quinta-feira

Solteirice

Eu e uma amiga conversáva-mos dia desses sobre a liberdade de viver em nossa própria casa. Claro que somos animais que formam matilha, ou casais...não ficamos muito tempo a sós se tivermos a opção de não ficar. Mas nós fomos lembrando uma à outra as delícias de não dividir nosso domínio com ninguém.
Na cama, dorme-se esparramado, no meio, atravessado ou do jeito que quiser. Sem ninguém que puxe cobertas, jogue braços ou pernas ou ronque. E quando se quer companhia basta convidar alguém...no meio da noite, se vai até a porta e dá beijinho de adeus. Quando acordamos não precisamos passar pela eterna cena matinal.
O banheiro de um solteiro(a) é território minado. Pode ter toalha jogada, restos de barba na pia, maquiagens esparramadas na bancada, calcinha ou cueca no registro do chuveiro. Quando se entra lá de novo está tudo do mesmo jeito e não tem ninguém para azucrinar.
Comer...se come o que quer, na hora que quer. Se você amar ervilha e a família ou parceiro odiar ervilha, você quase nunca vai comer. Mas uma pessoa solitária pode comer ervilha todos os dias se quiser. Ou pode optar pela lasanha congelada, pela pizza, pelo sanduíche com os restos que tem na geladeira. Em compensação ninguém vai devorar o chocolate ou o sorvete que estava guardado, o que é um crime grave no convívio entre pessoas num mesmo lar.
O armário de roupas...ah, o armário de roupas...ele é todo, todinho seu.
O programa de TV, você escolhe e ninguém mais vai se adonar do controle remoto.
O melhor lugar no sofá também é seu. Aliás qualquer lugar do sofá ou todo o sofá é seu.
O carro, não tem que dividir com ninguém nem pegar de tanque vazio ou com o banco e os espelhos fora do lugar.
A gente concluiu que não se consegue dar o real valor a preciosidades como esta. Estamos sempre em busca de alguém para invadir nossa vida, se espalhar em nosso território e revirar nossa rotina tão egoisticamente maravilhosa. Por que será que a gente não resiste?
Sente falta de uma perna invadindo nosso lado na cama, de comer o que não gosta, de ter que dividir o banheiro, de ver que o carro foi batido...Não adianta negar. Todo mundo adora.
A verdadeira dimensão da privacidade só se passa a ter, quando a loucura, a febre e a paixão passam. Ou quando os filhos vão embora de casa. Ou quando a irmã vai estudar em outra cidade.
Não conseguimos chegar a conclusão alguma sobre o que motiva esta insistência, essa dependência, essa busca desenfreada. Claro que os motivos são milhares, mas nós preferimos nem filosofar. Fato é que estamos aproveitando todas estas mordomias. E estamos a ponto de ceder nosso paraíso particular...de novo.

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