Quando eu era pequena, lembro bem de cada instante...
Meu avô, ah meu avô.
Meu pai-avô-amigo, meu protetor, meu querido.
Nós éramos cúmplices de grandes armações. Fugíamos de todos para navegar de Opala pela cidade com um belo saco de chocolates entre nós. E nós brigávamos pelos melhores chocolates.
Meu avô era chocólatra...mas era muito mais que isto.
Nós víamos filmes do corujão, mas antes, saíamos na noite para buscar sorvete em mágicas caixinhas de isopor. Pistache não...hehehe. Chocolate e creme, por favor.
Adorava o doce Rei-Alberto.
Eu o acompanhava como um filhote de gato. À tardinha ele chegava para tomar seu banho e se arrumar para sair. Calças bem passadas; uma exigência...perfumes a escolher.
Um homem cheiroso e elegante meu avô.
Um gentleman...
Pela manhã íamos para a fazenda. Lá eu brincava em baixo dos araçás ou andava no cavalo rosilho que era de todos e de cada um. Lá eu comia massa crua de pão de casa, subia escondida nas imensas pilhas de sacos de arroz, invadia a casa de máquinas do gerador.
Enquanto meu avô fazia pagamentos sentado no escritório, eu andava desbravando campos com seu binóculos: "não vá perder isto minha filha"...
"Oooo Vô, eu posso......Ooooo, Vô eu quero......Ooooo Vô, me leva"
"Você passa o dia dizendo : OVÔ !!!!!!! "
E assim, éramos parceiros.
Não conseguiram fazer de mim uma menina. Eu era muito mais do meu avô...e meu avô não dava bola pra meninas. Meu avô gostava mesmo era de mim, e isso era a melhor coisa do mundo.
Viagens para a praia...
Viagens para a serra...
Dente quebrado por chocolate. Tombo nos patins que ele comprou.
O primeiro livro que eu comprei foi na companhia dele. A Vida na Terra do Reader's Digest. Fomos juntos e eu mesma entreguei o dinheiro ao livreiro. Tinha uns 6 anos. Nele está escrito que a sua querida neta tem todo o seu carinho. Sua letra é uma arte. Seu amor é toda minha garantia de felicidade.
Uma valsa nos 15 anos...na foto estamos de mãos dadas, sorriso cúmplice.
Dia 06 de outubro de 1920 nasceu meu avô. Já não está aqui. Só a pouco ele se foi.
Quando ele partiu me senti órfã. Órfã nunca fui...tive o bastante de meu avô.
E ter tido meu "Oooo Vô" foi tudo de que precisava. Hoje sei.
Onde estiver, obrigada vô...você foi o pai que eu amei.
Um avô...Que bom ter tido um! Bonita homenagem.
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