coisa estranha fazer retrospectiva no meio de janeiro, sentada no chão do closet cercada de sapatos.
Num canto uma caixa de biquinis tamanho 'midi' esperando doação, meu cachorro dormindo esparramado e acalorado e um pequeno grilo pretinho muito simpático. Grilos em closets são um atentado, eles roem roupas mas e daí. Grilos pra mim são parte consciência humana gritando por aí pra avisar e não sendo ouvidos nunca.
Toda a mulher tem mais sapatos do que pode usar. Sapato não é pra usar, é pra olhar, admirar, sentir seu poder e as vezes, só as vezes levá-los aos olhos alheios.
Olho meu sapato vermelho, lindo...diz muito sobre mim. E aquele de saltos altos, bem fininhos com estampa da Hello Kitty. Tenho alguns que são verdadeiros objetos de desejo...
Olhei os sapatos e o grilo. Já não sei quem sussurrava mais coisas pra mim. Tanta história naqueles sapatos, tantos segredos de mim aquele grilo deve saber...sapatos que trilharam rumos ímpares nos últimos tempos; grilo que conhece os rumos dos meus pensamentos.
Tem coisas que é melhor não revirar. Desisti dos sapatos.
O grilo fica lá, morando e se alimentando das minhas roupas. Lá trancado, uma consciência cricrilante.
Escolho um chinelinho confortável e sem significados e vou andar na praia.

quinta-feira

TO AFIM

Hoje eu to afim
...de escutar Ana Carolina sem parar,
...comer um pote grande de Nutella em colheradas lentas,
...ligar pra quem não devo,
...me sentir terrivelmente infeliz.
Hoje eu to afim
...de mentir bastante pra mim,
...tomar um banho de espuma à luz de velas
...beber até cair.
Hoje eu to afim
...de ficar contando histórias pra mim,
...roer as unhas até o fim,
...sair por aí sem rumo.
Hoje eu to afim
...de gritar pra todo mundo cair fora,
...aprender a enrolar um baseado,
...inventar desculpas pra tudo,
Hoje eu to afim
...de cair no silêncio e na escuridão sem fim,
...sem lembrança do que resta em mim,
...sem fazer esforço nem pra respirar.