domingo

A Selva em nós

A selva está por aí...
Tenho lido sobre ela minha vida toda. Tenho vivido dentro dela minha vida toda. Tenho tido ela dentro de mim por toda a minha vida. Tenho ouvido muito falar sobre ela.
Selva. Selva de pedra...isto é uma selva...ele é um selvagem...é como viver em uma selva...
Os contextos são os mais variados.
Mas espere. A selva sempre esteve aqui. A selva veio antes. Ela é mais antiga do que tudo que se nos apresenta agora. Falo aí naquele tipo de selva a quem fui apresentada pelo mestre Rudyard Kipling, o homem que tornou minha juventude muito mais interessante do que qualquer aventura de bruxos, vampiros ou dragões poderia tornar. Mas Kipling que viveu as ‘intensa luz e escuridão’ da verdadeira selva me ensinou em seu ‘Livro da Jângal’ que a selva tem boas leis e bons habitantes.
Então o que terá havido de lá para cá?
Qual a diferença da selva que Kipling conheceu, para a selva que recebeu Ingrid Betancourt. Uma colega de cativeiro da ex candidata à presidência colombiana, ao longo de seus sete anos de prisão na selva, chegou a expressar que ‘adorava aquele lugar’.
Eu sei de onde vem a profunda diferença de entendimento de quem se sente em um paraíso ou em uma prisão na selva verde, na verdadeira Jângal. É do mesmo lugar onde vem a diversidade de sentimentos de quem vive em outros tipos de selva.
Não, não se iludam. Não é a selva. Somos nós.
Como eu já disse antes, a selva é ela mesma. Está contida em si, no mesmo formato à milênios. Mas não. Falo mesmo da selvageria que habita em nós. Por que favorecer tal qualidade com uma similaridade ofensiva ao paraíso perdido da natureza terrena.
Nós, habitando o verde ou o concreto somos coisas muito mais ferozes.
O que mais explicaria espancar, queimar com cigarros ou inserir agulhas no próprio filho...seleção natural e aprimoramento da raça como no caso dos leões que matam o filhote do adversário? Acho que não.
O que pode justificar amarrar um cachorro a um carro e sair correndo em alta velocidade? Diversão como faz um filhote de cachorro com um pequeno grilo? Acho que não.
O que leva homens a terem prazer em armar emboscadas, prender inocentes em nome de causas absurdas e degrada-los até a loucura e morte? Justiça de massas. Acho que não.
Não amigos. Por favor, não vamos mais cometer o impropério de chamar o lugar, o tempo e as condições em que vivemos de selva. A teoria do ‘bom selvagem’ de Rousseau nunca esteve tão distante de nós. As utopias, projeções otimistas, tentativas de dourar a pílula não tem funcionado muito. Então por favor, deixem a selva em paz.
Nós não vivemos na selva. Não importa onde estejamos. Nós é que somos uma coisa qualquer que merece uma denominação que não é a de selva. Unicamente a nós cabe esta denominação no seu mais profundo sentido. Shere Khan tratou Mowgli com uma dignidade que nenhum homem jamais teve para com seu adversário. Rudyard soube traduzir a verdadeira selva como ninguém. Nós nos apropriamos da idéia....mas não fazemos jus a ela. Absolutamente.
Não servimos como selvagens. Merecemos outras denominações que não ofendam aos habitantes da gloriosa Jângal submetidos a uma injusta e forçada comparação conosco.
A selva que está em mim e em você, não é a verdadeira selva...tenha certeza disto. Tem outros nomes, nenhum deles tão bonito e singular como....Jangal.....Jungle....Dschungel.....Giungla.....Jungelen......Orman......Foré...
Talvez sejamos um povo de Bandarlogs, macacos sem lei, sem preceitos ou parâmetros que agridem e mentem, destituídos de inocência, ignorantes...Habitantes e habitados por um desatino sem par na natureza pura.

2 comentários:

  1. Gostei muito da sua visão da selva, notei muitas semelhanças com uma outra selva, rsrsr. Mas é uma verdade, chamamos de selva um mundo que criamos, uma selva que destruímos. E isso não é justo com a verdadeira, de fato a ofendemos.Não li Rudyard Kipling, mas acredito relmente que a verdadeira selava e seus selvagens é um lugar melhor.

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  2. Bem eu tinha esuqecido que vc é um homem da selva amigo...eu o foi por um tempo. Deve ter presenciado que há mais justeza lá do que aqui.
    Portanto a selva está é em nós...

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