quinta-feira

JUSTIÇA À MODA ANTIGA

Eu desconfio que estou fora de moda. Cursei Jornalismo e Direito em tempos em que o sonho dos jornalistas não era emagrecer na TV e em que o sonho dos candidatos à magistratura ia muito além de salário e poder. Eram tempos em que ser magistrado, promotor e até jornalista, era dispor de sua vida em favor de uma espécie de sacerdócio. A coisa toda nessas profissões girava em torno de frases batidas como: promover justiça, ser o fiscal da lei, proteger os direitos dos cidadãos; levar aos jornais verdades incômodas, mentiras mascaradas e realidades marcantes.  
Estive do lado de dentro do mundo televisivo assim como do mundo jurídico. Assessorei  juiz, num tempo em que equívocos aconteciam apenas por conhecimento insuficiente; e isto já era coisa  gravíssima. Claro foi numa era em que juízes ainda trabalhavam na madrugada...restam poucos.
Bom, quando surgiram os ‘novos magistrados novos’ no mercado, eu achei até interessante. Talvez uma brisa fresca no entrave da justiça... Ah, que engano imenso. Recentemente fui tomando ciência de que juiz despreparado, jovem demais e, em alguns casos com um caráter duvidoso, pode querer fazer pencas de melhores amigos em cada cidade que chega, expondo-se à expectativas interesseiras e envolvendo-se com obscuridades. Juiz de antigamente, quando se aproximava de ex-detento, era para orientar sua reintegração na sociedade, não pra ser amigo do peito. Aliás Excelências tinham cuidado com quem recebiam em suas casas. Tentavam não criar vínculos que os expusessem à desconfiança pública. E não eram mesmo mereceredores de desconfiança pública.
Isto foi num tempo em que ‘homens da lei’ não freqüentavam colunas de fofocas em imprensa marrom partidarista, não ficavam famosos por festas e orgias, não tinham garotas seminuas correndo por seus jardins, não apresentavam-se na praia em trajes sumários, não viviam em busca de fama e grana...e só.  Os caras pra alcançar um cargo de tamanha responsabilidade e compromisso, tinham que entender o significado de palavrinhas como: moral ilibada, imparcial, incorruptível, reservado, direito adquirido, justiça !!!
O juiz, o promotor, o delegado, procurador, desembargador...não são pessoas maiores nem melhores que ninguém. Mas eu, na minha ingenuidade antiga, acredito que são diferentes. Tem responsabilidades tão pesadas, compromissos tão caros, ideais tão elevados em torno de si que, devem sim, ser diferentes. Devem, obrigatoriamente, seguir o melhor caminho, tomar a decisão mais correta, ter o olhar mais neutro, a atitude menos arrogante.  Precisam de um caráter irretocável, de relações íntimas equilibradas, de uma experiência de vida que lhes de discernimento. Estas pessoas precisam oferecer aos cidadãos honestidade, esperança, confiabilidade, exemplos. Creio que argumentar haver nas esferas mais altas de poder tanta corrupção, não livra nem ao juiz, nem a você, nem a mim do ônus da correção.
Um amigo me lembrou estes dias que: O diabo não é diabo por ser velho, mas sim por ser cansado. Hoje, talvez muitos de nós se sintam assim...cansados. Não importa, não se trata de vocês ou de mim. Trata-se da tal coletividade que precisa estar azeitada pra funcionar. É chato ter juiz ‘descansando’ em casa com manutenção de ganhos proporcionais ao tempo de fracasso. Mas é impossível permitir que pessoas em qualquer cargo que demande responsabilidade, permaneçam perpetrando desmandos. E, pra mim que sou velha e cansada como o diabo, é triste que os antigos sacerdócios profissionais tenham cedido lugar a indústria dos concursos.
Eu, um dia, pensei em seguir a magistratura... mas me dei conta que não teria condições emocionais de atender à imensa demanda humana por justiça, sem prejudicar minha saúde e minha vida privada. Fui franca e decepcionei algumas pessoas ao dizer: “eu não posso, porque maior que o salário, mais alto que o cargo, é o compromisso com a verdade, que vai roubar meus dias e noites. E a busca incessante pela justa medida das coisas,  vai me roer até o tutano dos ossos”. Ser desistente tem um peso. Fazer escolhas, abdicar, decepcionar, abrir mão de sonhos. Talvez umas insignificâncias para quem alcança o olimpo... por motivos errados, escolhas equivocadas, ambição. 
 Bom o que eu penso não faz escola... sou uma interiorana ultrapassada e crédula que lembra bem do tempo em que fio de bigode de coronel, valia por uma fazenda e quando fio de bigode de juiz, valia por um império. E sou quase tão cansada quanto o diabo que anda por aí vendo sempre a mesma coisa há milênios.... Milênios de desmandos.
O que me dá esperança???? Ah, é que as vezes alguém cai lá de cima...aí sim a gente pode sentir o ar renovado e uma certa vontade de seguir acreditando.




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