quarta-feira

SACRILÉGIO


Faz um tempo eu negociei com as forças do além sobre os desígnios do coração e os caminhos da alma.
Escolhi o equinócio de inverno, quando a terra se recolhe e nada frutifica. Naquela noite fiz a mandinga mais eclética. Vestida com nada além de mim, tracei no chão um pentagrama, circundei com velas e pétalas de rosas, aspergi meu melhor perfume no frio ar daquela noite. Cantei, dancei, louvei e proferi sortilégios. De um corvo arranquei uma pena, da salamandra cortei a cauda, de uma pombinha suguei um arrulhar tristonho. Na fogueira joguei ervas vindas do Ceilão e alguns ossinhos do Daomé. O Santo Antônio eu virei de costas, roguei a Iemanjá que me sacasse as águas do coração, com Kali e Ogum tive uma conversa sobre a guerra em mim. À Ísis, entendida de amores desmembrados, implorei abrigo.
No final da noite, de bruços no chão, descabelada e louca me devotei a Alá, Thor, Zeus e Yaveh.Tudo combinado, oferendas aceitas, eu finalmente voltei a mim. Veio meu inverno e eu estava com o corpo e a alma encomendados pra nunca mais sentir o mal.
Mas quando o sol chegou aquecendo o mundo, percebi você. Tremi e recorri aos deuses. No chão da clareira, sinais apagados encontrei o coração que lhes tinha ofertado. Íntegro, pulsante e ainda rubro de mim. Esbravejei aos céus e terras. Levantei almas de um sono infernal; e então me vieram Baco, Eros e um anjo triste. Disseram que fui devolvida, não fui aceita para ser árida, seca e indiferente.
Teria que voltar em meus passos e sobreviver ao mal do amor. Tantas vezes e por tão pouco em troca e por tanto tempo quanto vivesse. Decidiram assim e assim será.
Antes de partir Eros me feriu o peito em um gume envenenado para que eu jamais possa desistir. Eu então, assustada mas pensando em você; aceitei a sujeição. Vou amar de novo, e de novo, pra todo o sempre. Mas eu posso pedir ainda, que quando o castigo acabar joguem as cinzas do que tenha sido eu bem nos pés de um tufão, pra que eu me desfaça em grãos e pó e nunca possa recomeçar.

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