
Uma pessoa aconselhou-me um filme. Avisou que é um filme muito bom, mas bastante dramático e com um forte suspense. Um filme onde as relações humanas são expostas da forma mais cruel.
Comentando antecipadamente sobre a história cheguei à conclusão que algo semelhante me havia acontecido. Falando tranquila e abertamente relatei que eu havia passado por um filme real que combinava drama e terror de forma mais pungente. A amiga calou-se, ficou constrangida e disse preocupar-se muito comigo ultimamente.
Porquê?
Ok, a coisa é simples. Nós queremos ver terror, suspense e drama no cinema. "Dormindo com o Inimigo", "As bruxas de Salem" " Guardiões do hades"...todos os monstros, psicóticos, assassinos...lá no mundo do faz-de-conta.
Nós queremos ler todo tipo de desatino. " Fora de mim", "O amor é um cão dos diabos", "Eu mato"...também lá, no mundo do faz-de-conta.
Todas as piores possibilidades de externar a verdadeira cara do ser humano...nós adoramos.
Mas com um detalhe...não na nossa sala de visitas, não no chá da tarde, não ao nosso lado. A gente adora toda a promiscuidade, a maldade, a irresponsabilidade, a vingança, a fraqueza que se possa conceber...mas nunca, nunca se ela for "de verdade". Aí então fica-se constrangido, assustado, foge-se. Pensa-se que aquela pessoa não precisava nos perturbar com sua realidade dura. Que paradoxo absurdo é esse? me expliquem...ah tá, eu sei.
O certo é ...
Diga "Oh, mesmo vou assistir. Vou adorar." Mas se você foi perseguido por alguém com a cara do Jason, não conte. Se você esteve dormindo com o inimigo, disfarce. Se você teve um cancer devorador e está se recuperando, diga que sua cabeça raspadinha é uma nova moda.
Não assuste, não se torne indigesto, não fale, não demonstre, não exponha sua sensibilidade ou qualquer dor...Seja polido, não mostre a mancha na sua roupa velha, suas cicatrizes...nada de sangue real, nada de serras, bisturis, diálogos alucinantes, histórias de vida que parecem ficção...você está fora das telas então, "do not disturb please..."
Vá ao cinema com a amiga ver aquele filme que parece um plágio da sua vida, chore um oceano pela mocinha e no final vá comer um pizza como se não houvesse passado nem futuro. Na despedida sorria e marque outra rodada de tortura. Leia o livro que lhe enviaram, diga que nunca viu nada tão incrível mas que aquela perturbação toda nada tem a ver com sua realidade.
Prefira a superficialidade no convívio social por favor.
Para manter os amigos fique só no território das fábulas. A vida real é profundamente individual e ninguém quer saber da sua. A tal história do "como vai você" por pura educação é verdadeira. Seus amigos nãooooo querem saber a verade, não tem tempo nem saco pra ouvir, não estão com vontade de se sentirem perturbados por cenas da vida real.
Tudo bem. A maioria vence, a hipocrisia é uma delícia, a superficialidade uma tragédia oscarizada e a urgência em ser feliz uma comédia sobre o tempo.
A mim não indiquem mais historinhas fortes, obrigada. Isto se você não quiser ouvir alguma comparação com a vida real que, com certeza, vai lhe por pra correr.
Eu sou bem real...
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