quinta-feira

VENENO


Ontem uma dose de veneno entrou em mim...posso senti-lo na corrente sanguínea, deslizando acelerado em meio ao furor borbulhante que me bombardeia o peito. Sinto o gosto forte da substância, um Piretróide. Irritam-se minhas mucosas assim como se irritam as pessoas no trânsito de uma marginal qualquer na sexta-feira paulistana.

Estou completamente envenenada...mas engraçado. Aos poucos posso sentir minha alma ficando novamente limpa. Limpa e clara naquele movimento inverso ao invadir, ao borbulhar que me toma as vezes.
Não tomei uma dose de veneno. Foi um engano, um acidente incidental...um lapso. Podia ter sido intencional, por que não? Tanta gente bebe veneno, come veneno, suporta veneno, convive com veneno. Não, meu veneno era para desinfecção de banheiro de gado. Pegou mal em mim.
Prova de que sempre tive razão em não me sentir parte do gado que pacientemente dormita sem pensar. Eu dormito, mas existo...logo penso.
É bom pensar na hora de botar as mãos em algum veneno, enfiar a mão numa urna egípcia, tocar a flauta...não me dou bem com venenos. Sou resistente, mas me dá vontade de vomitar o mundo.

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