domingo

A Mensagem

Aconteceu de novo. Acordei de um sobressalto e o que corria nas minhas veias era lava pura. Minhas idéias tinham sido embaralhadas por um croupier de Vegas; eu nem sabia que dia era.
Tentei falar comigo e não consegui porque eu já não falo a mesma língua que eu.
Nãoooooo !!!!!
Foi só o que eu consegui vomitar antes que aquela dor me partisse ao meio de novo. Tudo porque olhei para o telefone e você estava lá num envelope fechado piscando pra mim. Foi o que me acordou. Não você com seus carinhos, apenas um você perdido pra mim. O terremoto em mim derrubou o telefone, o abajur e o meu controle. Até o envelope que mostra você parece elegante. Não parece um envelope sem cor na tela de um celular e quando abro o que salta no meu coração ferido não são palavras, mas a tua voz de homem na inteira posse de si mesmo.
Nada parecido comigo que nem me encontro em mim; já que num simples segundo sou arrastada da minha pretensa paz pelo tsunami chamado 'você'.
Vivo...você está vivo. Chega de mentir pra mim. Eu te matei de tantas formas e tantas vezes que passei a acreditar na minha obra. Eu te tatuei lentamente todo com meu nome e depois eu te cobri de pregos, te queimei à ferros e finalmente te esquartejei. No final eu comi teu coração porque só de olhar pra você já me dava fome.
Fiz tudo isso nas longas noites em que não houve um envelope piscando ou uma ligação. No meu desespero me tornei uma artesã da tua morte sem medo de confessar o crime de mulher desesperada. Sem me importar com o FBI ou a Interpol me perseguindo em sonhos pelo mundo à fora. Eu cheguei a vestir o quarto de branco e te crucificar num ritual pra poder assistir você implorar meu perdão por semanas...meses...anos...
E agora, justo agora que eu andava conseguindo sorrir, que eu andava podendo me ver no espelho você surge no meio da minha noite calma. Me arrasta pra essa dor titânica sem a menor vergonha de se fazer de fênix na minha vida.
Eu sei e você também sabe que seus sumiços me enlouquecem porque mostram que você não pensa em mim. E se você aparece eu enlouqueço porque é tentador pensar que você sente falta de mim. Na verdade fico esperando toda noite meu poltergeist voltar e me mandar abrir a porta. Chego a me ver correndo para o espelho e abrindo a porta pra deixar você tomar mais um pedaço roubado da minha vida com toda a arrogância que te é peculiar.
Não, eu não sou louca, você é que é. Você sabe que é louco de me perder e admite. E a cada vez eu me sinto mais cansada e te mando embora antes que me ajoelhe e implore por clemência. Eu chego a me ver, ali na sala, no robe transparente que comprei pra te impressionar. Eu ali, agarrada aos teus pés depois de você ter gravado seu cheiro em mim demarcando um território que não deveria mais ser seu. Por isso sempre te mando embora antes dessa cena patética e me jogo na cama pra te matar de novo.
É um processo terrível que arranca do meu calendário mais alguns dias. Dias e noites até poder entender de novo o que eu mesma falo e aquela lava esfriar em mim.
Então passa um tempo e você resolve me implodir de novo. E eu espero ansiosa você exercer seu direito de rebobinar a fita num movimento antigo que traduz a história de nós dois.
Me sinto assaltada e gosto. Me sinto ofendida e aceito. Me sinto uma doida e nem me importo mais. É minha punição preferida te permitir ser um morto que anda e que as vezes, só algumas vezes, parece ter voz pra mim. Depois você volta pra sua vida e eu fico aqui perdida em delírios.
Posso dizer de boca cheia que eu odeio você. Odeio esse seu poder, sua ironia e sua meiguice. Odeio suas mãos lindas e seu jeito único de me olhar sem me ver.
Você é execrável no seu egoísmo. Eu sou impagável na minha comiseração.
Chega agora de escarnecer da minha inteligência perdida. Quero perder a lucidez para um Valium. Mas antes eu vou desligar este maldito telefone mudo que me impede de dormir, esperando por você.

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