quinta-feira

A MORTE


O fim do ano está chegando e eu gostaria de compartilhar uma lição importante. Sempre soube de sua existência, mas não conseguia colocá-la em prática e 2010 me deu este novo dom. Não foi um presente inofensivo, foi duro recebê-lo, entendê-lo e finalmente, adotá-lo.
Trata-se do que está contido em uma frase simples: "Para ser felizes nós temos que abandonar os nossos mortos."
Esses mortos - sentido pra lá de figurativo - são tudo e todos os que perdemos, sofremos, não alcançamos, erramos, recebemos, entregamos; o que feneceu, se extinguiu, perdeu seu valor...temos que aceitar estas muitas mortes e simplesmente abandonar.
Eu não sabia quanta leveza há em andar sem carregar cadáveres. Já carreguei tantos que posso dizer que andei boa parte dos meus quase 40 anos curvada e extenuada.
Nossos mortos cheiram mal para quem está por perto, pesam muito, grudam em nossas vestes e nossa pele, nublam nossa visão, fazem lento nosso caminhar.
Da metade deste ano para cá eu, sem sentir, comecei a me despojar dos mortos. Não fiz questão de pranteá-los, enterrá-los com louvores, carregar souvenires deles...afinal estão mesmo mortos. Eu apenas fui largando-os pelo caminho e me erguendo. Respirando melhor, vendo com mais clareza, andando como deveria andar e por lugares que antes não andaria.
Foi um grande presente que a maturidade me deu. Sei que sou cheia de cicatrizes de batalhas, mas quem morreu em mim, quem me matou em si...eu soltei lentamente no chão em algum lugar lá atrás. Não ouço mais o roçar de algo que arrastava-se comigo, não tenho peso nos ombros, minha visão se ampliou incrivelmente. E, principalmente, tenho meu coração e minha mente somente para mim e para os vivos em torno de mim.
Nós somos uma cultura de preconceito em relação à morte. Mas a morte é o benefício final do existir, porque tudo precisa de um fim. Tudo na humanidade um dia tem que parar, murchar, romper a cadeia. Passando por nosso corpo físico até as escolhas que fizemos. E porquê tanto medo, tanto apego, tanta fuga? A morte é o prêmio final, traz leveza, libertação.
Então hoje procuro ser amiga da morte. Vou vivê-la muitas vezes e recebê-la com gratidão. Porque muitas coisas que virão para mim terão que morrer ainda e será bom que seja assim. E quanto aos cadáveres...devem ficar ali, onde a morte se deu. Cascas do que foram bons ou mau momentos, boas ou más pessoas, situações, opções, palavras, conceitos...tudo pelo chão ao longo da estrada. E nunca mais vou vê-los...porque leve e ereta eu ando sempre rumo ao novo, para frente...
Assim que tem que ser; eu sempre soube. Apenas agora entendi o intrincado mecanismo. Funciona, é honesto e é o fundamento que justifica a pompa de alguns funerais. Podem ser com choro, com velas, com festa regada a champagne, com brigas, com um adeus sem uma palavra de consolo ou gratidão...mas são funerais. Gostaria que todos aprendessem como sair deles de mãos limpas e alma leve. Eu estou feliz por ter aprendido antes do fim.

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